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Ensinamentos bacterianos
- Redacao Midia@Mais
Orecente surto da bactéria Escherichia coli na Alemanha, que irrompeu em meio às repercussões da decisão do governo da chanceler Angela Merkel de fechar todas as usinas nucleares do país até 2022, proporciona uma contundente demonstração de que a utopia bucólica criada pelo movimento ambientalista em torno da oposição a certas fontes de energia e às técnicas agrícolas modernas precisa ser descartada o quanto antes.

Orecente surto da bactéria Escherichia coli na Alemanha, que irrompeu em meio às repercussões da decisão do governo da chanceler Angela Merkel de fechar todas as usinas nucleares do país até 2022, proporciona uma contundente demonstração de que a utopia bucólica criada pelo movimento ambientalista em torno da oposição a certas fontes de energia e às técnicas agrícolas modernas precisa ser descartada o quanto antes.

A origem da contaminação se revelou serem brotos de feijão cultivados em uma fazenda de produtos orgânicos no estado da Baixa Saxônia, no norte do país, o que levanta uma série de questões referentes a esse tipo de cultivo favorecido pelos ambientalistas, sob o falacioso argumento de que dispensam defensivos agrícolas, fertilizantes artificiais e outros recursos tecnológicos associados à agricultura moderna. Embora o processo de contaminação não tenha sido ainda perfeitamente identificado, sabe-se que esse tipo de cultivos usa com frequência os chamados adubos naturais, especialmente esterco, que constituem ambientes bastante propícios à E. coli.

Detectada em maio, a contaminação de vegetais com a bactéria se espalhou rapidamente e atingiu mais de 3.200 pessoas, na Alemanha e outros países, tendo resultado até agora em 37 mortes e cerca de 800 casos com graves sequelas, muitos dos quais necessitarão de transplantes de fígado ou diálise permanente. Ademais, devido à demora na identificação da origem da contaminação e à maneira atabalhoada com que as autoridades alemãs apontaram vários produtos como suspeitos, inclusive oriundos de outros países, agricultores e comerciantes alemães e estrangeiros tiveram prejuízos estimados em centenas de milhões de euros, com a interrupção das vendas e a destruição dos seus estoques de legumes, verduras e frutos colocados sob suspeição (para piorar, o alerta ocorreu no auge da colheita).

Em reunião ocorrida em Luxemburgo, em 15 de junho, os países prejudicados, liderados pela Espanha, recusaram a proposta de 150 milhões de euros do fundo agrícola da Comissão Europeia para as indenizações. Este montante, como estimou a ministra da Agricultura espanhola Rosa Aguilar, "não é suficiente nem para a Espanha". A Alemanha contabiliza prejuízos de 200 milhões de euros semanais, a Holanda, 80 milhões, e a França, 30 milhões de euros. Além disso, Aguilar defende que a responsabilidade pelas indenizações caiba à Alemanha, e não ao fundo europeu, devido às denúncias precipitadas feitas pelas autoridades do país.

O caso alemão não é o primeiro do gênero. Em 2006, na Califórnia, 200 pessoas foram seriamente contaminadas pela bactéria após consumirem espinafre "orgânico", tendo ocorrido três mortes.

Apesar de as alegadas vantagens e as desvantagens dos produtos "orgânicos" em relação aos cultivos tradicionais ainda serem objetos de acirradas controvérsias, o surto alemão proporciona algumas considerações bastante relevantes.

Em primeiro lugar, abala a percepção de que os alimentos cultivados sem recursos tecnológicos modernos seriam "melhores" do que os cultivados com aqueles meios. Não necessariamente, afirma Paul Hunter, professor de Saúde Pública na Universidade de East Anglia: "Os brotos de feijão são, freqüentemente, a causa de surtos nos dois lados do Atlântico. Eles são muito difíceis de crescer de forma higiênica e você tem que ser muito cuidadoso para não contaminá-los. E as fazendas orgânicas, com tudo o que acarretam em termos de não usar produtos químicos comuns e fertilizantes não-orgânicos, incorrem em riscos maiores (The Times, 6/06/2011)".

Segundo, evidencia outras consequências desagradáveis da histeria antitecnológica, especialmente contra quaisquer técnicas de origem nuclear - como se mostra no apoio majoritário da população alemã ao fechamento das suas usinas nucleares, sem atentar para as enormes dificuldades de substituir os quase 25% do consumo doméstico de eletricidade assegurados por elas. Um exemplo são as consagradas técnicas de irradiação de alimentos, utilizadas em um número crescente de países para eliminar microrganismos potencialmente contaminantes e garantir prazos de conservação maiores aos alimentos. A Alemanha, que foi pioneira na introdução da irradiação de alimentos, ainda no final da década de 1950, mantém em vigor uma proibição de consumo de alimentos irradiados no país. Na própria União Europeia, o consumo deles é mínimo, por força das restrições draconianas. Em vários países fora do continente, a irradiação de vegetais e carnes tem se disseminado, assegurando níveis de proteção que poderiam evitar fatos como o ocorrido na Alemanha.

Em terceiro, vale destacar a percepção de riscos altamente seletiva, e não só dos alemães, com o contraste entre as reações ao desastre nuclear da usina japonesa de Fukushima e ao surto bacteriano. O primeiro, a despeito da sua gravidade, ainda não causou uma única morte que possa ser atribuída diretamente à contaminação radioativa. O segundo atingiu mais de 3.000 pessoas em vários países, com um número de mortes que se aproxima das causadas diretamente pelo acidente nuclear de Chernobyl e sequelas graves e semipermanentes ou permanentes pelo menos uma ordem de grandeza superior à que se espera que atinja os afetados de Fukushima, principalmente, funcionários da operadora Tepco.

Tal contraste se nota com maior expressão nas diferenças da cobertura midiática de ambos os eventos. Enquanto o desastre nuclear japonês mereceu cadernos especiais e páginas inteiras em diários e revistas de todo o mundo, as notícias sobre a origem "orgânica" da contaminação dos brotos de feijão alemães se limitaram a pequenas notas nos cadernos de ciências ou internacionais (inclusive no Brasil). Vale imaginar o tratamento que teria sido conferido aos fatos se as contaminações tivessem resultado do uso inadequado de defensivos agrícolas ou produtos semelhantes.

Apesar da virulência de algumas variedades, a E. coli tem uma respeitável "folha de serviços" prestados à Ciência, sendo bastante estudada para o entendimento dos processos biológicos das bactérias e corriqueiramente utilizada na bioengenharia, por exemplo, para produzir proteínas recombinantes, já tendo sido usada para produzir artificialmente insulina humana. Além disso, essa humilde bactéria está evidenciando aos que quiserem ver os limites da inadequação ideológica para orientar uma sociedade moderna.

 

Publicado por  Alerta Científico e Ambiental, Vol 18, no. 22, 9/06/2011

 



 
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COMENTÁRIOS
23/06/2011
(Henrique Dmyterko)

A novilíngua verde corrompe até os mais elementares conceitos: quem estudou um mínimo de química orgânica, mesmo que apenas para marcar uns pontinhos no vestibular, sabe, ou deveria saber, que tudo que contêm o elemento químico carbono (símbolo C na tabela periódica) é orgânico, dos plásticos à gasolina, dos adubos químicos (p.ex.: ureia é um composto orgânico cuja fórmula é (NH2)2CO ou CO(NH2)2 ) ao grafite, chegando aos seres vivos e seus excrementos orgânicos. Corrompa a linguagem e você dificulta o entendimento. A novilíngua da desinformação orgânica força um autor do quilate de um Geraldo Lino a usar as expressões correntes. Artigo excelente e mais que oportuno.
 
22/06/2011
(Mario Fontes)

Caro Geraldo, Não podemos nos esquecer que TUDO o que se produz na agricultura e/ou na pecuária é natural e é orgânico, já que se produz através de organismos vivos (plantas e animais), da natureza. Por outro lado, NADA do que se cultiva (plantas) ou se cria (animais) por aí hoje é tal e como a mãe natureza havia concebido, inclusive o que se diz “orgânico”. Após 10.000 anos de agricultura e pecuária, o homem acabou selecionando, cruzando, modificando e “melhorando” o que havia... E então, como é que ficamos? Experimentem passar uma semaninha ou duas na selva amazônica, comendo e bebendo apenas o que vocês mesmos conseguirem extrair da mãe natureza, e depois a gente conversa. Quem se candidata? Abraços, Mario Fontes Eng. Agrônomo
 
22/06/2011
(Arnaldo)

Grande Geraldo L. Lino!
 
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