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Como foi no Iraque e como é agora na Síria
02/10/2014 - Victor Davis Hanson
É necessário lembrar o início do envolvimento americano no Iraque. E como Bush, ao contrário de Obama, sabia o que estava fazendo.
(Derrubada de estátua do ditador Saddam Hussein em Bagdá, 2003. Campanha militar de sucesso jogada fora pelo despreparo e oportunismo de Obama, que é incapaz de lidar com a atual crise no Oriente Médio)
 
As mentiras da Guerra do Iraque agora encontram-se em sua maior parte na esfera dos mitos. Nos esquecemos exatamente tanto como entramos como saímos da guerra. 
 
Em outubro 2002​,​ a autorização conjunta do Congresso para ir ​à​ guerra não era apenas devido aos temores das armas de destruição em massa (ADM). Outras preocupações induziram o amplo apoio bipartidário para a resolução. A maioria dos senadores democratas (como evidenciado por seus discursos apaixonados no Senado) citou muitos dos 23 mandados da resolução. Os últimos foram mais preocupados com outras coisas do que as ADM: abrigar terroristas, oferecimento de recompensas para os homens-bomba, concessão de refúgio a pelo menos um dos suspeitos de bombardeio do World Trade Center em 1993, cometer genocídio, tentativa de assassinato contra um ex-presidente dos Estados Unidos, e assim por diante. Hillary Clinton deveria assistir ao seu próprio discurso de 2002 no plenário do Senado. 
 
George W. Bush foi o terceiro presidente consecutivo EUA a bombardear o Iraque. Em 2001, a primeira guerra do Iraque foi vista como incompleta, na medida em que um genocida Saddam Hussein não apenas se mantinha no poder, mas também havia quebrado a maior parte dos acordos assinados após a derrota de 1991. As zonas de exclusão aérea foram se desgastando. É por isso que Bill Clinton bombardeou o Iraque em 1998 e supostamente explodiu um monte de coisas e matou um monte de iraquianos (Operação Raposa do Deserto). No início daquele ano, ele havia assinado a Lei de Libertação do Iraque, que foi aprovada por unanimidade no Senado e esmagadoramente na Câmara.​ ​E ainda antes, ele havia resumido de maneira famosa os temores de sua administração: 
 
"O Iraque admitiu, entre outras coisas, uma capacidade de guerra biológica ofensiva, notadamente, 5.000 litros de toxina botulínica, que causa botulismo; 2.000 litros de antraz; 25 Scud​s​ com ogivas biológicas; e 157 bombas aéreas. E eu poderia dizer inspetores da UNSCOM acreditam que o Iraque tem a sua produção atual muito subestimada. 
 
Ao longo dos últimos meses, como [os inspetores de armas] t​ê​m ficado mais perto de erradicar a restante capacidade nuclear do Iraque, Saddam empreendeu mais uma artimanha para frustrar suas pretensões através da imposição de condições debilitantes sobre os inspetores e declarando como fora dos limites locais-chave ainda não inspecionados.
 
É óbvio que aqui há uma tentativa, com base em toda a história desta operação desde 1991, para proteger o que resta de sua capacidade de produzir armas de destruição em massa, os mísseis para liber​á​-las, e os estoques de suprimentos necessários para produzi-las. Os inspetores da UNSCOM acreditam que o Iraque ainda tem estoques de munições químicas e biológicas, uma pequena força de mísseis tipo Scud, e a capacidade de reiniciar rapidamente o seu programa de produção e construir muitas, muitas mais armas. . . . 
 
Agora, vamos imaginar o futuro. E se ele não obedecer e não agirmos, ou tomamos uma terceira rota ambígua, o que lhe dar​á​ ainda mais oportunidades para desenvolver este programa de armas de destruição em massa e continuar a pressionar pela libertação das sanções e continuar a ignorar os compromissos solenes que ele fez? Bem, ele vai concluir que a comunidade internacional tenha perdido a sua vontade. Ele, então, concluirá que está indo pelo caminho certo e far​á​ mais para reconstruir um arsenal de destruição devastadora. E algum dia, de alguma forma, eu garanto que ele vai usar o arsenal. . . "
 
A Lei de Libertação do Iraque, e o apoio bipartidário para ela, foi definida num cenário de clima​ ​pós​-​11 de Setembro e autorizou o uso da força para mudar o regime e estabelecer uma alternativa democrática.
 
Note-se aqui: Bush foi à guerra com o total apoio do povo americano (pesquisas mostraram maiorias de mais de 60% a favor), com autorização bipartidári​a​ do Congresso, depois de uma longa e mal sucedida tentativa para ganhar a aprovação da ONU, e induzido pelos avisos anteriores de Bill Clinton sobre as ADM, que foram confirmados por avaliações de inteligência atualizadas então disponíveis para o Congresso e não questionadas na época por qualquer um no Congresso que as havia lido. 
 
A ira que se desenvolveu nos EUA em relação a ​G​uerra do Iraque não se originou pelo objetivo declarado de eliminar o monstruoso Saddam Hussein ou até mesmo pela ausência posterior de grandes estoques utilizáveis de armas de destruição em massa no Iraque. Saddam, lembre-se, matou talvez milhares de vezes mais iraquianos, curdos e iranianos com armas de destruição em massa do que Bashar Assad (e aparentes estoques de Armas de Destruição em Massa misteriosamente têm o mau hábito de ainda aparecer na Síria e Iraque). Em vez disso, a guerra tornou-se impopular em grande parte por dois motivos. 
 
No final do verão 2003, os insurgentes e terroristas tinham começado a matar americanos em grande número. Depois que o público americano tinha sido preparado por uma vitória fácil e baixas relativamente leves na invasão inicial, e o aparente fim da guerra com a bem sucedida derrubada de Saddam Hussein, a inesperada violência veio como um choque. Tivessem os militares americanos perdido ​quatro​ mil mortos na remoção de Saddam - como alguns generais da reserva haviam alertado antes d​e ​a guerra começar - e imposto imediatamente uma paz tranquila, o público não teria se voltado contra a guerra. Foi a noção deprimente que uma campanha tão brilhante foi seguida por uma ocupação cara que provocou a irritação popular. 
 
Em segundo lugar, a administração Bush ignorou muitas das ênfases dos mandados originais do Congresso e, em vez disso​,​ ​tornou sensacionalistas os temores sobre as armas de destruição em massa. Quando não foram encontrados grandes estoques utilizáveis destas últimas​​, e a guerra parecia muito custosa, numerosos apoiadores originais da guerra - como os senadores Joe Biden, Hillary Clinton, John Kerry, Harry Reid e Jay Rockefeller - deram um giro e condenaram não apenas a condução da guerra, mas as circunstâncias em que eles próprios haviam defendido isso. Ninguém na mídia perguntou a qualquer um desses novos críticos se os curdos nunca tinham sido gaseados, ou se Saddam não tinha abrigado terroristas globais, ou se os árabes dos pântanos não tinham sido destruídos, ou se Saddam não tinha tentado matar o ex-presidente George H​.​ W​.​ Bush.
 
Os meios de comunicação - e não apenas a grande mídia - da mesma forma viraram​-se​ contra o esforço de guerra. Apoiadores anteriormente vigorosos ao longo de todo o espectro político, como William F. Buckley Jr., Thomas Friedman, Francis Fukuyama, George Will e Fareed Zakaria, agora condenavam a guerra tanto como mal planejada quanto executada​ sem competência​, a tal ponto que seus objetivos não valiam os custos dos meios para alcançá-los. Se a falha ao trazer a reforma democrática no Oriente Médio tinha sido anteriormente a crítica esquerdista ao acordo de paz míope de George H​. ​W​.​ Bush com Saddam Hussein, a defesa do governo constitucional torn​ara​-se agora a marca de supostos neocons suspeitos de serem agentes pró-Israel. 
 
A incompetente ocupação [do Iraque] entre 2003-2006, juntamente com as eleições americanas de 2004 e 2006, provocou um movimento antiguerra onde os desejos de Michael Moore, Cindy Sheehan, a Esquerda Democrática e o New York Times - agora em grande parte em silêncio em meio aos bombardeios atuais de Obama - levaram a alegações de que Bush sozinho tinha começado uma guerra preventiva unilateral devido ao petróleo. Que ele estava seguindo o mesmo caminho de Clinton, tivesse a autoridade do Congresso com base em mais de 20 mandados, acreditava que Saddam era um defensor de terroristas internacionais, e estava assegurando que o petróleo iraquiano iria para o mercado em condições transparentes, e principalmente para a China, a Rússia e a Europa - tudo isso foi convenientemente ignorado. 
 
Depois de uma desastrosa eleição de meio de mandato, e sem muito apoio entre sua base republicana, Bush, no final de 2006​,​ jogou com a escalada (do envolvimento no Iraque) e nomeou o general David Petraeus para pacificar o Iraque e conquistar a paz. Dois anos depois, a escalada foi reconhecida como um sucesso até mesmo por seus críticos (com a exceção de Barack Obama). Obama assumiu o governo com um Iraque relativamente calmo e com a taxa de acidentes mensal entre os militares dos EUA maior do que o número de soldados feridos ou mortos por ação inimiga no Iraque. 
 
Em outras palavras, como na confusa e muito mais mortal Guerra da Cor​e​ia, a paz foi finalmente conquistada, e delineada uma ocupação que poderia garantir ao Iraque um caminho para a estabilidade. Se valeu a pena o resultado e o seu custo horrível em termos de mortos, feridos e perda de recursos​,​ é algo que pode ser debatido. Mas o que não pode ser questionado é que o Iraque entre 2009-11 era muito mais estável do que muitos outros países árabes, como a Líbia, o Egito ou a Síria. Ele havia escapado da maior parte da violência da Primavera Árabe, e, assim, foi saudado por Barack Obama e Joe Biden várias vezes como estável, seguro e potencialmente sendo a maior conquista do governo Obama. 
 
O que aconteceu após 2008 é também uma questão de registro. Obama tinha concorrido à presidência com a promessa de retirar todas as tropas do Iraque e na premissa de que a escalada tinha falhado. Ele retirou as últimas forças de paz dos Estados Unidos em 2011, e ainda se gabou na campanha de 2012 sobre o governo estável que ele tinha deixado para trás - algo que seria análogo a ter colocado para fora da Cor​e​ia do Sul todas as forças de paz em 1955, do Japão em 1950, ou dos Balcãs em 2002, e, em seguida,​ suposto​ arrogantemente que essas regiões devastadas pela guerra teriam seguido as suas trajetórias atuais, em sua maioria bem sucedidas. 
 
Assim que saímos do Iraque em 2011 - tendo sido anunciado já em 2009 que iríamos fazê-lo - os terroristas islâmicos radicais anteriormente derrotados e dispersos se reagruparam sob a bandeira do Estado Islâmico. O governo de Maliki, não temendo a supervisão dos Estados Unidos, perseguiu seus inimigos sunitas. A corrupção se espalhou. O Irã penetrou o vácuo estratégico. Nossos amigos sunitas dentro e fora do Iraque se sentiram abandonados. E​,​ em 2014​,​ o Iraque havia regredido a 2006, com o país em guerra civil aberta.
 
Em resposta a esse caos, Barack Obama bombardeou o Iraque sem o apoio do Congresso ou autorização da ONU, mas, aparentemente contando com a própria resolução do Congresso de 2002 que ele já havia ridicularizado. Ele agora está bombardeando a Síria sem resolução do Congresso ou autorização da ONU. Ele não tem sido capaz da quadratura do círculo de sua própria conduta, ou seja, que a sua decisão politicamente motivada de deixar o Iraque pode muito bem ter criado as condições que o levaram a escolher voltar para ele. 
 
Note também a ausência de um movimento antiguerra na América de hoje. Não há indignação popular porque Obama não tentou conseguir resoluções da ONU (​em vez de fazer meros sermões para ela). Ninguém está com raiva por ele contornar o Congresso da forma como ele fez ao bombardear a Líbia. Não há nenhuma preocupação declarada acerca de bombardeio indiscriminado ou danos colaterais. Em vez disso, da mesma forma que as capitulações, Guantánamo,​ ​a prisão preventiva, o Patriot Act, drones e quase todos os outros protocolos antiterroristas de Bush-Cheney, que uma vez foram a prova da suposta criminalidade do governo Bush, apenas para ser convenientemente ignorados quando Barack Obama adotou-os, agora o novo bombardeio do Iraque e Síria também não é uma fonte de descontentamento popular. 
 
Que Obama já bombardeou três países árabes e nada fez para ajudar a amenizar o caos em terra pode ser politicamente astuto, mas não é uma decisão moralmente conduzida. Bush, o suposto criminoso de guerra, sacrificou a sua presidência para garantir que o bombardeio americano não levasse o Iraque a uma situação como a de Mogad​í​scio. Ele ordenou a escalada, depois de advertir o que aconteceria se ele não o fizesse - o que, de fato, acontece sob Obama. 
 
O problema com Obama no Oriente Médio é que ele ainda não sabe exatamente quem está prejudicando e quem está ajudando com seu bombardeio - e não é possível saber sob o âmbito de uma política de explodir as coisas a partir do ar e depois de um tempo ir embora. Ele não tem a intenção de limpar ou colocar em ordem a confusão em terra que tal bombardeio agrava, e ele não tem nenhuma preocupação que aconteça uma fiscalização da mídia ou popular. A Líbia já se tornou história antiga. Ninguém se lembra de nosso outrora forte apoio ​à​ Irmandade Muçulmana terrorista ou a nossa esquizofrenia sobre a presente junta no Egito. Ninguém se lembra​ de​ que uma vez estivemos a ponto de bombardear Assad e agora estamos de fato sancionando-o. Ninguém lembra que Obama tem atualmente alguma latitude estratégica em suas decisões porque o fracking e a perfuração horizontal dentro da América - às quais ele se opõe fortemente, e atualmente proíbe principalmente em novas concessões de terras federais - deram aos Estados Unidos alguma imunidade das conseq​u​ências de costume vindas do petróleo do Oriente Médio durante o caos do tempo de guerra. 
 
Em suma, a única crítica legítima ​à​ Guerra do Iraque de George W. Bush é que as vidas e os recursos perdidos na ocupação caótica de 2003-06 não valiam a remoção do monstruoso Saddam Hussein e o subsequente estabelecimento de um estado consensual e estável no Iraque. E a única legítima defesa da política subseq​u​ente de Obama na região é que, enquanto ele está bombardeando todos os tipos de grupos no Iraque, Líbia e Síria, abdicou da liderança de uma maneira que levou à matança em massa e ​à​ destruição na região, não tem planos para ajudar a construir governos consensuais no pós-guerra, e não sabe bem quem são seus inimigos ou o que eles estão planejando, ele até agora não perdeu vidas americanas no processo - pelo menos até que o ascendente Estado islâmico flexione seus músculos globais.
 
 
Publicado originalmente no National Review Online
 
 
Também disponível no site do autor
 
 
Tradução: Maria Júlia Ferraz
 
 
Nota Redação M@M: para maiores informações sobre o assunto, recomenda-se a leitura das Editorias Oriente Médio e EUA e Geopolítica

 

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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