Boa Noite ! Hoje é Segunda Feira, 23 de Outubro de 2017.
 
Fique por dentro de nosso conteúdo em sua caixa de e-mail:
 




 
> Economia
Compartilhar
A crise do Euro não ocorrerá
- Guy Sorman
Os governantes na Europa felicitam-se uns aos outros por salvar o Euro, a zona do Euro, a Europa. Mas nem o euro, nem a zona do euro, para não falar da União europeia, correm o risco de desaparecer por falta de pagamento da Grécia, nem em razão dos erros de gestão dos bancos que emprestam à Grécia.

Os governantes na Europa felicitam-se uns aos outros por salvar o Euro, a zona do Euro, a Europa. Mas nem o euro, nem a zona do euro, para não falar da União europeia, correm o risco de desaparecer por falta de pagamento da Grécia, nem em razão dos erros de gestão dos bancos que emprestam à Grécia.

A crise nunca foi tão local e técnica, mas a Grécia e seus credores a transformaram em uma crise maior, sistêmica como se diz, por aqueles que teriam vantagem direta e pessoal com a amplificação dos problemas.

Os gregos antes de tudo queriam demonstrar que o fracasso do Estado grego[1] - não confundir com a nação grega - destruiria a Europa inteira, de maneira a obter o não pagamento da totalidade de suas dívidas: fato que eles estão conseguindo, porque essa dívida foi reduzida pela metade e a falência, de fato, aceita de mau grado pelos bancos credores, o que vai autorizar os gregos a se endividarem de novo em níveis toleráveis, sem a realização de privatizações maciças que, inicialmente, tinham sido exigidas deles. Repetindo Krysis, os dirigentes gregos reiteram sua performance depois de dois séculos: deixando crer que os europeus têm uma dívida histórica com a Grécia e que o destino da Europa gravita em torno da Grécia. Nós os aplaudimos.
 
Em menor medida, o governo italiano conseguiu a mesma proeza: não mudar em nada sem obter as garantias de sobrevivência financeira. A Europa, é verdade, tem uma dívida histórica com Roma, mais facilmente provada que os helenos, sem dúvida o Leopardo de Lampedusa[2]: “Tudo muda para que nada mude”.
 
Somente Angela Merkel demonstrou coragem de negar amplamente essa pseudocrise e de lembrar aos bancos que, se eles tinham gerado seus créditos, que se responsabilizassem pelas perdas. Merkel assim se posiciona porque os bancos em questão são, eles próprios, vítimas de sua própria ingerência.
 
Mas é na França que a crise foi inflada pelas mídias, os governantes e os nossos bancos que fizeram parte do sistema de poder. É gritante e enfadonho que o lobo em questão, Nicolas Sakozy, apresente-se – provisoriamente sem dúvida – como aquele que salvou o euro e a Europa. E como os franceses não gostam nem do euro, nem da Europa, os antieuropeus uivam também à crise com a esperança que ela chegue ao fim. Ai de mim! O euro está salvo porque ele não foi ameaçado! Nosso dinheiro, lembremo-nos, não é gerido por nossos governos – felizmente – mas por um Banco Central independente que jamais foi influenciado pelos apelos de desvalorização do euro, nem para pagar a inflação para vencer a dívida. Em consequência dessa gestão exemplar – porque todo desenvolvimento econômico depende, a longo prazo, da estabilidade da moeda – o valor internacional do euro, comparado com o dólar ou o Yen ou o Yuan, pouco variou em um ano.
 
Se, verdadeiramente, o euro estava em crise e a zona do euro ameaçava implodir, os investidores na Europa, nos Estados Unidos, na China ou no Japão teriam deixado de comprar e subscrever os Títulos do Tesouro especificados Euros com taxa a longo prazo de 3% para a França ou a Alemanha. Ao mesmo tempo que se cantava que o euro estava em crise, sob a pressão dos mercados, os mesmos mercados elegeram o euro para suas aquisições.
 
Essa crise do euro, em nenhum momento, poderia ameaçar nem a zona do Euro, nem a Europa, porque a maioria das trocas econômicas na Europa são realizadas em euros. O inchaço da crise tem ocorrido devido ao gosto das mídias pelos dramas e dos governos que buscam demônios para serem enterrados, agravado pela ignorância dos principais dados econômicos de base.
 
O que deve ser adicionado, por ter sido observado em primeira mão, é a atitude ambígua dos comentaristas e especialistas financeiros dos Estados Unidos. Esses nunca gostaram do euro já que, por definição, era concorrente do dólar: os estudiosos americanos nunca explicaram que o euro não poderia sobreviver na ausência de um governo econômico central e de uma fiscalização única. Mas os Estados Unidos não possuem uma fiscalização única: ela varia enormemente de um estado a outro e a confiabilidade do dólar é determinada principalmente pela independência do banco federal, da mesma forma que o euro está para o banco europeu em Frankfurt, na Alemanha.
 
O drama, ou melhor, o anúncio do drama, foi descartado; é hora de voltar ao essencial que não é o dinheiro, mas o crescimento da moeda que não é uma mola real. A crise nos ensina que a estagnação econômica na Europa não está determinada pelo valor da moeda, mas pelo grau de inovação empresarial: as taxas de crescimento alemão são superiores aos de outros países europeus, e suas taxas de desemprego são mais baixas, (quase) indiferentes ao curso do euro, mas resultantes da qualidade das empresas, de sua capacidade ou não de responder à demanda mundial. O crescimento lento na Espanha ou em Portugal, e o desemprego considerável nesses países (e na França também) não são devidos a uma crise insignificante do euro, mas a uma regulamentação excessiva do mercado de trabalho, ou mesmo a uma falta de especialização das empresas.
 
Essa crise do euro, que nem pode ser considerada assim, terá – inadvertidamente – favorecido um novo consenso econômico na Europa: os déficits públicos são sempre prejudiciais e querer estimular uma economia pela despesa pública é sempre um erro. A “crise” tem sido mais útil em propagar o pensamento econômico comum: o trabalho e a inovação são os únicos motores do desenvolvimento, sob a condição que a moeda seja gerida de maneira previsível e independente e os Estados deixem os empreendedores trabalharem. Quando os devedores inábeis ou desonestos e os credores destemperados tiverem que pagar por seus erros não repetirão suas ações equivocadas. Ou não imediatamente.

 

Mark Twain, descobrindo seu obituário em um jornal local, enviou à publicação o seguinte comentário: “O anúncio da minha morte é muito prematuro.” Isto se aplica também à Europa.

Tradução: Maria Julia Ferraz

Disponível no blog do autor

 

[1] Vale a pena ler o artigo O preço da Grécia  para compreender melhor essa situação: http://www.midiaamais.com.br/cultura/6996-guy-sorman
 

[2] Giuseppe Tomasi di Lampedusa, escritor italiano que publicou o romance Il gattopardo (O Leopardo) sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento.

 

 

 



 
Compartilhar

COMENTÁRIOS
30/11/2011
(Julio)

Como se anda de moeda, não se come moeda, não se fazem milagres com palavras nem se alimentam fogueiras com palha, o socialismo é que faliu, e não a Europa. Basta produzir comida e bens de consumo essenciais e pronto. Cada país tem uma coisa que o vizinho gosta e é isso que vai sendo revisto... E o socialismo, como paizão dos pobres virou bandoleiro, porque os seus gestores se revelaram ladrões, caso do Petismo e seus patifes. A humanidade que já passa de 7 bilhões precisa comer, vestir e sonhar menos e acreditar menos nesses milagres socialistas que alimentam uma corja de assassinos, e quando não no mínimo ladrões.
 
30/11/2011
(João Nemo)

Não deixa de ser curioso falar em "crise do Euro". Uma moeda (salvo engano o Euro é isso) não entra em crise por si mesma. Não dá para levá-la ao divã. Entram em crise as economias que vivem acima das suas possibilidades reais ignorando, por razões demagógicas, balanço fiscal, produtividade, flexibilidade econômica e tudo mais. A unidade monetária só faz parte da equação. Quanto mais tempo se evolui no caminho da irresponsabilidade sem "entrar em crise", tanto mais difícil será depois para sair. É isso que me apavora no Brasil, já que só ouvimos palavras a respeito da nossa quase invulnerabilidade. Será?
 
12/11/2011
(Renato)

Para vocês verem como a queda do Euro e dá União Europeia está próxima, vejam esse artigo de Walter Eichelburg: http://inacreditavel.com.br/wp/?p=696 Só faço um alerta para o endereço do sitio de onde eu tirei a matéria: É um sitio simpatico ao Nacional Socialismo. Mas como não tinha outra fonte, coloquei esse mesmo. Claro que eu não simpatizo com o sitio inacreditavel.com.br.
 
09/11/2011
(Renato)

Eu discordo. Para mim a crise do Euro, e da Europa, ocorrerá e virá mais rápido do que se imagina.
 
INSERIR COMENTÁRIO
Nome / Apelido
E-mail (opcional)
Comentário



Redação: Paulo Zamboni
AmbientalismoAmérica LatinaBrasilCulturaEconomiaEntrevistasEUA e GeopolíticaEuropaMídia em FocoOriente MédioPolíticaSegurança Pública
Artigos IndicadosCLIPPING@MAISEspecialLiteraturaResenhas
Home Editorial Faq Fale Conosco


Canais:
 
MÍDIA A MAIS © COPYRIGHT 2013, TODOS OS DIREITOS RESERVADOS