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> EUA e Geopolítica
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Trump... o nosso Claudio
09/06/2017 - Victor Davis Hanson
Os primeiros meses da presidência de Trump são, em muitos aspectos, claudianos. Trump é também um outsider que, na visão da aristocracia de Washington, nunca deveria ter sido presidente.
(Trump: bufão ou gênio excêntrico? Na verdade não importa. O que importa é que os EUA estão funcionando, e aparentemente melhor)
 
O imperador romano Cláudio, que reinou de 41 a 54 aC, nunca deveria ser imperador. Chegou ao cargo aos 50 anos, um velho na época romana. Cláudio sucedeu o carismático e jovem galante Calígula, filho do amado Germanico e a "pequena bota" acabou por ser um monstro narcisista antes de ser assassinado no cargo.
 
Cláudio era um imperador incomum, o primeiro a nascer fora da Itália, na Gália romana. Sob o Principado de Augusto, os novos Césares - que reivindicaram a linhagem direta do "divino" Augusto - eram geralmente aprovados pelo senado bajulador. No entanto, o estranho Cláudio (que não teve treinamento político e foi impedido por seu tio Tibério de entrar no cursus honorum) foi levado ao poder pela Guarda Pretoriana romana, que queria uma mudança do status quo apparat da dinastia augusta.
 
A aristocracia romana - a maioria reivindicando algum tipo de descendência de Júlio César e seu sobrinho Octaviano (César Augusto) - há muito tempo descrevia Cláudio como um triste boneco. 
 
Cláudio mancava, o resultado de uma doença infantil ou deficiência genética. Sua mãe Antonia, envergonhada de seus hábitos e aparência, chamou o jovem Cláudio de "um monstro de homem". Provavelmente era quase surdo e supostamente gaguejava.
 
Esse desprezo ao longo da vida pela sua aparência e maneirismos provavelmente salvou a vida de Cláudio nas lutas dinásticas durante os últimos anos do Imperador Augusto e nos reinos subsequentes dos imperadores Tibérius e Calígula.
 
A impressão estereotipada de Cláudio era a de um simplório, e não de alguém a ser levado a sério, e assim ninguém o fez. O próprio Cláudio afirmou que ele em parte fingiu agir estranhamente de modo a não ser alvo de inimigos antes de assumir o poder e depois desmoralizá-los.
 
Os críticos contemporâneos riram de sua aparente falta de eloquência e maestria retórica, levando alguns estudiosos a conjecturar que ele pode ter sofrido de síndrome de Tourette ou uma forma de autismo. O biógrafo da corte Suetônio escreveu que Cláudio "era ora cuidadoso e perspicaz, às vezes apressado e insensível, ocasionalmente bobo ou um louco".
 
Soa familiar?
 
Os intelectuais romanos odiaram Cláudio, que revidava as agressões, golpeando-os por seu desprezo e sarcasmo, e não mostrou piedade para com conspiradores e conspirações. Após a morte de Cláudio, o adulador da corte e filósofo Sêneca, amigo do sucessor de Cláudio, o sinistro assassino Nero, escreveu uma sátira cruel sobre a suposta crueza e bufonaria de Cláudio. A Apocolyncotosis de Sêneca (A Apocolocintose do Divino Cláudio) zomba do discurso de despedida de Cláudio e dos seus maneirismos despreocupados[*]. Ele também se divertiu com os amigos grosseiros de Cláudio e sua propensão para o entretenimento popular.
 
Os historiadores romanos posteriores, aproveitando-se de relatos contemporâneos perdidos de Cláudio, refletem os mesmos preconceitos. Na biografia de Suetônio e em todos os Anais do historiador Tácito, o imperador por acaso Cláudio é pouco mais que um desajeitado impulsivo, um imperador que chegou ao poder por acidente e cuja falta de elegância juliana tornou-o mais um bufão do que o chefe do Império Romano global de cerca de 60 milhões de cidadãos.
 
Os 50 anos de vida privada de Cláudio antes de se tornar imperador também eram alvo de fofocas e ridicularização da corte. Ele se casaria quatro vezes e muitas vezes era lisonjeado e manipulado por mulheres mais jovens.
 
Os historiadores modernos, no entanto, têm em grande parte corrigido essa visão e viés negativos antigos.
 
O governo de Cláudio como imperador foi de cerca de 13 anos, sendo marcado por reformas financeiras e restauração após o desastroso reinado do perdulário Calígula. Os odiadores de Cláudio, como Sêneca, Suetônio e Tácito, concentraram-se principalmente nele como um desagradável outsider - e ignoraram o que ele havia feito por Roma após os desastres do regime de Calígula.
 
O império sob Cláudio cresceu e o fez em grande parte em paz. Roma anexou a Grã-Bretanha e acrescentou uma variedade de províncias fronteiriças a leste. Enquanto os insiders e os bisbilhoteiros da corte ridicularizavam a suposta inaptidão de Cláudio, ele reuniu, no entanto, uma das equipes mais talentosas de conselheiros e operários - muitos deles escravos libertos - na história das dinastias Julio-Claudiana e Flaviana.
 
Cláudio era principalmente um construtor e pragmático. Alguns dos restos arqueológicos mais impressionantes do Império Romano (como os aquedutos Aqua Claudia e Aqua Anio Novus e o porto reconstituído em Ostia) datam de seu reinado, se concentrando na construção de novas infraestruturas e na melhoria das estradas romanas, pontes, portos e aquedutos.
 
Os primeiros meses da presidência de Trump são, em muitos aspectos, claudianos. Trump é também um outsider que, na visão da aristocracia de Washington, nunca deveria ter sido presidente.
 
O três vezes casado Trump supostamente era muito velho, muito grosseiro, muito vulgar e muito imprudente em sua vida privada anterior. Seus críticos agora alegam que o Trump falastrão sofre de algum tipo de doença psicológica ou física, já que seu sotaque, sua dicção, sua gramática e sua maneira geral de falar, bem como seu comportamento, simplesmente não parecem presidenciais.
 
Se Cláudio constantemente rabiscava observações sobre a vida imperial (a maior parte atualmente perdida, infelizmente), Trump é um tuiteiro incessante, que diariamente lança uma ladainha de impressões improvisadas, pensamentos e afirmações imaturas - que são igualmente ridicularizadas pelos jornalistas.
 
A mídia e o establishment de Washington - como os críticos de Cláudio entre a elite, Sêneca, Suetônio e Tácito - concentram-se principalmente nos psicodramas do presidente. Mas enquanto eles se obcecam com a frequente ausência da Primeira Dama Melania, as duas colheres de sorvete de Trump, a suposta influência indevida e sinistra da filha de Trump, Ivanka, e do genro Jared Kushner, os insultos entre os moderados de Nova York e os autênticos populistas azuis de Steve Bannon, as demissões de ex-nomeados de Obama e as investigações de associados de Trump - o governo americano, como Roma sob Cláudio, continua.
 
Os críticos também esquecem o fato de que Trump não é um catalisador, mas um reflexo da cultura contemporânea, da mesma forma como o mundo retratado no Satyricon de Petrônio pré e pós-datou Cláudio. A grosseria, a obscenidade e a vulgaridade neronianos de uma Madonna, Bill Maher ou Steven Colbert - ou Tom Perez do Comitê Democrata Nacional ou a senadora da Califórnia Kamala Harris - não têm nada a ver com Donald Trump.
 
A verdadeira história da administração Trump não é a demissão de James Comey ou os ataques histéricos contra Trump pelos meios de comunicação, ou mesmo suas excessivas inconsequências. Em vez disso, Trump, assim como Cláudio, montou uma equipe de assessores e funcionários de gabinete de primeira categoria.
 
O secretário de Estado, Rex Tillerson, o secretário de Defesa James Mattis, o assessor de segurança nacional HR McMaster e o diretor de segurança interna John Kelly - e as dezenas de profissionais que trabalham para eles - compõem o grupo de estrategistas, diplomatas, viajantes mundiais e pensadores de política externa mais astuto e experiente desde as administrações de Truman e Eisenhower.
 
Jamais tantos oficiais de gabinete receberam tal responsabilidade e autonomia. É improvável que um Mattis ou McMaster - outsiders que carecem de um histórico burocrático - teriam ocupado cargo sob um presidente democrata progressista ou um do establishment republicano. Um presidente mercurial e imprevisível dá a um Secretário de Defesa ou de Estado mais poder no exterior do que um comandante em chefe apologético e previsivelmente complacente. O resultado é uma recuperação militar e uma lenta restauração da dissuasão americana no exterior, que tornará o mundo mais seguro e a necessidade de a América intervir menos provável.
 
O Departamento de Justiça de Trump sob o ex-senador Jeff Sessions e seu deputado Rod Rosenstein é igualmente uma grande melhoria em relação ao liderado por Eric Holder e Loretta Lynch, que politizaram e até anularam a lei federal.
 
Até agora qualquer diagnóstico do que nosso Cláudio contemporâneo fez em seus primeiros três meses, em vez do que ele disse - ou o que a mídia diz que ele disse ou fez - sugere melhorias nacionais.
 
O mercado de ações está subindo nos últimos quatro meses. O desemprego foi reduzido. A participação no trabalho está aumentando. As pesquisas demonstram a confiança empresarial mais forte. A imigração ilegal caiu 70%. As receitas federais estão aumentando enquanto as despesas federais estão em declínio. Neil Gorsuch e outros nomeados judiciais federais estão sendo louvados rotineiramente. A polícia local e os funcionários federais responsáveis ​​pela aplicação da lei se entusiasmam novamente após anos de desmoralização.
 
As ordens executivas de Trump sobre os gasodutos Keystone e Dakota e o apoio revigorado para a indústria do carvão, trarão mais empregos e menores custos de energia. Indústrias como aço, alumínio e carne bovina estão falando sobre exportação e contratação de uma forma que não têm feito há anos. Enquanto os meios de comunicação caricaturizam a propensão de Trump em pressionar as empresas que querem investir em empregos terceirizados no exterior, as corporações veem ordens executivas sobre desregulamentação, promessas de reforma tributária e uma nova atitude de "América primeiro" como incentivos para ficar em casa e contratar americanos.
 
Os comentaristas de televisão se encolhem assustados depois de assistir às entrevistas em rede de Trump (que, ao contrário do ex-presidente Obama, fala de quase tudo a qualquer momento e em qualquer lugar). Presunçosos autores fazem longas exposições da bufonia de Trump em revistas de Washington e Nova York. No entanto, não devemos acreditar que suas sátiras de Trump, o homem, são um registro mais preciso da agenda ou registro de Trump do que a Apocolyncotosis de Sêneca foi um relato confiável do reinado de Cláudio.
 
Pelo que podemos perceber, quanto mais Roma prosperou sob Cláudio, mais a corte imperial passou a desprezá-lo - como se os seus modos estranhos e a maneira ainda mais estranha que ele chegou ao poder não pudessem ser enquadrados com a capacidade de administração de um vasto Império durante os 13 anos de seu reinado.
 
No final, Cláudio provavelmente foi assassinado por rivais dinásticos e parentes que pensavam que um Nero jovem, loquaz, bonito, intelectual e artístico seria um alívio agradável da estranheza, da franqueza e da bizarrice de Cláudio. O que se seguiu foi o triunfo de artistas, intelectuais, aristocratas elegantes, insiders dinásticos aduladores - muitos deles eventualmente devorados pelo reinado de terror que tão ansiosamente ajudaram a inaugurar.
 
 
Publicado por www.victorhanson.com
 
 
Tradução: Maria Júlia Ferraz
 
 
[*]  Nota da tradutora: Trata-se de uma sátira menipeia em que Sêneca critica de forma galhofa a divinização que o Senado promoveu após a morte do Imperador Claúdio em 54d.C. O motivo para essa crítica foi o exílio sofrido por Sêneca por ordem de Cláudio nos anos de 41 a 49 d.C.
 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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