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Entrevista M@M - Moisés Rabinovici
20/01/2015 - Redacao Midia@Mais
Em entrevista exclusiva ao MÍDIA@MAIS, o veterano jornalista Moisés Rabinovici fala sobre terrorismo, jornalismo e sua experiência como correspondente internacional.
(Moisés Rabinovici como corresponde de guerra no Líbano, em 1982, ao lado de militar israelense. Jornalismo com "J" maiúsculo).
 
MÍDIA@MAIS - Após os recentes atentados em Paris, assistimos pelo menos na imprensa brasileira a uma repetição de chavões já bastante conhecidos: o principal deles tenta dissociar de maneira definitiva os jihadistas dos muçulmanos de maneira geral. Embora tal raciocínio seja compreensível do ponto de vista humanitário, ele ajuda muito pouco a informar e a compreender o fenômeno dos terroristas islâmicos. O senhor acha razoável imaginar que os jihadistas compõem uma comunidade totalmente a parte do restante dos muçulmanos? Esses terroristas não estão de alguma forma integrados à comunidade, fazendo contatos, trocando experiências e recebendo informação ideológica e revolucionária de outros muçulmanos que não são necessariamente terroristas?
 
Moisés Rabinovici - Para mim não existe divisão: os maus não estão entre nós, que somos do bem. Os jihadistas vão para o ataque gritando Alahu Akbar, “Deus é Grande!”. São o extremo de uma comunidade, mas não deixam de ser parte dela. O que me espanta é que os ímãs, nas mesquitas, não saiam a público, condenando-os. Vimos em Paris vários líderes muçulmanos na marcha histórica contra o terrorismo. O posicionamento político não basta. Da mesma forma como o papa está punindo pedófilos dentro da igreja, gostaria de ver um jihadista reprovado pelo Islã, até excomungado. As escolas islamitas formam os soldados da guerra santa, a Jihad. A barbárie cresce sem obstáculos: esta semana, uma criança foi vestida com uma bomba para explodir-se num atentado. Já vimos muitas decapitações, sequestros, punições absurdas de mil chibatadas para quem postou algo num blog, mulheres presas por dirigir e as obrigações da sharia que as tornam submissas a horrores. O ocidente assiste passivo até que os fundamentalistas muçulmanos não se apresentem para impor seus hábitos, costumes e leis. Se uma comunidade não quer seus extremos que a envergonham, que tome providências. Os neonazistas não são excluídos da sociedade alemã: são presos, julgados e condenados. Se tenho um câncer, foi meu corpo que o gerou, ele é produto do que fiz, ou, talvez, da hereditariedade. Não adianta eu me enganar dizendo que o câncer não faz parte de mim. Para a cura, tenho que lutar contra ele.
 
M@M - A presidente Dilma Rousseff sugeriu que seria preciso investir mais na solução dialogada ao referir-se aos fundamentalistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. É provável que aos poucos a indignação causada pelo massacre em Paris dê lugar a um pensamento semelhante, agora, em mais uma tentativa de "compreender" as motivações dos terroristas. Afinal, é possível dialogar com militantes políticos cujo maior objetivo é matar quem supostamente está disposto a esse diálogo?
 
MR - Quando o policial francês tentou negociar com um dos jihadistas encurralados, ouviu o seguinte: “Quero morrer como mártir”. Israel usa a lei do talião, olho por olho, às vezes dois olhos por um olho. Os israelenses convivem com o terrorismo desde que proclamaram a independência em 1948. O que eles aprenderam, e repetem, é que terroristas só entendem a linguagem da força. Por isso, a qualquer atentado, a resposta imediata é um bombardeio aéreo. O martírio é glorificado. E era bem pago, quando o líder líbio Kadafi vivia. Ele dava um bônus de 25 mil dólares à família do homem-bomba, uma recompensa a mais para quem ainda teria mais de 70 virgens e um lugar garantido no paraíso. O diálogo poderia levar à paz, ao menos entre israelenses e palestinos. Na hora de colocar os termos num acordo, porém, o reconhecimento de Israel como um estado independente e democrático é o maior empecilho para os negociadores árabes. A presidente Dilma perdeu uma grande oportunidade ao não participar da marcha em Paris. Desde Lula, o Brasil fica ao lado de ditadores.
 
M@M - Nem bem o local do massacre em Paris foi esvaziado e a imprensa - especialmente a brasileira - subia para as manchetes dos portais a habitual preocupação com o crescimento da "islamofobia". Não seria razoável que os jornalistas gastassem ao menos cinco minutos de sua atenção preocupando-se, antes, com as motivações cristofóbicas, antiocidentais e antissemitas que parecem guiar as ações dos terroristas?
 
MR - Os culpados são os mortos. A mulher de minissaia é responsável pelo estupro a que foi submetida. Coitadinhos dos jihadistas, que põem seus irmãos muçulmanos na mira do ódio ocidental. Quem vai acabar com a islamofobia serão os islamitas revoltados contra o que se faz em seu nome, em nome de todos. Parem de glorificar os mártires, e não haverá mais tanta sedução ao martírio. Lamento o futuro da criança palestina de Gaza que cresceu em meio a tanta violência. Ela será o jihadista de amanhã. Quantas gerações passarão até que o ódio se dissipe? Muçulmanos e judeus não dão a outra face, quando golpeados. A imprensa tende a escolher lados. Bibi Netanyahu ia ser desconvidado, como Le Pen, a participar da marcha. No caso dele, para evitar que o conflito palestino-israelense ocupasse a agenda. E a Le Pen para não enfurecer imigrantes. Acontece que o segundo atentado visou um supermercado kosher em que quatro judeus foram mortos. Foi uma escolha premeditada. Os judeus franceses estão indo embora da França por causa do antissemitismo crescente. A tolerância francesa chegou ao paradoxo de ter os irmãos jihadistas em duas listas que os serviços secretos americanos divulgaram, mas nada foi feito, estavam soltos, obtiveram um arsenal e ensanguentaram a liberdade tão cultuada pelos franceses.
M@M - Há toda uma nova geração de jornalistas trabalhando em diferentes plataformas, hoje, respondendo aos fatos muito mais rapidamente do que era o habitual antes do advento da internet. A agilidade ganha, mas aparentemente a qualidade dos textos (ao menos na própria internet) tem piorado bastante. Como o senhor enxerga esse fenômeno?
 
MR - Logo depois do atentado ao Charlie Hebdo li em vários sites que os assassinos estavam presos. Um deles tinha deixado a carteira no carro que usaram na fuga, o que facilitou que fossem rapidamente identificados. Também se publicou que o dono da carteira era um terceiro terrorista que durante a madrugada havia se entregado à polícia. O Twitter e os blogs criaram um novo cargo necessário à imprensa: o de curador. Mas na avalanche de informações desencontradas dos primeiros instantes de um acontecimento, há que ficar com um pé atrás. Já vi tantos erros grosseiros, reconhecidos só depois que os fatos são esclarecidos. Vivemos esta busca da informação instantânea, que flui com certa irresponsabilidade. Agora, todos são jornalistas, bastando um celular e uma conta para tuitar. Tuiteiros e blogueiros não têm correspondentes no exterior ou enviados especiais, como os jornais. Repetem o que recebem, e no dia seguinte usam o que saiu publicado, filtrado com zelo e preocupação com a verdade. No Oriente Médio as rádios são usadas para contrainformar. Como todos os países captam tudo um do outro, a informação de que o Líbano está bombardeando alguma localidade israelense pode ter um valor militar. Quando atacados, os israelenses noticiam que as bombas caíram em áreas abertas e desertas. Se dizem que alguma acertou o alvo, o disparador lá de Gaza descobre os parâmetros para continuar acertando. Se alguém pega essas informações e as redistribui pela internet, estará desinformando.
M@M - Independente da notícia em si, temos a impressão de que muitos jornalistas de grandes veículos brasileiros nutrem ideias solidamente preconcebidas a respeito de diversos assuntos. No caso do massacre em Paris, por exemplo, um comentarista de um grande jornal paulista chegou a escrever que o atentado servia à "direita europeia". O quanto o senhor acha que a preferência ideológica de um jornalista pode chegar a comprometer a análise que ele faz dos fatos?
 
MR - Compromete totalmente. A notícia não tem ideologia. A maneira de escrevê-la, sim. Já estou vacinado: separo bem os jornalistas da esgotosfera, comprometidos com ideologia ou, pior, um salariozinho em forma de publicidade, dos que procuram saber o que aconteceu, com honestidade. Quando um texto é honesto, você pode separar o fato de quem o apresenta, e tirar suas próprias conclusões. Colocar-se honestamente é o equivalente à imparcialidade que se cobrava antigamente, mas impossível. Ou à objetividade. Como um repórter poderá apurar com objetividade algo sem ser ele próprio, com toda a subjetividade que molda seu olhar e compreensão? Mostrando-se com honestidade, com sinceridade, porém, ele dará chances ao leitor de separar o joio do trigo.
M@M - Aparentemente, o jornalismo investigativo e de campo, de alto nível, deixou de existir na imprensa brasileira. Excetuando-se algumas matérias relativas a denúncias pontuais na política, os grandes temas não são investigados. Por exemplo, Foro de São Paulo, ação do BNDES no patrocínio de ditaduras e interesses estrangeiros, a morte de Celso Daniel, as ligações do crime organizado com grupos políticos, os porquês de as fronteiras do Brasil não serem devidamente fiscalizadas e de não haver um combate efetivo contra o tráfico de drogas e armas, as ações de grupos criminosos cada vez mais parecidas com ações de guerrilha - explosões, sequestros, bloqueios de estradas, etc. O que levou a este estado “anêmico" do jornalismo nacional?
 
MR - A pauta dos jornais está ligeira, superficial. O Estadão ganhou o Esso persistindo por meses num assunto. Foi uma exceção. The New York Times dá um show diário de reportagens para seus leitores do papel e digital. Muito da pobreza jornalística atual advém da falta de recursos. As empresas demitem aos montes. E não repõem. Cada vez mais acumulados estão os que ficam. O repórter dos novos tempos tem que voltar com algo para a internet, se possível com som e imagens, e depois senta para escrever para o jornal-papel. Fará algo pequeno, rasteiro. Lendo-os nos sites, o leitor engole erros de concordância, palavras mal colocadas ou escritas. Nem revisor passam mais. Nem terão quem os leia antes. A disputa é por quem dará a notícia em primeiro lugar. Tanta notícia deixa um gancho para ser tratada mais a fundo noutra edição, mas quem a pega? Veja a corrupção. Todo caso novo enterra o anterior. Alguém se lembra o que foi a operação Satiagraha? Perdemos a memória, passamos rasos pelo presente, e não teremos futuro. Somos uma irrelevância.
M@M -​ O senhor foi correspondente de guerra no Líbano e em El Salvador. Em qual dos dois conflitos o senhor passou pelos piores apuros? Comparando a cobertura daqueles conflitos e dos atuais, quais as diferenças que o senhor poderia apontar?
 
MR - No Líbano, com uma camiseta “imprensa” em árabe, francês e inglês, respeitavam-no. Em El Salvador, miravam-no. Esta a maior diferença. Apuro maior, no entanto, passei no Líbano. O gerador do hotel da imprensa em Beirute tinha sido alvo de uma bomba, e eu tinha que escrever. Peguei o carro para ir até Haifa, duas horas de estrada, e voltaria na manhã seguinte. Meu carro estava com placa israelense, e minha barba, na época, chegava ao umbigo. Sem contar o meu nome, Moisés Rabinovci, claramente judeu. Quando adentrei a rua principal da cidade de Tiro, dei de cara com uma turba de muçulmanos vindo na minha direção. Se desse ré, revelaria ter motivos para fugir. Nem havia tempo. Desliguei o carro, fechei janelas e portas por dentro, e esperei. A multidão engolfou o carro, e ele balançava, enquanto gritava palavras de ordem que não entendia. Surpresa foi ter sobrado, à frente mais ninguém, e a passeata se afastando atrás. Fui embora rapidamente. Parei num lugar em que vi tropas israelenses, entrei num café e perguntei o que estava acontecendo. O íman da região, Mussa Sadr, indo para a Itália, foi sequestrado em Trípoli, na Líbia, a única escala, por ordens de Kadafi. A multidão queria a liberdade imediata de seu líder religioso. Cegos de fúria, não ligaram para mim. Houve outros momentos, mas este até hoje me dá calafrios.
 
M@M - ​O senhor possui ampla bagagem como jornalista, inclusive na parte administrativa. Como foi seu trabalho no Diário do Comércio, fechado no final de 2014? O senhor acha que o fim dos jornais físicos é uma tendência? Em que medida a internet pode ser útil para combater uma eventual censura dos meios de comunicação tradicionais?
 
MR - O Diário do Comércio não foi fechado por causa da internet. O dc.com estava com mais de milhão de visitantes/mês. O jornal papel só existia para assinantes. E estava estável, com viés de alta. O DC acabou por outros motivos, surpreendendo até a própria Associação Comercial, o publisher. Eu fui avisado minutos antes. Mas este é um outro assunto.
 
 
***
 
Entrevista conduzida por Maria Júlia Ferraz, com participação de Felipe Atxa e Paulo Diniz Zamboni.
 
 
Para conhecer mais sobre o trabalho de Moisés Rabinovici ao longo de sua extensa carreira, acesse o blog http://rabinovicimoises.com
 



 
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