Boa Noite ! Hoje é Sexta Feira, 21 de Julho de 2017.
 
Fique por dentro de nosso conteúdo em sua caixa de e-mail:
 




 
> Cultura
Compartilhar
Muçulmanos e islamistas
27/01/2015 - Victor Davis Hanson
O apoio a quem gera o terrorismo somente irá cessar quando o mundo muçulmano sentir que o radicalismo islamista provoca sérios prejuízos.
(Terroristas do Estado Islâmico)
 
O terrorismo em Paris é mais um capítulo ruim em um debate ocidental em curso ao longo de um aparente paradoxo. Quase todo o recente terrorismo global é atribuível à violência de inspiração islâmica – em grande parte dirigida contra os muçulmanos. E, no entanto, a grande maioria da população mundial de 1,5 bilhão de muçulmanos não ajuda diretamente ou estimula a onda de extremismo islâmico.
 
Como, então, se concentrar nos terroristas islâmicos sem poluir o mar em torno onde estes tubarões nadam?
           
Movimentos radicais históricos com supostas maiorias populares no seu inicio ou mesmo em seu andamento asseguram sua viabilidade? Obviamente, a grande maioria dos alemães, japoneses, italianos e russos não apoiavam os extremistas que chegaram ao poder com Hitler, Tojo, Mussolini e Lênin.
           
Na verdade, além de realizar o Holocausto contra os judeus, Hitler matou milhares dos próprios alemães, variando entre homossexuais, comunistas, críticos domésticos e os portadores de deficiência física. Stalin causou mais mortes entre os seus próprios companheiros e cidadãos soviéticos nos anos 1920 e 1930 do que a Wehrmacht fez mais tarde.
           
O ponto é que os movimentos extremistas, mesmo quando eles se tornam fortes o suficiente para chegar ao poder, nem sempre são tipos gentis com os seus ou admirados entre eles. Que os radicais muçulmanos matam muçulmanos em seu meio, não significa necessariamente que eles não preferem matar não-muçulmanos.
           
A influência contínua de muçulmanos radicais que se envolvem em terrorismo depende se eles trazem poder, prestígio e recursos para as pessoas que eles de outra forma geralmente oprimem. Teocratas islâmicos controlam governos somente no Golfo, Irã e Gaza e estão tentando remendar um califado em grande parte da Síria e do Iraque. Do mesmo modo a Turquia está se movendo em direção à teocracia. Mas os islamitas são ativos, tanto acima como abaixo do radar, em quase todas as nações de maioria muçulmana – e eles podem manobrar mesmo que tenham muito pouco apoio popular.
           
Grande quantidade de atenção tem sido dada às mudanças radicais que dizem respeito ao terrorismo islâmico no Oriente Médio, após a desintegração da Síria e da ascensão do Estado Islâmico, junto com a fúria sangrenta do Boko Haram na África central.
           
Mas o que é ainda mais impressionante são as grandes minorias que ainda estão dispostas a declarar seu apoio a terroristas ou dizem que não se preocupam com a sua atividade. De acordo com o Pew Global Attitudes Project, o apoio muçulmano aos bombardeios suicidas diminuiu nos últimos anos. No entanto, mesmo assim, em 2014 nos principais países islâmicos – Palestina, Líbano, Egito e Jordânia – algo entre 18% e 46% da população expressam aprovação para a proposição de que o atentado suicida contra alvos civis pode "muitas vezes/às vezes ser justificados, a fim de defender o Islã de seus inimigos. "
           
A grande maioria dos muçulmanos não mais expressa apoio a Osama bin Laden, mas minorias significativas em alguns países ainda o fazem: 15% no Egito, 23% em Bangladesh e 25% na Palestina. As pesquisas sugerem duas possibilidades perturbadoras. Em um mundo de 1,5 bilhão de muçulmanos, talvez 150 milhões de muçulmanos em todo o mundo – 10% - ainda admiram bin Laden, não estão preocupados com a violência islâmica e apoiam o ataque suicida contra os supostos inimigos do Islã. Enquanto maiorias muçulmanas estão começando a reagir negativamente à escalada de violência em seu próprio meio, milhões ainda não o fazem.
           
Em um sentido histórico, no âmbito dos sistemas políticos e religiosos que não toleram nenhuma dissidência – ainda é um crime capital na maioria dos países muçulmanos caluniar o profeta Maomé ou se tornar um apóstata do Islã – é difícil avaliar qual a percentagem da população que em qualquer determinado momento apóia a liderança radical. Hitler era extremamente popular com o povo alemão após a queda da França em junho de 1940, mas era repelido em meados de 1944, na época dos pesados bombardeios às cidades alemãs, da invasão da Normandia e o colapso da frente alemã no Leste.
           
No entanto, ao longo desses anos os Aliados utilizavam a equivocada denominação "alemães", sem preocupação com o fato de que, durante o período da guerra, às vezes mais, às vezes bem menos alemães apoiavam o que foi feito pelo Terceiro Reich em nome da Alemanha. Assim como os estrangeiros mais recentemente falaram inclusive dos "americanos" sem levar em conta os republicanos ou democratas que tinham pontos de vista muito diferentes até 2006 sobre a Guerra do Iraque, e como as pessoas falam de "cristãos" para se referir a todos, desde os batistas do sul aos católicos brasileiros, então é legítimo ou ilegítimo generalizar sobre "os muçulmanos."
           
Em 2003, um número significativo de pessoas em muitos países muçulmanos expressou "confiança" em Osama bin Laden – 46% no Paquistão, 56% na Jordânia, 59% na Indonésia, 72% na Palestina (todos estes países beneficiários da ajuda dos Estados Unidos). Essas classificações favoráveis diminuíram significativamente após os ataques terroristas da chamada Primavera Árabe, as guerras intestinas no Líbano, o colapso da Síria, os crimes de Boko Haram e a ascensão do Estado Islâmico. Foi politicamente correto dizer que "muçulmanos" apoiavam o terrorismo em 2003 porque uma maioria clara em lugares como a moderada Jordânia teve a opinião pesquisada?
           
Pesquisas claramente não são a única evidência do nível de apoio para o radicalismo de inspiração islâmica. Mais importante pode ser o grau de passividade da população. O general Sisi do Egito argumentou recentemente que o establishment clerical muçulmano tinha uma grande responsabilidade para com o terrorismo islâmico global, não porque esses clérigos necessariamente manifestaram apoio a ele, mas porque eles estavam relutantes ou incapazes de mobilizar os muçulmanos contra ele. Lembro-me de uma reunião com um grupo de exilados líbios que vivem nos Estados Unidos, em 2006, os quais eram profissionais altamente qualificados e americanizados. Eles expressaram otimismo de que seu antigo algoz Kadafi fosse liberalizar seu país e oferecesse esperança de recriar uma sociedade civil, mesmo para os dissidentes secularizados como eles. Mas quando eu mencionei o caso então atual dos ataques islâmicos contra aqueles associados com as caricaturas de Maomé na revista dinamarquês Jyllands-Posten, todos os quatro líbios manifestaram aprovação unânime da violência contra tais blasfemos. E quando eu perguntei-lhes sobre os então recentes atentados suicidas em Israel, eles novamente expressaram seu apoio para tais atividades.
           
Até agora, organizações de pesquisa internacionais não realizaram pesquisas nos países muçulmanos para averiguar as atitudes populares sobre o ataque a Charlie Hebdo. No entanto, não devemos nos surpreender se minorias importantes expressarem o seu apoio. Eu diria que um certo número de muçulmanos em todo o mundo – talvez positivamente acima de 150 milhões – admiraria os chamados mártires cujos atos terroristas foram planejados a serviço da reputação do profeta.
           
Embora haja grande falatório no Ocidente de que é apenas uma pequena minoria de muçulmanos que apoia o terrorismo islâmico, e que o remédio para este tipo de terrorismo deve ser encontrado dentro do mundo do Islã, não há muita lógica ou evidência histórica de que essas obviedades importam muito. Dez por cento é uma pequena minoria de qualquer população. Mas se 10% dos muçulmanos em todo o mundo apoiarem movimentos terroristas em curso, ainda serão 150 milhões de muçulmanos, que representam um reservatório grande o suficiente para ajudar e estimular o terrorismo, quer dando apoio moral e financeiro ou agindo como grupos de pressão dentro de sistemas políticos autocráticos principalmente.
           
Não devemos ficar surpresos com o fato. Se apenas 10% da população francesa é muçulmana, e, talvez, apenas 10% desse subconjunto apoiam a violência islâmica, no entanto ainda há um reservatório de residentes franceses de talvez 600.000 radicalizados de ascendência do Oriente Médio que oferece o tipo de ambiente em guetos suburbanos franceses gerando a violência terrorista atual.
           
Além disso, o apoio teórico ou rejeição do terrorismo como evidenciado pelas pesquisas não se traduz necessariamente em consequências na vida real, especialmente em sociedades não democráticas – como sabemos pelo suposto desencanto alemão com Hitler durante o último ano da guerra. Estávamos errados em janeiro de 1945 ao manter o bombardeio "aos alemães", dado que a maioria até então não gostava do governo nazista e ainda não se atrevera a se opor ativamente?
           
A verdade é que na medida em que os terroristas muçulmanos radicais matam outros muçulmanos dentro de países islâmicos e tornam o progresso coletivo impossível, ou, por suas ações, causam danos tangíveis para a reputação destes países islâmicos no exterior, eles se tornam impopulares e, eventualmente, também encontram pouco apoio para continuar a sua violência.
           
No entanto, se a violência de inspiração islâmica no exterior não afeta direta ou negativamente o Oriente Médio, ou se gera uma sensação de medo do Islã radical entre os ocidentais que não se traduz em sofrimento para o mundo muçulmano – ou que talvez consegue ainda ganhar um espécie de prestígio deformado – então não há razão para esperar que a comunidade islâmica tomará as medidas necessárias para contê-la.
           
A sensação de perseguição percebida no Oriente Médio é real – análoga às lamentações da Alemanha após o Tratado de Versalhes. O refúgio no terror de inspiração islâmica reflete um grande e complexo estado de espírito de raiva diante do alcance da globalização ocidental em sociedades islâmicas tradicionais e conservadoras e de inveja da riqueza e influência do mundo ocidental, combinado com uma incapacidade de oferecer análises de autocrítica sobre o papel do tribalismo, do estatismo, do apartheid de gênero, do fundamentalismo religioso, da intolerância, da autocracia e do antissemitismo na institucionalização da pobreza e instabilidade.
           
Para uma minoria considerável de imigrantes muçulmanos no Ocidente, o sentimento de inferioridade às vezes é reforçado ao invés de diminuir pelo contato com a sociedade liberal ocidental. Quanto mais tempo e distante os imigrantes estão da bagunça do Oriente Médio que os levou a fugir ou, pelo menos, ficar longe, mais eles são capazes, sob a égide da liberdade, prosperidade e segurança ocidentais, de romantizar o que lhes proporciona a sensação de que eles nada ganharam em seus países de adoção.
           
No Oriente Médio, quando as sociedades modernas chegam a tal ponto, elas preferem culpar "os judeus" ou "o Ocidente decadente", em vez de suas próprias patologias pela perceptível decadência de uma era passada de glórias e religiosamente pura. Uma reforma liberal interna seria a única cura duradoura de suas doenças, mas, tragicamente, como um impulso geralmente é imposto a elas por forças de fora, mesmo que apenas uma minoria pequena, mas influente e ativista, é responsável pelo funcionamento de tais agendas autodestrutivas.
           
Quando o niilismo do Islã radical manifesta-se não apenas nos atentados em Paris ou Boston, mas em casa, com a ascensão do Estado Islâmico assassino, ou quando a Primavera Árabe é sequestrada por islamitas que normalmente deixam Somálias em seu rastro, ou quando os muçulmanos do Oriente Médio acharem difícil emigrar e residir em países ocidentais ou importar livremente produtos ocidentais, ou quando os líderes dos estados apaziguadores do Oriente Médio forem relegados ao ostracismo em encontros internacionais, ou quando os estados que degolam e apedrejam forem evitados pelo Ocidente, então o apoio aos terroristas e quem os produziu começará lentamente a desaparecer.
 
 
Publicado originalmente no National Review Online
 
 
Também disponível no site do autor
 
 
Tradução: Maria Júlia Ferraz

 

Sobre o assunto leia também:

 

 
 
 
 



 
Compartilhar

COMENTÁRIOS
INSERIR COMENTÁRIO
Nome / Apelido
E-mail (opcional)
Comentário



Redação: Paulo Zamboni
AmbientalismoAmérica LatinaBrasilCulturaEconomiaEntrevistasEUA e GeopolíticaEuropaMídia em FocoOriente MédioPolíticaSegurança Pública
Artigos IndicadosCLIPPING@MAISEspecialLiteraturaResenhas
Home Editorial Faq Fale Conosco


Canais:
 
MÍDIA A MAIS © COPYRIGHT 2013, TODOS OS DIREITOS RESERVADOS