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A festa acabou
- Joao Luiz Mauad
Muitos analistas, ingenuamente, creditam os atuais problemas europeus ao euro, à especulação, à moderna engenharia financeira e até mesmo ao famigerado neoliberalismo. Embora as evidências saltem aos olhos, costumam ignorar que, muito além de uma mera crise monetária ou de crédito, o que está em xeque é o próprio modelo de bem estar social.

Muitos analistas, ingenuamente, creditam os atuais problemas europeus ao euro, à especulação, à moderna engenharia financeira e até mesmo ao famigerado neoliberalismo. Embora as evidências saltem aos olhos, costumam ignorar que, muito além de uma mera crise monetária ou de crédito, o que está em xeque é o próprio modelo de bem estar social.

 
Como  bem colocou em recente editorial o The Wall Street Journal,  seja na Itália, na Grécia, na Espanha, em Portugal ou até na França, o welfare state atingiu o limite. Sucessivos governos no continente, tanto à direita quanto à esquerda, têm financiado "direitos" generosos com altos impostos e pilhas enormes de dívidas. Suas economias, porém, não conseguem crescer rápido o suficiente para manter a farra – como prevê a boa teoria econômica. O acerto de contas chegou.
 
O visionário Aléxis de Tocqueville foi talvez quem melhor definiu o que viria a ser, mais tarde, a "social-democracia", ainda que não tenha vivido para testemunhá-la. Na obra A democracia na América, ao imaginar sob que possíveis novas características poderia reaparecer no mundo a tirania que tanto desprezava, ele anteviu uma espécie de "escravidão disciplinada, moderada e serena", a qual, sob a égide da igualdade, seria aceita e até desejada.
 
Segundo Tocqueville, os futuros governantes, movidos pela compaixão para com seu povo, tratariam de "prover sua segurança, antecipar e satisfazer suas necessidades, dar gosto a seus prazeres, resolver suas principais inquietudes, dirigir seu trabalho ". O tirano moderno, diz o mestre, controla toda a vida social por meio de uma rede de normas secundárias e complexas. " Não anula a vontade das pessoas, mas a refreia, a inclina e a dirige; raramente ordena atuar, mas frequentemente inibe as iniciativas; não destrói nada, mas impede que se criem muitas coisas; não é em absoluto despótico, mas obstrui, reprime, debilita, sufoca e embrutece, a ponto de transformar os povos num mero rebanho de animais medrosos...".
 
Malgrado sua concepção eminentemente coletivista e inibidora da liberdade, a experiência social-democrata que floresceu na Europa Ocidental após a Segunda Guerra manteve o modelo econômico capitalista, pelo menos no sentido de que a propriedade privada dos meios de produção era permitida, ainda que altamente concentrada nas mãos de uns poucos.
 
O arquétipo do "capitalismo selvagem" foi substituído por um sistema híbrido, que combina grandes conglomerados industriais e financeiros, frequentemente patrocinados e tutelados pelo Estado, uma agricultura altamente subsidiada, além de empresas miúdas – quase sempre comerciais ou de prestação de serviços.  Fora isso, a hipertrofia dos governos formou um enorme contingente de funcionários públicos, que em alguns países chegou perto de 50% da população economicamente ativa.
 
O advento da social-democracia europeia ocorreu em meio à Guerra Fria, em um período marcado pela limitação à livre movimentação de pessoas, de capitais e de produtos, quase sempre mediante rígidos controles burocráticos e a imposição de barreiras tarifárias. 
 
Com a queda do Muro de Berlim e, em especial, a aceleração do processo de globalização – consequência direta da profusão de novas tecnologias, que permitiram a movimentação muito mais dinâmica da informação, dos capitais, dos produtos e do próprio trabalho – as sociedades europeias se viram, da noite para o dia, numa sinuca de bico, obrigadas a  uma reavaliação profunda do modelo, algo até então impensável.
 
Essa mudança traumática de rumo, notadamente para aqueles que se acostumaram a ter e almejar privilégios "sociais" abundantes à custa do trabalho alheio, ocorre muito mais por falta de opção do que por escolha.  E não é para menos: enquanto a taxa de natalidade não para de cair e os velhos vivem cada vez mais, crescem os gastos com saúde e aposentadorias. Por outro lado, a relação entre trabalhadores ativos e inativos diminui rapidamente, tudo em meio ao baixo crescimento, que  já dura décadas.
 
Margareth Thatcher foi uma das primeiras a entender que as políticas da social-democracia precisavam ser revistas . Ela compreendia a natureza da armadilha econômica em seus dois aspectos principais. Em primeiro lugar, não é possível manter um mercado de trabalho baseado na estabilidade do emprego, especialmente em vista da evolução tecnológica, que cria e destrói ofícios e profissões numa velocidade tremenda. Em segundo lugar, as instituições de proteção social, concebidas fundamentalmente para compensar o fracasso individual, fomentam  a ineficiência, num mundo cada vez mais competitivo.
 
Thatcher concluiu, há 30 anos, que as premissas do "marco social" – que imperou a partir da 2ª Guerra – haviam sido derrubadas e, a menos que a social-democracia se transformasse profundamente, seria varrida pelo furacão da globalização. As reformas liberalizantes que seu governo produziu, no entanto, se deram algum fôlego à economia britânica, por algum tempo, já foram completamente revertidas pelos governos esquerdistas que a sucederam – preocupados, como sempre, não com os baixos índices de crescimento e produtividade, mas com a demagogia do "bem comum".
 
Evidentemente, a derrocada do welfare state não se dá de forma uniforme. Dependendo da cultura, é mais lenta ou mais rápida. O modelo é mais resistente, por exemplo, nos países nórdicos e anglo-saxões, de ética protestante e valorização do trabalho, do que nos países mediterrâneos, mais afeitos ao patrimonialismo e à cultura de privilégios. Mas não se iludam: mesmo na forte Alemanha, mais dia, menos dia, mudanças de rumo terão de ser feitas, nos moldes das  feitas pela Dama de Ferro inglesa.
 

 

 



 
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COMENTÁRIOS
22/12/2011
(Dauam)

Gostei muito do artigo, só quanto ao bem comum eu discordo. Está expressão causa um certo mal estar por ser usada indevidamente. Quando se fala em bem comum como doação de dinheiro como é feito no Brasil, causa até dor, pois não é isso. O bem comum tem estar no uso do dinheiro arrecadado do contribuinte para o uso comum o que vai atingir, normalmente, os mais necessitados, com aplicações em hospitais, escolas, infra estruturas estradas para escoamento da produção etc.O que se tem no Brasil é outra coisa chamada paternalismo, um cancro que vai minando o dinheiro e sendo mal usado. O bem comum é ótimo quando bem feito e não roubado.
 
14/12/2011
(Wagner)

Penso que o Estado existe para servir à sociedade no sentido de se buscar realmente o bem comum e não ser um Estado assistencialista. O Estado deve dar incentivo e proteção para que todos se desenvolvam pelo seu próprio fazer. O dinheiro dos impostos deve ser usado com parcimônia pelo Estado. É de bom senso que o Estado ofereça assistência naquilo que os indivíduos, sozinhos ou não, não consigam, no caso o bem comum e não o bem de todos. Prezado João Mauad o senhor conhece o economista Adriano Benayon? Se conhece o seu trabalho qual a opinião que o senhor tem do que ele escreve? Ele parece ser a favor da intervenção estatal na economia desde que se baseia no sentido de desenvolver e proteger a indústria nacional. Até mais. Prezado, Para mim, o Estado deveria ser apenas a organização coletiva de defesa dos direitos individuais do ser humano - vida, liberdade e propriedade.  Quanto ao senhor Benayon, confesso que nunca ouvira falar dele.  Mas uma rápida pesquisa no Google deixou claro que a música que ele toca não é nada agradável aos meus ouvidos. Sds João Mauad
 
13/12/2011
(F.Carlos)

Excelente artigo, como sempre. Trabalho no serviço público, posso dizer que a situação é bem pior, o dinheiro público é jogado no ralo, especialmente, nas transferências voluntárias (convênios e termos de parceria), não só as ONG, mas também os estados e os municípios não têm competência para utilizar os recursos públicos e o governo federal não tem capacidade de fiscalizar.
 
13/12/2011
(Theo)

Devemos evitar a todo custo a institucionalização do estado-babá sob o risco de extinguir a humanidade.
 
12/12/2011
(José Carlos)

Pelo menos o autor admite ser tendencioso na sua visão liberal. O problema é que essa visão não condiz com os fatos. Como explicar a crise na Irlanda e na Islândia, que seguiam a cartilha do liberalismo econômico? Países antes cantarolados como sucesso do modelo liberal que agora pedem socorro? Que o partido conservador e liberal que governava a Islândia há décadas teve que ser trocado por uma primeira ministra lésbica e social-democrata, que está tirando o país da crise? Como se explica a imensa dívida pública de Cingapura, que lidera os rankings de liberdade econômica? Que os demais países escandinavos mantêm as políticas de wellfare state mais abrangentes do mundo e as menores dívidas públicas de Europa? O liberais vivem em uma realidade alternativa. Nosso amigo José Carlos recorre à velha falácia lógica post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo causado por isso"), que consiste na ideia de que dois eventos que ocorram em seqüência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação causal. Sobre a Islândia, não tenho muitas informações, mas sobre a Irlanda, a ideia de que aquele país seguiu a "cartilha do liberalismo econômico" é falsa como uma nota de três reais.  De fato, o país incentivou investimentos estrangeiros, fez investimentos maciços em educação e reduziu impostos, o que provocou um crescimento econômico inédito para aquele pequeno país.  Mas seu governo caiu na mesma armadilha dos americanos.  Deu incentivos artificiais para os investimentos imobiliários, criando uma bolha imensa.  Para sorte dos irlandeses, entretanto, o governo não tinha recursos para evitar a quebradeira, o que provocou uma recessão profunda, mas passageira.  Hoje, a Irlanda é um dos poucos países europeus que já deixaram a crise para trás. Sobre Singapura, a dívida pública não é um parâmetro de liberdade econômica.  O gasto público e a carga tributária, sim.  Nesses dois quesitos, Singapura vai muito bem, obrigado.  Sua carga tributária é de aproximadamente 14,2% do PIB (que inveja!) e os gastos públicos estão em torno de 17%!  Como o déficit é pequeno (2,8%), o governo não tem problema para administrar a dívida (veja detalhes neste link: http://www.heritage.org/index/Country/Singapore ). Sobre os países escandinavos, o estado-de-bem-estar não é exatamente o que faz deles exemplos únicos para a humanidade. Esses países têm uma população homogênea, com uma das culturas melhor adaptadas para o sucesso.  Ali existe altíssimo índice de cooperação, confiança mútua, ética no trabalho, valores familiares e responsabilidade individual.  Os países escandinavos são talvez o melhor exemplo de como, quando se olha para o desenvolvimento sócio-econômico, muito acima das políticas macroeconômicas estão as instituições, a cultura e a ética.  Eu arriscaria dizer que, com todas essas vantagens, mesmo se tivessem experimentado o modelo comunista, teriam se saído melhor do que quaisquer outros.  Isso não quer dizer, como eu disse no último parágrafo do artigo, que algum dia não terão também que fazer as suas reformas.  Sobre o assunto, eis uma leitura interessante: http://super-economy.blogspot.com/2011/01/moderate-tax-sweden.html   No mais, eu diria que a realidade alternativa é, em pleno século XXI, acreditar ainda que existe almoço grátis. João Mauad
 
12/12/2011
(Edenilson)

Segundo Max Weber, o protestantismo de sua época era bem diferente do protestantismo de Luthero, que foi considerado pelo autor ainda mais retrógado que os papas. Tá lá escrito!
 
10/12/2011
(Renato da Silva)

Achei seu artigo muito tedencioso senhor João Luiz Mauad. Pelo visto os liberais como o senhor e os sociais-democratas não tem a mínima ideia do que seja bem comum. E vamos para com esse romantismo idiota de que a "ética protestante e valorização do trabalho" foram responsáveis pelo crescimento do ocidente. Será que o senhor sabe que a Reforma Protestante foi também um ato de roubo? Quantas Universidades, escolas, instituições,...pertenciam a Igrja Católia e foram tomadas na marra pelos reformadores como Calvino, Lutero, Henrique VIII,... Aliás: Existe diferença de roubo feito pelos reformadores quando tomaram instituições pertencente a Igreja Católica, para o que faz o MST? Meus artigos são tendenciosos mesmo, meu caro.  Na maioria das vezes, escrevo artigos de OPINIÃO, não reportagens ou artigos acadêmicos.  Como liberal que sou, meus artigos levarão quase sempre uma visão liberal sobre os assuntos tratados. No mais, gostaria de saber onde foi que eu escrevi que "a ética protestante e valorização do trabalho foram responsáveis pelo crescimento do ocidente"? Sds J Mauad
 
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Redação: Paulo Zamboni
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