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Entrevista MÍDIA@MAIS - Daniel Moreno
31/03/2016 - Redacao Midia@Mais
O cineasta Daniel Moreno fala sobre cinema, inclusive seu mais recente trabalho, Silenciados, e da necessidade de se redefinir o papel do Estado no país.

M@M - Em sua entrevista para a revista Época, você foi definido indiretamente, como um conservador. Qual é o seu posicionamento político de fato?

Daniel Moreno: Nenhuma doutrina é perfeita, nenhuma doutrina tem todas as respostas para todas as situações. A perfeição não é deste mundo e não é humana. Paixões políticas são assustadoras e perigosas. Um dia li algum desses sociólogos de esquerda dizendo que a política brasileira carecia de “paixão” ou algo do tipo. Bem, havia muita “paixão” na Revolução Russa, não é mesmo? Olha a quantidade de cadáveres resultantes de tanta “paixão política”. Eu acredito no livre arbítrio, acho que é um grande presente de Deus para o ser humano, e também uma grande responsabilidade. Não sou uma pessoa que se encaixa muito facilmente. Meu pensamento é muito influenciado pelos austríacos, quase todo o tempo. A resposta austríaca aos problemas econômicos é clara, compreensível, definitiva. Mas economia é apenas um plano onde as coisas acontecem, não é o conjunto todo. Em alguns temas, eu certamente me alinho aos conservadores, especialmente em geopolítica. A importância do pensamento conservador na construção da civilização que temos e queremos preservar é inegável. Mas isso me aproximaria de um “cristão socialista” (se é que isso é possível) por ambos sermos contrários ao aborto, por exemplo? Claro que não. Por isso que digo ser difícil encaixar tudo num rótulo apenas. Acredito na liberdade individual, em autodefesa, na propriedade, na resistência à tirania estatal. De toda forma, não sou um intelectual, longe disso. Sou um produtor de cinema, nada mais distante de um intelectual do que isso. Minha perspectiva é essa, de um contador de histórias. Mas se quiserem me chamar de anticomunista ferrenho, o que é um rótulo bem divertido, eu não vou me chatear.

M@M - "Silenciados" é o seu segundo documentário. É mais fácil ser documentarista em um Brasil onde o cinema nacional apenas se sustenta se obtiver verbas públicas?

DM - Pois é, esta é uma questão curiosa. Minha formação é em ficção, minha especialização é em roteiro, e certamente roteiro de ficção é o espaço onde me sinto mais à vontade. Mas desde que me decidi por não recorrer a nenhum tipo de financiamento ou subsídio público para filmar, a distância entre onde estou e um documentário, por exemplo, tornou-se bem menor do que aquela entre os enredos que quero filmar e a produção desses filmes. Eu gosto de usar a seguinte metáfora para explicar qual o contexto de quem filma sem verba do governo: você tem dois pilotos num autódromo. O primeiro piloto usa um carro com 100 cavalos, sei lá, e completa o circuito em 5 minutos. O segundo piloto usa um carro com 500 cavalos e completa o circuito em 4 minutos e 30 segundos. Qual é o melhor piloto? Provavelmente, o primeiro piloto é muito melhor que o segundo. Mas na hora da corrida isso não importa, o segundo ainda vai chegar na frente. No Cinema Brasileiro, e especialmente no cinema de ficção, ocorre algo parecido: por mais que você se esforce e faça um trabalho excepcional, a distância entre o orçamento de um projeto independente e o de um filme subsidiado é tão grande, que no final acaba parecendo que o filme estatizado é melhor, por pior que tenha sido o trabalho. Em documentário, essa diferença diminui consideravelmente.

M@M -  Segundo o jornalista da Época, Silenciados conta apenas um lado da história. Você acredita ser um documentarista parcial? O outro lado deveria ser ouvido?

DM - A resposta a essa pergunta não é simples e, portanto, vou dividi-la em três partes. Em primeiro lugar, é absurdo fazer esse tipo de cobrança a um cineasta que não usa dinheiro público para filmar, porque jamais vi a mesma cobrança sendo feita a quem filma com dinheiro do governo. São décadas de filmes “descriminalizando” a criminalidade. O Cinema Brasileiro tem uma longa tradição de romantização da figura do bandido, começa lá atrás, com “Bandido da Luz Vermelha”, com “Lúcio Flávio, passageiro da agonia”. Dezenas de documentários de vitimização da bandidagem. “Cidade de Deus” tem bandidos maus e bandidos bonzinhos, mas os policiais são todos desprezíveis. Na verdade, acho que estou quebrando o galho dos meus colegas cineastas. Eles fazem 300 filmes sem ouvir o lado das vítimas, e eu faço um ouvindo as vítimas para compensar. Em segundo lugar, eu fui atrás de muita gente para defender a posição do status quo, a posição que é na verdade da elite brasileira, dos desarmamentistas que andam cercados de segurança em Range Rovers blindados. A maioria fugiu quando percebeu que eu ia fazer perguntas difíceis. Em terceiro lugar, jamais ouviria o “lado” de quem passa com um carro em cima de uma menina, ou de quem atira depois que entregaram o celular, ou de quem asfixia uma criança de 12 anos. Quem faz esse tipo de coisa já comunicou tudo que era preciso através de ações. Não há ambiguidade quando o Mal se manifesta de forma tão avassaladora.

M@M - Silenciados é uma forma de defender a redução da maioridade penal?

DM - Cada entrevistado fala o que pensa e responde por si no ‘Silenciados’. Um deles inclusive é contra a redução. Minha opinião, que de forma alguma se confunde com a dos outros, é a de que os crimes deveriam penalizar por sua natureza e não pela idade do criminoso. Amanhã vai aparecer um garoto de 15 anos que trama um assassinato requintado, e alguém vai dizer que ele não pode responder pelo que fez? É evidente que pode. Mas, por ora, baixar a maioridade para 16 anos é o mínimo, mas digo o mínimo mesmo, que a elite política pode fazer para o povo brasileiro, cansado de morrer como inseto na mão da bandidagem. Assistimos rotineiramente a tristes cenas de espancamentos, de linchamentos, isso é uma reação desesperada, brutal, especialmente do povo mais simples, àquela indiferença da elite política ao drama da violência. Querem fazer crer que a maioridade aos 16 irá penalizar o coitado que furta uma bolacha no mercadinho, e não é nada disso. Estamos falando do homicida sádico, do estuprador contumaz. Baixar a maioridade não é a solução de todos os males (mesmo porque solução de todos os males não existe), é uma resposta, possível, ao menos em médio prazo.

M@M - Como foi fazer a filmagem de um documentário que trabalhou com mães que perderam seus filhos? Houve momentos delicados, com certeza. Como foi lidar com isso?

DM - Minha equipe e eu somos agradecidos à paciência e gentileza dessas mães e pais em compartilhar conosco suas histórias trágicas. Eu procuro lidar com delicadeza com o drama humano. Por incrível que pareça, esses parentes de vítimas de violência são julgados o tempo todo. Há uma pressão para que eles “perdoem” a qualquer custo. Eu vejo muito “especialista”, muito cineasta, dizendo que vai entrevistar um criminoso sem julgá-lo, mas as vítimas são julgadas e na maioria das vezes não podem sequer se defender. Nossa sociedade vive, como se sabe, uma inversão crônica de valores, assolada pelo relativismo moral. Há dezenas de “motivos” que supostamente explicariam um crime, um homicídio, mas a mídia torce o nariz se um pai de filho assassinado diz que não perdoa o assassino. O eventual perdão deve ser natural, assim como caridade deveria ser natural e voluntária. No Brasil querem obrigar as pessoas a fazer caridade à força, a perdoar à força. Quero corrigir uma pequena parcela dessa injustiça dando espaço para esses pais falarem realmente o que sentem.

M@M - Há sempre uma explicação sociológica sobre a violência, inclusive a praticada por menores de idade, na maioria das vezes desculpando a criminalidade e não raro colocando a culpa sobre as vítimas. O que poderia ser feito de fato para combater a criminalidade, independente da idade do criminoso? Em sua visão, essa violência está relacionada à desigualdade social?

DM - Bem, alguém mais inteligente que eu já disse uma vez: dependendo da resposta que você consegue, pode ser que você esteja fazendo as perguntas erradas. No caso da criminalidade, acho que a discussão parte dos lugares errados, de uma perspectiva errada. As pessoas entregam dinheiro e sua liberdade nas mãos do Estado para que este basicamente evite que elas sejam assassinadas ou roubadas. Ninguém paga, ou ao menos deveria pagar, 40% de tudo que ganha para o Estado patrocinar festivais de teatro ou para ensinar crianças de cinco anos a colocar preservativos em próteses na sala de aula. O Estado existe, supostamente, para evitar a barbárie. Logo, se o Estado falha em evitar que alguém seja roubado, ou que alguém seja assassinado, o mínimo que o ofendido espera é algum ressarcimento para sua perda, alguma manifestação da máquina da Justiça estatal (que, aliás, é caríssima de ser mantida). Logo, o sistema judiciário não deveria estar preocupado em resolver “problemas sociais” ou algo parecido, mas sim em dar resposta a quem o sustenta e precisa de razões suficientes para não fazer justiça com as próprias mãos. As pessoas estão tão acostumadas com a perspectiva estatal da vida em sociedade que elas não conseguem perceber essas distorções: por exemplo, dizer que se o preso não for ressocializado ele voltará a roubar. Então, espere: o que se está dizendo é que, depois de ser roubada, a vítima passa a ser responsável pelo futuro profissional do criminoso, do contrário ele se vingará e voltará a roubar? É ridículo isso. Dependendo do caso, o crime pode ter algum tipo de relação com um problema social, mas em muitos outros casos tal relação é impossível de ser feita. O que eu sei é que a Justiça precisa responder ao anseio das vítimas. Sei, também, que prender um assassino evita, ao menos em tese, que ele mate de novo pelo tempo em que estiver encarcerado. E que muito provavelmente um criminoso evitaria um assassinato se soubesse que lhe custará 50 anos atrás das grades. As pessoas tendem a evitar graves prejuízos, isso é evidente. É função do Estado, antes de patrocinar filmes, por exemplo, desestimular a prática de crimes, especialmente crimes violentos. Mas é evidente que um sociólogo marxista diria o oposto de tudo isso, por um fato muito simples: marxistas não estão interessados em manter a ordem burguesa. Eles querem destruí-la. Criminosos são a linha de frente do marxismo, fazem o trabalho sujo, aterrorizam a burguesia. Vou ouvir conselhos sobre segurança de alguém que despreza aquilo que as pessoas defendem, seus laços familiares, seu patrimônio construído duramente? Francamente.

M@M - Em "Reparação", o contexto político abordado foi o da ditadura militar. Em Silenciados, o menor de idade que mata. O que levou-o a trabalhar temas tão dominados pela esquerda e lançar uma vertente completamente oposta, ou, no mínimo, provocadora?

DM - Com 19 anos, ganhei um prêmio para filmar um curta. Começando tão cedo, teria sido fácil para mim simplesmente me encaixar no esquemão do Cinema Nacional: fazer vista grossa para o corporativismo, para a troca de favores reinante no setor, o compadrio, e filmar a cada dois ou três anos, com orçamentos maiores, viver disso, enfim. Acontece que o cinema feito no Brasil, e notadamente esse cinema é um cinema estatizado, não reflete meus valores e muito menos os valores do povo brasileiro. É como se o povo fosse obrigado a sustentar um cinema que é frontalmente contrário a seus valores e a seu modo de vida. Sei que não é novidade isso que digo, mas acho que posso fazer alguma diferença, porque diante dessa realidade, eu não dou as costas, eu prossigo filmando em sentido contrário ao meio em que estou. Parecia impossível filmar no Brasil e fora do esquemão um cinema que não fosse de esquerda. Agora mais gente começa a fazer isso, não sou o único, longe disso. Então podemos começar a falar: “Ei, vocês disseram que não era possível, veja, estamos fazendo neste exato momento”. Isso é lutar contra a tirania.

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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