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Genocídio armênio: apenas perdedores
- Redacao Midia@Mais
O Senado francês está denominando de genocídio o massacre dos armênios – sem mencionar os armênios (a lei prevê a criminalização da negação de todo genocídio reconhecido como tal – e isso é chamado de casuístico) – pelo exército otomano há quase um século, não para reescrever a história, mas para tomar o partido dos ativistas armênios contra o governo turco.

O senado francês está denominando de genocídio o massacre dos armênios – sem mencionar os armênios (a lei prevê a criminalização da negação de todo genocídio reconhecido como tal – e isso é chamado de casuístico) – pelo exército otomano há quase um século, não para reescrever a história, mas para tomar o partido dos ativistas armênios contra o governo turco.

O governo da Turquia merece essa derrota política pelo seu mau relacionamento tanto com os armênios que ainda vivem no país, como com aqueles que vivem no Ocidente e os da Armênia independente.[1]

É lamentável que as discussões travadas na própria Turquia não levem a uma relação clara do massacre que poderia ter sido aceita pelas duas partes. Seria mais aceito que o governo turco não é herdeiro do Império Otomano que perpetua os massacres? Por que a rejeição turca? Os turcos tiveram sempre suas frustrações depois da metade do século XIX, pelo o apoio sistemático dos Estados Cristãos Europeus aos Armênios: o voto do Senado francês faz parte dessa tradição que remonta ao Congresso de Berlim em 1878, quando as potências europeias se posicionaram em defesa dos armênios otomanos. Além disso, os armênios se encontravam em disputa na Anatólia oriental com os curdos, que também desejavam criar um Estado independente no mesmo território que eles. Curdos e armênios eram rivais e se enfrentavam, matando uns aos outros; o único denominador comum era o desejo de desmantelar o Império Otomano. Os curdos, assim como os armênios, receberam o apoio externo da Rússia e da Grã-Bretanha. [2]

Este entrelaçamento dos povos e das reividicações nacionais foi fatal para os armênios da Anatólia. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, os armênios, com o apoio do exército russo no Cáucaso, estavam prestes a tomar os otomanos pelas costas. Assim, os otomanos decidiram então transferir – não exterminar, embora dê na mesma – os armênios da Anatólia para a Turquia Ocidental. O massacre ocorreu durante a longa marcha forçada. Ao mesmo tempo, os armênios, numerosos em Istambul, não foram massacrados, mas colocados em vigilância. Se o massacre não foi questionável, o genocídio é contestável, pois não foram os armênios  como “etnia, raça” que foram perseguidos, mas sim os armênios enquanto uma nação dissidente.

Uma outra razão que compromete o governo turco atual em suas contradições é o papel dos curdos nesse caso: grandes matadores de armênios, os curdos se apropriaram de suas terras quando eles foram expulsos e ainda estão lá. A denominação de genocídio abriria o direito à restituição de suas propriedades aos armênios, sob o risco de fazer explodir na Turquia a parte oriental habitada pelos curdos.

Entendemos um pouco o comportamento e a falta de jeito do governo turco. As motivações dos armênios no exílio após três a quatro gerações são muito complexas: elas são, sem dúvida, exemplos da “vitimologia”, uma vontade coletiva de ser reconhecido como vítima. Existe nos Estados Unidos um movimento parecido entre alguns intelectuais negros que desejam que a escravidão nas duas Américas seja reconhecida como genocício – com direito à reparação. Em Vendée (mais importante que somente uma região), o historiador Ronald Seyches fez campanha depois de 25 anos para que a República francesa reconhecesse o “genocídio vendée”. De fato, a Comissão de Saúde Pública, em 1793, ordenou o extermínio da população vendéenne mesmo com o fim da guerra civil. [3]

Resta se perguntar sobre as motivações dos senadores franceses? Como não se pode ignorar também a complexidade dos acontecimentos de 1915 na Anatólia, supõe-se que a motivação seja por questões mais imediatas. A influência do voto armênio? Isso me parece superestimado porque somente são abrangidos dois ou três distritos (Marselha, Issy-les-Moulineaux) e todos os armênios da França não são mobilizados em volta do reconhecimento do genocídio. Muitos deles, com exceção  dos mais militantes, sabem que esse voto vai fazer mais difícil ainda uma reconciliação na própria Turquia entre curdos, armênios e outros muçulmanos. Sem dúvida, a motivação é a candidatura da Turquia à União Europeia, e sua rejeição por um grande número de franceses, constituem a razão verdadeira, mas não confessada dessa votação histórica. Teria sido mais válida a declaração explícita que instrumentalizar e apoiar a causa armênia.

Alguns armênios conquistaram uma vitória simbólica: o governo turco perdeu. Mas, afinal, eu só vejo perdedores: uma reconciliação impossível na própria Turquia, a fronteira permanentemente fechada entre a Turquia e a Armênia, a presença da Turquia nos campos de refugiados muçulmanos, apesar dos turcos aspirarem à sua europeização – e nós precisarmos deles para pacificar os vizinhos na Síria e no Iraque.

 

Tradução: Maria Júlia Ferraz

Disponível no site do autor


[1] Nota Tradutora: Guy Sorman se refere à aprovação pelo Senado Francês da lei que pune a negação do genocídio armênio pelos turcos. Para ler mais sobre o assunto: http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/senado-frances-aprova-lei-sobre-genocidio-armenio

[2] NT: O Congresso de Berlim (1878) substituiu o Tratado de Berlim do mesmo ano e é uma demonstração de como uma outra região - no caso, os Balcãs - era conflituosa já naquela época. A participação decisiva de Bismarck nesse congresso também revela os profundos interesses alemães em manter uma parceria com o Império Otomano.

[3] NT: Lembrando que no Brasil, se estuda a Revolução Francesa como um processo de três fases, dessa maneira, 1793 corresponde ao período em que os jacobinos estão no poder. Como houve reação dos católicos (episódio conhecido como contrarrevolução) na região citada por Guy Sorman entre os anos de 1790 a 1792, ao assumir o poder, a República de Robespierre exterminou muitos de seus inimigos, entre eles os Vendées.

 



 
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COMENTÁRIOS
22/09/2012
(Regina )

Sorman está correto. Chirac, quando em campanha na busca da aprovação holandesa e francesa à Constituição Europeia, falava duas coisas: a Turquia não poderia ser aceita pelas diferenças econômicas e culturais, além de se tornar uma porta aberta para a entrada de muçulmanos na CE, e que só unidos os europeus da comunidade poderiam, este citado nominalmente por Chirac. se sobrepor aos mercados emergentes como o Brasil. Com o tempo a economia turca cresceu, e parte da argumentação de Chirac perdeu valor. dai, para continuar impedindo a adesão turca à CE surgiram novos argumentos, isto é, o reconhecimento pela Turquia de que cometeu genocídio contra os armênios.
 
08/02/2012
(Fernando)

Quando os armênios exploram o genocídio que sofreram como uma arma política a seu favor, apenas seguem a prática de outro grupos que obtiveram muito sucesso com essa tática. O melhor exemplo são os judeus que usaram a comoção causada pelo genocídio dos nazistas para aprovar a criação do estado de Israel.
 
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