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Avaliando Khadafi
- Daniel Pipes
O chefe de estado há mais tempo no poder [Fidel Castro ocupava esse “posto”], teria completado 42 anos como ditador da Líbia no dia 01.09.2011. Na medida em que deixa a cena, seu ignóbil regime merece uma avaliação.

O chefe de estado há mais tempo no poder [Fidel Castro ocupava esse “posto”], teria completado 42 anos como ditador da Líbia no dia 01.09.2011. Na medida em que deixa a cena, seu ignóbil regime merece uma avaliação.

Khadafi tomou o poder aos 27 anos, nos dias do ocaso de Gamal Abdel Nasser, o imensamente influente líder pan-árabe, e se considerava um acólito de Nasser, mas com uma ambição maior: enquanto Nasser sonhava com uma única nação árabe se estendendo do Atlântico ao Golfo Pérsico como um fim em si mesmo, Khadafi via a unidade árabe como um primeiro passo para a unidade muçulmana. Apesar de ter falhado na tentativa de obter qualquer unidade, e de sua “Terceira Teoria Internacional”, detalhada em seu Livro Verde, de 1975, ter-se provado outro retumbante fracasso, ele de fato teve um impacto inicial marcante sobre dois grandes acontecimentos.  

Primeiramente, ele teve um papel chave no aumento dos preços do petróleo, que se iniciou em 1972 e continua até hoje. Ao desafiar o controle das multinacionais do petróleo quanto à produção e estabelecimento de preços, ele começou a transferir o poder dos conselhos administrativos das empresas ocidentais para os palácios do Oriente Médio. Especificamente, as oportunidades bem aproveitadas por Khadafi ajudaram a quadruplicar os preços do petróleo entre 1973-74.
 
Em segundo lugar, Khadafi deu o pontapé inicial naquilo que então era conhecido como o renascimento islâmico, que também continua. Numa época em que ninguém mais estava preparado para isso, ele provocativa e orgulhosamente promoveu as causas islâmicas ao aplicar aspectos da lei islâmica, convocando os muçulmanos no mundo todo a fazerem o mesmo, e ao dar assistência aos muçulmanos em conflito com não-muçulmanos.
 
O longo regime de Khadafi pode ser dividido em quatro eras. A primeira e mais significativa, de 1969 a 1986, consistiu de uma atividade frenética, imiscuindo-se em questões e conflitos que iam da Irlanda do Norte ao sul das Filipinas. Uma lista incompleta de feitos incluiria quase aleijar a campanha de reeleição de Jimmy Carter ao fazer pagamentos a seu irmão Billy; declarar união política com a Síria; ajudar militarmente o Irã contra o Iraque; ameaçar Malta pela exploração de petróleo em águas disputadas; subornar o governo cipriota, para que este aceitasse a instalação de um transmissor da rádio líbia; enviar tropas ao sul do Chade para controlar e unificar o país com a Líbia; e ajudar um grupo muçulmano na Nigéria, cuja violência deixou mais de cem mortos.  
 
Mas esses esforços não deram em nada. Tal como escrevi numa avaliação em 1981: “Nem sequer uma das tentativas de coup d'état de Khadafi derrubou algum governo, nenhuma força rebelde por ele apoiada obteve sucesso, nenhum grupo separatista estabeleceu um novo estado, nenhuma campanha terrorista abateu o ânimo de algum povo, nenhum plano de unificação foi realmente levado a cabo, e nenhum país, exceto a Líbia, segue a “terceira teoria”. Khadafi colheu amargura e destruição sem atingir nenhum de seus objetivos. É difícil imaginar futilidade maior”.
 
Essa primeira era terminou quando do bombardeio americano em 1986, em retaliação a um atentado a bomba numa discoteca em Berlim; tal bombardeio parece ter afetado a psique de Khadafi. Seu aventureirismo radical declinou dramaticamente, acompanhado de uma virada de atenção para a África e uma ambição de construir armas de destruição em massa. Na medida em que sua presença no palco mundial murchava, foi sendo considerado apenas mais um maluco.
 
Um terceiro estágio começou em 2002, quando um Khadafi amansado pagou reparações pelo papel líbio na derrubada de um avião da Pan Am em 1988 e desistiu de suas ambições nucleares. Apesar de os princípios básicos de seu regime permanecerem em voga, ele então se tornou persona grata em países ocidentais, na medida em que o primeiro-ministro britânico e uma secretária de estado americana [Condoleeza Rice] o visitaram na Líbia.
 
A quarta e última era começou no início deste ano, com a rebelião em Benghazi, quando um Khadafi em recuo voltou aos seus métodos de brutalidade explícita do início de seu regime, jogando fora a imagem de alguém que dava atenção às expectativas internacionais. Com o seu regime em jogo, sua crueldade e ilusões tomaram o centro da cena e os resultados foram devastadores, com grande número de líbios rejeitando a ele, a sua família, e a seu regime e legado.
 
Depois de décadas de repressão e engodo, os líbios agora estão em face do desafio de se livrar desse legado asqueroso. Eles precisarão lutar para se libertar da paranóia, corrupção e desvio. Tal como resumido por Andrew Solomon, da revista New Yorker: “Os líbios podem se recuperar das fraudes, roubos e da brutalidade de Khadafi, mas a falsidade da vida no Grande Estado Socialista das Massa Líbias [Jamahiriya] levará um longo tempo para desaparecer”.
 
De fato, bastante tempo.
 
 
Tradução: Henrique Dmyterko
 
Publicado originalmente na National Review Online em 30.08.2011. Também disponível no site do autor.
 



 
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