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Cinco erros estúpidos sobre o Oriente Médio
25/02/2015 - Victor Davis Hanson
Conheça o novo Oriente Médio: um Irã nuclear e ascendente, a devastação espalhada pelo EI, o Egito e a Líbia tornando-se a Somália e o fim da Síria e do Iraque. E tudo isso por culpa do governo Obama.
(Soldado iraquiano sendo decapitado pelos terroristas do EI. Terrorismo e bárbarie tomaram conta do Iraque e Síria, como resultado direto das péssimas escolhas da administração Obama).
 
O presidente Obama afirma que ele herdou uma bagunça no Oriente Médio. Não é assim.
 
O fracking e a perfuração horizontal em terras privadas nos EUA tinham crescido nos últimos anos da administração Bush e a partir de 2009 começaram a revolucionar o futuro energético da América. Desde 2011, os EUA tinham encontrado outro caminho para a sua dependência das importações de gás e petróleo do Oriente Médio, o que por sua vez deu aos diplomatas americanos uma dose de imunidade à petrochantagem, e, portanto, muito mais influência na região. O Iraque manteve-se em sua maior parte estável; na província de Anbar dezenas de milhares de jihadistas haviam sido mortos por tropas dos EUA e seus aliados tribais. O raio de ação do Irã foi limitado por um novo eixo de Estados sunitas moderados, Israel e os Estados Unidos. Um Hezbollah ferido enfrentava uma enorme atividade de reconstrução no sul do Líbano. A Líbia estava começando a jogar fora pelo menos um pouco do seu passado bizarro. Os palestinos não tinham nenhum desejo por outra Intifada. O Oriente Médio estava olhando para os EUA como um líder, na medida em que o aumento (do envolvimento americano) no Iraque havia recuperado o respeito pelas armas e a determinação americanas.
 
Isso tudo agora é história antiga. Em cinco áreas críticas, os EUA estragaram tudo.
 
I. Irã
 
As sanções estavam começando a apertar o Irã, que tinha sido incapaz de absorver o Iraque dominado pelos xiitas. A revolta no Irã foi aumentando, liderada por jovens reformistas pró-ocidentais. Menos de um mês depois da posse de Barack Obama, mais de um milhão de iranianos saíram às ruas para protestar contra as eleições fraudulentas do seu país. Os europeus estavam começando a entender que um Irã nuclear representava uma ameaça maior de chantagem nuclear para a UE do que para os EUA.
 
A Polônia e a República Checa tinham concordado em uma parceria com os EUA na criação de um sistema de mísseis antibalísticos para dissuadir o crescente programa de mísseis do Irã. Os EUA e seus amigos ocasionalmente enviavam frotas que lentamente atravessavam o Estreito de Ormuz para lembrar ao Irã que estávamos determinados que as águas internacionais sempre permaneceriam internacionais.
 
Então o que aconteceu?
 
A nova administração Obama manteve silêncio enquanto os protestos iranianos pró-ocidentais esvaziavam. Em um estilo vai-e-vem, Obama a princípio elevou as sanções quando Teerã ignorou sua série de prazos vazios para refrear o enriquecimento. Em seguida, de forma unilateral e sem muito aviso, Obama relaxou as sanções. Ele reabriu as negociações, precisamente quando as centrífugas iranianas multiplicaram. Atualmente o Irã está à beira da aquisição nuclear e informa tranquilamente os seus apoiadores que os EUA são tanto fracos quanto ingênuos – e que em breve deixarão a região.
 
Teerã está criando uma espécie de Esfera de Co-Prosperidade [1] em detrimento dos interesses sunitas e ocidentais, pois sabota o Iraque, o Iêmen, a Síria e o Líbano. Não há mais nenhuma conversa sobre uma proteção antimíssil regional sobre liderança norte-americana.
 
De forma diabolicamente brilhante, o Irã tem manobrado os EUA para uma embaraçosa aliança de facto contra o EI (NT: Estado Islâmico, ou ISIS em inglês) no Iraque e na Síria. A parceria foi projetada por Teerã para salvar o governo Assad pró-Irã, para reforçar o Hezbollah, para aliviar as pressões diplomáticas sobre o seu próprio programa de enriquecimento nuclear e para aumentar as tensões entre os EUA e os estados moderados sunitas como a Jordânia e as monarquias do Golfo.
 
Nunca houve uma maior probabilidade do que há agora, sob Obama, de que o Irã terá a bomba, que irá criar uma aliança radical teocrática xiita do Iêmen ao Iraque, da Síria ao Líbano e que irá dirigir o Hamas e Hezbollah para começar outra guerra contra Israel –desta vez apoiada por um elemento de dissuasão nuclear iraniano.
 
II. Iraque
 
No Iraque a estratégia dos Estados Unidos dependia de forçar a jovem democracia a criar alianças informais entre curdos, xiitas e sunitas, com o entendimento de que todos iriam resistir tanto à al-Qaeda quanto aos xiitas subsidiados pelo patrocínio iraniano. E de 2009 a 2011 o governo consensual no Iraque parecia estar funcionando, embora na maior parte pelas ameaças implícitas de que as tropas dos EUA nas proximidades iriam intervir se ele não o fizesse.
 
O país estava mais tranquilo do que agitado. De fato, os militares dos EUA estavam perdendo mais pessoal mensalmente em acidentes do que em combate. Em dezembro de 2009, três norte-americanos foram mortos no Iraque – o número mais baixo para qualquer mês desde o início da guerra. Em dezembro de 2011, não houve perdas de americanos.
 
Obama, que se opôs à guerra do Iraque, denominou o país de "seguro" e "estável". O vice-presidente Joe Biden, que como senador tinha votado pela guerra, gabou-se de que ele poderia se tornar a "maior conquista" da administração Obama. Diplomatas americanos mantiveram a pressão sobre o pró-iraniano primeiro-ministro Nouri al-Maliki para tratar as tribos sunitas de forma mais equitativa e manter o território iraquiano livre do exército iraniano. A al-Qaeda no Iraque estava em coma. Muitos dos islamistas sunitas não desejavam uma repetição da Despertar de Anbar e a Surge.[2]
 
Então, devido a uma promessa de campanha visando à reeleição de 2012, Obama retirou todas as tropas policiais dos EUA no final de 2011. O resultado foi um vazio que atraiu a escória do Oriente Médio, como o EI e as milícias apoiadas pelo Irã, lutando sobre o cadáver do que costumavam ser a Síria e o Iraque.
 
Ao mesmo tempo, o governo proclamou linhas vermelhas vazias para Assad, da mesma forma que tinha dado ao Irã prazos vazios – mesmo com o presidente Obama chamando o EI de "equipe júnior" que representava uma ameaça pouco significativa para os EUA, ou, pelo menos, não mais preocupante do que a média dos criminosos de rua representam para o prefeito de uma cidade grande.
 
O crescente EI logo apelou para tribos sunitas desencantadas que sentiram terem sido condenadas ao ostracismo por Bagdá, justamente quando o Irã encorajou o governo iraquiano a bani-las ainda mais.
 
O grande medo dos aiatolás entre 2008-2011 era de que um Iraque viável e consensual em sua fronteira pudesse enfraquecer seu controle teocrático no Irã. Essa ansiedade desapareceu, substituída por uma nova confiança de que, na ausência de guarnições dos EUA, Teerã transformaria o Iraque em um estado vassalo.
 
III. Líbia
 
Quando o presidente Obama assumiu o cargo, Muamar Kadafi era um monstro psicótico em reabilitação. Os EUA haviam aberto uma nova embaixada em Trípoli. Autoridades militares dos EUA tiveram liberdade quase completa para policiar os defuntos programas de Armas de Destruição em Massa.
 
Investidores ocidentais foram recebidos na Líbia. Os ocidentais estavam falando de investir em zonas empresariais líbias, melhorando a rede de gás e petróleo da Líbia e reabrir sítios arqueológicos espetaculares para o turismo. Kadafi tinha apertado o cerco contra os islamistas e parecia cada vez mais deixar as decisões nas mãos de seus familiares. A próxima geração de Kadafis ocidentalizados fora cortejada pelo jet set internacional e sutilmente foram enviados sinais de que uma liberalização ainda maior estava no horizonte. Kadafi tinha-se tornado um bufão, não um degolador.
 
Tudo isso desapareceu quando Hillary Clinton, Samantha Power e Susan Rice ordenaram os bombardeios que transformaram a Líbia em um paraíso terrorista, cuja trajetória final era Benghazi. Elas chegaram atrasadas e pegaram carona na inquietação da Primavera Árabe no Cairo. Desta vez elas queriam dirigir em vez de assistir aos crescentes protestos contra Kadafi – uma coisa estranha, dadas as suas advertências anteriores sobre a ingenuidade da tentativa da administração Bush de promover um governo consensual no volátil Oriente Médio pela força das armas.
 
A primeira coisa que correu mal foi que a intervenção dos Estados Unidos violou resoluções da ONU – as quais havíamos apoiado – a respeito de ações limitadas a zonas de assistência humanitária e de exclusão aérea. Essa traição alienou os ludibriados russos, que haviam assinado a resolução da ONU.
 
Em seguida, os EUA cederam sua tradicional liderança militar para os franceses e britânicos por meio de uma regressiva liderança da retaguarda. Essa reviravolta diplomática resultou em americanos mortos e um consulado destruído em Benghazi
 
As indústrias de petróleo e gás da Líbia atualmente se assemelham às da Nigéria – em um bom dia. Trípoli é uma Mogadíscio no Mediterrâneo. Nenhum ocidental no seu juízo perfeito vai pisar em solo líbio. A experiência da administração Obama na Líbia pode ser resumida pela sua fraude de período eleitoral ao prender um cineasta obscuro por supostamente causar uma manifestação "espontânea" na qual o consulado foi arrasado e quatro americanos foram mortos, incluindo o embaixador – uma história em que nem mesmo seus promotores ainda acreditam.
 
IV. Egito
 
No Egito, o velho cleptocrata Hosni Mubarak estava acostumado às crônicas repreensões dos EUA sobre democratizar, mesmo enquanto ele continuava oferecendo seus próprios alertas destacando a respeito da alternativa ser ainda pior, uma teocracia islâmica. Se o Egito não era tão estável, também não era caótico.
 
Infelizmente, os EUA viram a Primavera Árabe como uma desculpa para jogar no lixo um velho aliado cansado e dar boas-vindas em seu lugar a um Mohamed Morsi educado nos EUA e os islamistas da Irmandade Muçulmana. A equipe de Obama talvez acreditasse que eram os avatares tardios da Primavera Árabe, como se tratasse de uma revolução análoga à nossa própria, em vez de algo semelhante ao pesadelo de 1917 na Rússia ou à derrubada dos velhos monarcas corruptos do Oriente Médio na década de 1950 pelos assassinos baathistas.
 
A administração nos assegurou que os Irmãos eram "amplamente seculares", mesmo que eles quase imediatamente começassem a trabalhar para a islamização da maior nação do mundo árabe e subvertessem as eleições que os haviam trazido ao poder.
 
Aqui a realização da administração é bastante surreal: de alguma forma continuamos a ser os maiores doadores do Egito embora odiados por todos os três principais grupos do Egito – islamistas, o exército e o resto – que se odeiam uns aos outros apenas um pouco menos do que a nós. Em termos práticos, a administração ganhou o ódio do vibrante general Abdel Fattah el-Sisi no lugar da boa vontade de seu decrépito mentor Mubarak – ao mesmo custo dos subsídios de vários bilhões de dólares por ano.
 
V. Israel
 
Israel recentemente infligiu sérios danos ao Hezbollah na guerra de 2006 no Líbano. Apesar de todo o falatório sobre a inépcia israelense durante a guerra, o custo final para os interesses iranianos foi considerável. Parecia não haver vontade por parte do Hezbollah de repetir sua agressão. O forte apoio dos Estados Unidos para medidas defensivas israelenses desanimou os islamistas em iniciar uma nova Intifada na Cisjordânia ou em Gaza. Os iranianos estavam preocupados que os EUA poderiam a qualquer momento golpear sua instalação nuclear ou apoiar um ataque israelense sobre eles.
 
Não agora. A administração Obama imediatamente repreendeu Israel sobre a construção de casas em torno de Jerusalém. Então veio a flotilha palestina e mais ambiguidade americana. Então sermões durante a guerra de Gaza. A relação dos Estados Unidos com Israel está agora em seu nível mais fraco desde a fundação do Estado judaico. Assessores da Administração vazaram insultos sobre o herói de guerra e primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, chamando-o de "covarde" e "cagão", como se a intensidade do microfone aberto de Obama sobre Netanyahu durante a cúpula do G-20 em Cannes não fosse o suficiente. [3]
 
O mundo árabe radical tem o palpite de que outra guerra lançada a partir de Gaza, Cisjordânia, Síria ou Líbano não iria irritar inteiramente uma administração norte-americana que está mais preocupada com os judeus construindo casas em Jerusalém do que sobre os subsídios iranianos e apoio militar ao Hamas. Quando um presidente americano caracteriza um ataque islâmico num mercado kosher em Paris como um ataque aleatório, então é claro – tanto para os americanos quanto para os inimigos dos Estados Unidos – que os judeus e Israel estão em grande parte por conta própria.
 
Conheça o novo Oriente Médio: um Irã em breve nuclear e ascendente, a terra de ninguém espalhada pelo EI, o Egito e a Líbia tornando-se a Somália e o fim da Síria e do Iraque. Isto não foi o destino, mas em vez disso o resultado de uma série de erros ruins dos EUA.
 
Publicado originalmente no National Review Online
 
 
Também disponível no site do autor
 
 
Tradução: Maria Júlia Ferraz
 
 
Notas Tradutora:
 
 
[1] O autor faz um referência a zona de influência criada pelos japoneses nas regiões da Ásia e Pacífico por eles controlados durante a Segunda Guerra Mundial, conhecida como Esfera de Co-Prosperidade, da qual faziam parte diversos estados-satélites submetidos ao poder de Tóquio.
 
[2] Nomes-código das operações militares decisivas lançadas pelos norte-americanos contra rebeldes no Iraque em 2007, e que resultaram na desarticulação dos movimentos guerrilheiros no país.
 
[3] Referência ao episódio ocorrido durante a reunião de cúpula do G-20 em Cannes, em 2011, onde Obama endossou os comentários deselegantes do então presidente francês Nicolas Sarkozy sobre o Primeiro Ministro israelense, episódio registrado por um microfone que estava aberto a jornalistas presentes no evento.
 
 
Para maiores informações sobre o assunto, recomenda-se a leitura dos artigos das Editorias Oriente Médio e EUA e Geopolítica.
 
 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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