Bom dia ! Hoje é Terça Feira, 28 de Março de 2017.
 
Fique por dentro de nosso conteúdo em sua caixa de e-mail:
 




 
> América Latina
Compartilhar
Um Processo de Moscou no Caribe
- Paulo Zamboni
Talvez um dos maiores mistérios que cercam a longeva ditadura de Fidel Castro tenha sido a queda em desgraça e a punição com a morte do general Arnaldo Ochoa.

Acompanhando a semana em que ocorre o Foro de São Paulo em Buenos Aires, o Mídia@Mais comemora a semana "Delírio Socialista", convidando seus articulistas a resenharem filmes sobre o modelo da revolução socialista cucaracha, inspiradora do Foro: Cuba, Mãe e Mestra dos revolucionários latino-americanos. Paulo Zamboni comenta "8A - Ochoa", de 1993. [N.E] Talvez um dos maiores mistérios que cercam a longeva ditadura de Fidel Castro tenha sido a queda em desgraça e a punição com a morte do general Arnaldo Ochoa, velho membro do governo cubano e oficial condecorado por liderar as forças cubanas interventoras em Angola e na Etiópia.

O que teria levado o regime totalitário de Havana a expor-se publicamente, punindo vários funcionários e oficiais militares, dos quais Ochoa sem dúvida era o mais importante, e admitir que o tráfico de drogas era um problema também em Cuba? Um real interesse em combater uma grave ameaça como as drogas? Uma queima de arquivo de pessoas que tinham acesso a informações embaraçosas sobre o uso do narcotráfico pelo regime cubano como instrumento de luta revolucionária, conforme as informações que há décadas vinham sendo passadas à inteligência Ocidental por desertores cubanos e do bloco soviético? A eliminação de um foco de rebelião dentro do aparato administrativo cubano, numa época em que todo o bloco soviético vinha caindo como um castelo de cartas, preservando, assim, o poder de uma nomenclatura corrupta e autoritária, que temia pelo seu destino caso as mudanças chegassem a Cuba, temor mais do que justificado pelo que seria visto em breve na Romênia e Alemanha Oriental, onde os ditadores locais foram depostos e mortos ou caíram no ostracismo até sua morte?

O ano de 1989 assistiu a retirada soviética no Afeganistão, a saída dos vietnamitas do Camboja, a retirada comunista de Angola e Etiópia, redução da repressão na Nicarágua, ou seja, uma abertura - ainda que parcial e sem a devida punição dos criminosos ligados aos partidos comunistas locais, e que hoje se sabe, estava inserida no contexto de criação de uma “nova ordem internacional” onde os conflitos e tensões bélicas deveriam ser eliminados a qualquer preço, via acordos de paz e desmilitarizações forçadas que em última análise beneficiariam negócios e grupos de interesse poderosos em várias áreas do globo.
 
Na época, a URSS apoiava com vultosas verbas anuais o regime do ditador cubano, que desde os anos 1970 usava as tropas cubanas como forças mercenárias de intervenção, sobretudo na África, em favor dos interesses soviéticos, obtendo em troca a manutenção do apoio recebido desde 1961. Com tal apoio, Fidel Castro também pôde brincar de senhor todo poderoso na América Central durante grande parte das décadas de 1970 e 1980 –  após seus insucessos na América do Sul durante a década de 1960 -, intervindo nos assuntos internos de pequenos países como Nicarágua, El Salvador e Honduras, mas estava cada vez mais evidente para todos que, sem o apoio maciço de Moscou, a fantasia megalomaníaca do ditador estava com os dias contados.
 
A cartada militar final de Castro na região foi o esforço para levar seus protegidos da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional - FMLN em El Salvador a uma vitória militar ao apoiar uma ofensiva maciça contra a capital salvadorenha durante 1989, num lance de força propagandístico que, apesar de todo o apoio de grande parte da mídia internacional, sempre simpática à ditadura cubana, não logrou atingir seus objetivos maiores. Mas na ocasião houve pelo menos uma tentativa da guerrilha salvadorenha de conseguir mísseis terra-ar portáteis soviéticos, um tipo de arma sofisticada que, até então, não deveria ser introduzido no conflito salvadorenho, supostamente havendo até mesmo garantias de Moscou quanto a isso, porque representaria uma escalada indesejada nos combates. Ao que tudo indica a tentativa de entrega dos mísseis foi uma operação levada a cabo pelos cubanos, sem o consentimento de seus patrões soviéticos, demonstrando como Havana buscava continuar operando de forma agressiva e independente na região.
 
Num cenário de retirada soviética do jogo de poder global, é fácil imaginar que o colapso do regime de Castro poderia acontecer. Mesmo para Moscou, em algum momento, talvez tenha sido interessante a ideia de sangue novo no governo cubano. Mas para alguém com o ego de Fidel Castro, uma situação de acomodação que implicasse em abrir mão do poder total seria inaceitável. Não é por outro motivo, por exemplo, que Castro insistiria em seus projetos de poder e acionaria um “Plano B” ao participar da fundação do Foro de São Paulo, ainda em 1989, onde muitos dos partidos e organizações revolucionárias latino-americanas, legais e ilegais, deveriam se unir em favor da ditadura cubana.
 
Mas algum tipo de manobra propagandística era necessária para aplacar descontentes e justificar expurgos. Que tal, então, um "show" que satisfizesse o descontentamento de muitos na população cubana contra homens do Estado comunista, e de quebra, eliminasse eventuais concorrentes ao poder e uma incipiente conspiração no seio das forças armadas cubanas? Lembrando que desde 1986 o alto comando cubano havia sofrido a deserção de importantes oficiais, como o general Rafael Del Pino, que havia fugido com a família para os EUA levando consigo informações importantes. Assim como Ochoa, Del Pino também era um importante oficial que atuara a frente das forças cubanas na África.
 
O vídeo  feito em colaboração com a RAI 2  recupera declarações dos envolvidos, com imagens de arquivo da própria TV cubana. Dois momentos distintos envolvem a apresentação de Ochoa: o primeiro, durante uma corte militar, a frente de seus camaradas, onde, cabisbaixo e envergonhado, Ochoa assume os erros que cometeu e pelos quais deveria pagar. Num segundo momento, porém, diante de um tribunal público, com a televisão transmitindo e numerosa platéia presente, assume uma posição que varia entre a ironia e a indiferença negatória, como se aquilo tudo fosse cansativo e farsesco, tentando demonstrar uma postura mais enérgica, ainda que sem muita convicção, em sua própria defesa. Contudo, o quanto é possível acreditar num tribunal conduzido de forma evidentemente espalhafatosa, onde os acusados parecem não ter muita certeza do que estão fazendo ali, assumindo culpas por supostos crimes para os quais não são exibidas provas convincentes e, acima de tudo, perante um tribunal convocado e dirigido por uma das mais antigas ditaduras do mundo?
 
A “defesa” dos acusados, se é que se pode usar este termo, é um show à parte, provando de forma definitiva que tudo não passou de uma farsa judicial grotesca, um simulacro de justiça, que apenas buscava legitimar todo um processo que já estava decidido desde o começo.
 
E finalmente, pairando sobre tudo, a figura de Fidel Castro, como que representando o senhor de todos – atenção para a reunião do Conselho de Estado, onde todos, sem exceção, se preocupam unicamente em referendar a vontade de Castro.

 

8A - Ochoa from midiaamais on Vimeo.

 



 
Compartilhar

COMENTÁRIOS
18/08/2010
(Agapito Costa)

Devemos ter sempre em mente que para o comunismo os fins justificam os meios. Portanto lembramos que uma das primeiras providências tomadas por Fidel foi a substituição do "Exército e da Polícia" pelas unidades revolucionárias. As modificações na "Marinha e na Aviação" se fizeram por meios do expurgo das principais autoridades. Em fins de 1959, Fidel transferiu a sua base de poder para uma milícia em moldes comunistas composta de operários, camponeses e estudantes, em setembro de 1960, essa milícia foi organizada nos moldes militares. "ACORDA BRASIL"! Ou é esta a liberdade que queremos?
 
INSERIR COMENTÁRIO
Nome / Apelido
E-mail (opcional)
Comentário



Redação: Paulo Zamboni
AmbientalismoAmérica LatinaBrasilCulturaEconomiaEntrevistasEUA e GeopolíticaEuropaMídia em FocoOriente MédioPolíticaSegurança Pública
Artigos IndicadosCLIPPING@MAISEspecialLiteraturaResenhas
Home Editorial Faq Fale Conosco


Canais:
 
MÍDIA A MAIS © COPYRIGHT 2013, TODOS OS DIREITOS RESERVADOS