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Os helenos estão mal da cabeça
- Guy Sorman
Da civilização helenística, os gregos conservaram viva uma tradição, a da tragédia.   Acabou-se de concluir um acordo europeu muito favorável aos gregos, inesperado mesmo: o governo socialista de George Papandréou fez uma mudança de curso intrigante ao anunciar um referendo inesperado. Referendo que não vai acontecer, mas a questão permanece.

Da civilização helenística, os gregos conservaram viva uma tradição, a da tragédia.   Acabou-se de concluir um acordo europeu muito favorável aos gregos, inesperado mesmo: o governo socialista de George Papandréou fez uma mudança de curso intrigante ao anunciar um referendo inesperado. Referendo que não vai acontecer, mas a questão permanece.

Estavam preparados para que os gregos celebrassem a renúncia de metade de sua dívida, com poquíssimas condições incômodas. Que pessoas não se alegrariam com um tratamento tão benéfico? Não os gregos.
 
Tentamos compreender. Existe uma primeira explicação quase racional sobre a tentação do referendo: o governo precisaria de um mandato democrático incontestável para impor ao povo grego as medidas austeras que exigem o acordo europeu e o reembolso das dívidas restantes no prazo.
 
Outra explicação quase racional: o referendo poderia ser uma manobra de chantagem para obter da Europa não 50%, mas 60% de redução da dívida. Mas esses argumentos racionais não são muito persuasivos porque jamais os europeus, e sobretudo os parlamentares alemães, aceitariam uma redução de 60% que poderia colocar em perigo a existência dos bancos franceses.
 
Ceder à chantagem grega encorajaria também os outros elos fracos da Europa, como a Itália e a Espanha, a não reduzir seu déficit público. Isso conduziria juntamente a Europa rumo à falência e a uma longa recessão.
 
O referendo é necessário para que os gregos aceitem as medidas austeras, argumenta o governo de Atenas? Não acreditamos muito, porque o governo de Papandréou não aplicou, até agora, nenhuma das resoluções anunciadas em sua maioria socialista; em particular o programa de privatização, que não causaria nenhum impacto sério na vida cotidiana dos gregos. Deve-se, portanto, procurar uma explicação a esta tentação do referendo em decorrência da lógica econômica pura ou uma exigência democrática.
 
Há, por trás da crise grega, um subtexto, um não dito, que esclarece tanto o projeto do referendo, como a tolerância dos outros europeus a um comportamento irracional dos gregos. A Grécia, em verdade, é constantemente ameaçada pela violência política das correntes extremas: uma extrema direita nacionalista e uma estrema esquerda revolucionária e marxista.
 
A guerra civil de 1947-1949, que foi suprimida por uma intervenção militar anglo-americana, é um fantasma que assombra a sociedade grega; a ditadura militar de 1967-1974 é outro fantasma. Todos governos gregos e toda a comunidade política europeia são assombrados por dois espectros. A Grécia não é apenas uma ameaça para a estabilidade da zona do euro, ela é uma ameaça ao se considerar o princípio irreversivelmente democrático da Europa. A redução da dívida, como o referendo, são em grande parte tentativas para matar na origem a tentação da revolução marxista e a tentação autoritária. Isto vai ser o suficiente para reancorar a Grécia dentro do campo democrático? Não totalmente.
 
O referendo, se tivesse ocorrido, teria sido jogado no fio da razão, o que teria perpetuado as não reformas se o Sim tivesse prevalecido. Ou ele teria feito a Grécia sair da zona do euro se o Não tivesse ganho.

Falta na Grécia hoje uma Antígona [*] que diga a verdade: Antígona convidaria os gregos para debater publicamente o seu passado que não vai passar e explicaria como restaurar o drama reconduziria a Grécia ao Terceiro Mundo. Antígona explicaria que substituir a democracia imperfeita por um regime autoritário ou revolucionário privaria a Grécia de seus habitantes mais esclarecidos. Antígona, é verdade, acabou enforcada.

 

Tradução: Maria Julia Ferraz

Disponível no site do autor

 

[*] Antígona, personagem grega imortalizada na tragédia de Sófocles, que compõe parte da Trilogia Tebana. Filha dos incestuosos Édipo e Jocasta, Antigona enfrenta o despótico tio Creonte, tirano que assumiu o trono de Tebas após Édipo abandonar a cidade ao saber que sua esposa era sua mãe biológica. Ao pedir publicamente que o tio permitisse que ela enterrasse o corpo do irmão, através do argumento de que as leis sagradas não deviam ser ignoradas, acaba sendo condenada à morte: sua pena seria o sepultamento ainda viva. Antígona se enforca na versão de Sófocles.

A comparação aqui é justamente por conta da coragem de Antígona de enfrentar um tirano e convidá-lo ao debate público sobre o caso de manter insepulto o corpo do jovem Polínice, algo inaceitável entre os gregos. Se era algo tão importante entre os gregos, porque Creonte não dera ouvidos à jovem sobrinha? Porque, como tirano, acreditava-se acima das leis. Essa coragem de dizer o óbvio apesar do risco é cada vez mais raro!

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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