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Realidade paralela criada pela universidade alimenta conflito social
27/09/2014 - José Maria e Silva
A esquerda universitária jamais aceita o debate intelectualmente honesto e prefere desumanizar o adversário de ideias, que se vê atirado numa espécie de gueto de Varsóvia do pensamento, marcado com a suástica do politicamente correto.
“Uma das violações mais comuns dos padrões intelectuais pelos próprios intelectuais é atribuir uma emoção (racismo, machismo, homofobia, xenofobia, entre outros) àqueles que detêm pontos de vista diferentes, em vez de responder seus argumentos.” Essa afirmação do economista norte-americano Tho­mas Sowell, professor de Stanford, que consta no livro “Os Intelectuais e a Sociedade” (É Realizações Editora, 2011), retrata, com perfeição, a atitude da esquerda universitária, não só norte-americana, mas também brasileira, que jamais aceita o debate intelectualmente honesto – palavra contra palavra, frase contra frase, texto contra texto – e prefere desumanizar o adversário de ideias, que se vê atirado, sem justa causa, numa espécie de gueto de Varsóvia do pensamento, marcado com a suástica do politicamente correto.
 
Essa atitude dos intelectuais de esquerda é uma forma defensiva de proteger o núcleo insano da maioria de suas teses, que, sem dúvida, merecem um lugar de honra na Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte, o imortal personagem de Machado de Assis. Infelizmente, essas teses avessas à realidade estão no poder e nos palanques. Filho da USP, da CNBB e dos sindicatos de metalúrgicos, o PT é a expressão político-partidária dessa atitude corrosiva da esquerda intelectual, que se alimenta do conflito e não do consenso, buscando dividir a sociedade para melhor dominá-la. É o que se vê na eleição presidencial deste ano, em que um Lula flagelado e rebelde (para usar uma imagem machadiana) se esgoela diante do menor vislumbre de derrota, amparando a figura nebulosa e esconsa de sua pupila por meio de um discurso fratricida.
 
Valendo-se de sua estreita parceria com as universidades, o PT começou a governar o Brasil antes mesmo da eleição de Lula, seja ditando as principais leis aprovadas desde a Constituição de 1988, seja influindo decisivamente na maioria das políticas públicas do País por meio de seus profissionais universitários, como pedagogos, psicólogos, médicos, sociólogos, assistentes sociais, entre outros. Exemplo disso, como afirmei em artigo na semana passada, é a Lei Antimanicomial (Lei 10.216, de 6 de abril de 2001), promulgada por um tucano demonizado pelo PT, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em que pese essa lei ter sido ditada pela esquerda radical, que, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, propôs a “Reforma Sanitária”, na qual já se embutia o fim dos manicômios.
 
Drogados ajudam a falir o INSS
 
Essas leis e políticas públicas de inspiração esquerdista criam novos conflitos em vez de resolver os antigos. É o caso da Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006, que legalizou completamente o consumo de drogas ao transformá-lo numa questão de saúde pública e não mais de polícia ou de vergonha na cara, eximindo o usuário de qualquer responsabilidade individual sobre o seu vício. Combi­nada com a Lei Antimanico­mial, essa norma promulgada pelo então presidente Lula, que instituiu o “Sistema Na­cional de Políticas Públicas sobre Dro­gas”, tem um efeito nocivo não só na saúde, em que seu im­pacto é direto, mas também na e­du­cação, na segurança pública – ve­jam o caso do assassino do cartunista Glau­co, abordado por mim na se­mana passada – e até na economia.
 
Segundo reportagem do jornal “O Globo”, publicada em 10 de fevereiro deste ano, o total de auxílios-doença pagos pelo INSS a dependentes de múltiplas drogas cresceu 256% nos últimos oito anos. E o benefício concedido a viciados em cocaína, crack e merla cresceu 254%. Outra reportagem do gênero, publicada em 8 de setembro pela “Folha de S. Paulo”, também mostra o crescimento do número de usuários de crack e cocaína que recebem auxílio-doença e informa que os gastos do INSS com dependentes químicos já somam R$ 206 milhões entre 2009 e o mês passado. O valor do auxílio-doença para o usuário de drogas depende do seu salário e varia de R$ 724 a R$ 4.390,24 – sem prazo para encerramento. Ou se­ja, além do peso crescente para o Es­tado, há um custo financeiro e o­peracional para o empregador, que precisa ficar guardando a vaga do drogado, como se ele fosse um mero doente, acometido por uma fatalidade.
 
O montante gasto com o auxílio-doença dos usuários de drogas pode parecer insignificante diante do déficit da Previdência, que ronda a casa dos R$ 30 bilhões, mas, além do crescimento exponencial desse gasto, ele tem um impacto moral negativo nas duas instituições que sustentam a sociedade – a família e o trabalho. A nova legislação sobre drogas não apenas acabou com o enquadramento penal do usuário – ela também o isenta de qualquer sanção moral por parte da sociedade. Além de não poder ser preso nem mesmo quando usa crack em praça pública, à luz do dia, espalhando o terror entre cidadãos ordeiros, o viciado ainda se tornou prioridade nos sistemas de saúde e educação, desfrutando de programas especiais de atendimento que envolvem equipes multiprofissionais – um privilégio com que o trabalhador que labuta de sol a sol, religiosamente submisso às leis e ao cartão de ponto, jamais pode contar.
 
Cidadão é proibido de chorar as vítimas
 
Essa absurda inversão de valores – oriunda da mentalidade subversiva que impera nas universidades – enfraquece a consciência coletiva de que falava Durkheim, fragmentando a sociedade em grupos conflitantes e corroendo qualquer projeto de País. Como se percebe nas campanhas políticas, não há nenhum valor – nem mesmo a vida – capaz de unir a nação. Nem os mais sórdidos homicídios, os mais trágicos acidentes ou as maiores catástrofes são ca­pazes de suscitar nos brasileiros um sentimento comum de dor, característico das nações socialmente sadias quando enfrentam situações semelhantes. No Brasil, tudo isso é suscetível de uso político ou ideológico, não só nos palanques, mas também nas universidades, levando o povo – a princípio, sensível – a se tornar indiferente, com a alma calejada pela naturalização artificial dessas tragédias humanas transformadas em conflitos ideológicos.
 
O brasileiro comum foi destituído do direito de chorar suas vítimas de homicídios, estupros, sequestros, agressões – que se contam às centenas, diariamente. Quando o faz – mesmo que seja um pai ou uma mãe lamentando o filho morto por um assaltante – é logo acusado pelos intelectuais de esquerda, ainda que de forma oblíqua, de ter sede de vingança, de ser preconceituoso, de defender a exclusão social, como fez o festejado sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro, da USP, por ocasião da morte do menino João Hélio. Hoje, todas as leis brasileiras obrigam o cidadão de bem a oferecer a outra face ao bandido, custeando até suas visitas íntimas na cadeia, caso venha a ser preso. Diante de um Estado que sempre toma o partido do criminoso em detrimento de suas vítimas, o que se pode esperar do cidadão ordeiro, cumpridor das leis, senão uma profunda decepção com o País em que nasceu e que não faz por merecer o seu suor?
 
Fanático pelo paraíso de sua utopia, o intelectual de esquerda transforma num inferno a vida do homem comum. No livro citado, Thomas Sowell – que não pode ser acusado de pertencer à elite branca, já que é negro – acusa os intelectuais acadêmicos de “criar sua própria realidade ao filtrarem toda a informação contrária à concepção que têm de como o mundo funciona e como deveria funcionar.” E cita vários casos de filtragem de fatos pela “intelligentsia” com o objetivo de beneficiar minorias como homossexuais e negros. Sowell lembra o caso de um homem gay espancado e morto por criminosos que mereceu mais de 3 mil reportagens na imprensa norte-americana, enquanto o caso de um garoto adolescente capturado e estuprado durante horas por dois homossexuais foi tratado por menos de 50 reportagens. Da mesma forma, houve casos de corrupção em governo de negros que foram abafados, enquanto casos de incêndios de igrejas negras foram aumentados e desvirtuados para parecerem crimes de racismo.
 
Intelectuais filtram os fatos da realidade
 
No Brasil, em que a esquerda praticamente não encontra oposição intelectual dentro das universidades, seria possível escrever uma obra maior do que a “Suma Teológica” de Santo Tomás de Aquino apenas enumerando os casos de filtragem de fatos por parte dos acadêmicos com o objetivo de criar a realidade paralela de que fala Sowell. Ironicamente, esses mesmos acadêmicos que manipulam fatos são os primeiros a prescrever “informação” e “educação” como receita para tudo, desde a prevenção do uso de drogas até o combate à criminalidade, passando pelo controle da Aids, a violência nas escolas e a redução dos acidentes de trânsito. O criminoso, o promíscuo, o indisciplinado, o infrator jamais são responsabilizados por seus atos nocivos, e a sociedade se vê obrigada a confiar aos intelectuais acadêmicos – a um alto custo moral e econômico – a missão de “reeducá-los” através do Estado, como se fossem criancinhas de colo e não marmanjos transgressores.
 
Sowell imputa aos intelectuais a responsabilidade pelos grandes males da vida contemporânea no Ocidente e salienta que, mesmo tendo surgido pelo menos desde o Iluminismo, é no mundo de hoje que os intelectuais passaram a desfrutar de uma influência social sem precedentes na história. Sowell deixa claro que o intelectual a que se refere – geralmente acadêmico de ciências humanas – se caracteriza por produzir e divulgar ideias, ao contrário de um Jonas Salk ou de um Bill Gates, que mesmo necessitando de muito poder mental para criar uma vacina ou um sistema operacional, não são necessariamente intelectuais. “O trabalho intelectual começa e termina com ideias sem levar em conta a influência que essas ideias possam ou não exercer sobre a vida concreta – nas mãos de terceiros”, afirma Sowell, citando como exemplos de intelectuais o filósofo liberal Adam Smith, “que nunca administrou um negócio”, e o filósofo socialista Karl Marx, “que nunca administrou um Gulag.”
 
Na prática, observa Sowell, o intelectual se concentra na área das humanidades, como filósofos, sociólogos, pedagogos, críticos, entre outros, e sua produção não é aferida por um critério externo de avaliação, mas pela análise de outros intelectuais. É, sobretudo, por produzir e difundir ideias que o intelectual praticamente não sofre cobranças da sociedade, ao contrário do médico ou do engenheiro, por exemplo, que podem fracassar profissionalmente ou até responder judicialmente pelo erro grave na realização de uma cirurgia, que resulta em morte, ou na construção de uma ponte, que venha a desabar. “Ideias que se encontram blindadas no mundo externo em relação à sua origem ou validação podem, no entanto, exercer grande impacto no mundo no qual os seres humanos vivem”, observa Sowell, citando as ideias de Lênin, Hitler e Mao. E sustenta que “o impacto das ideias sobre o mundo real é bastante evidente”, mais até do que o impacto dos grandes eventos sobre as ideias.
 
O desprezo da esquerda pelo ser humano
 
Sowell afirma: “Embora os intelectuais acadêmicos não sejam, em nosso tempo, os únicos, eles se constituem, contudo, no suprassumo da vida intelectual, cujas carreiras menos dependem das exigências do mundo real e de qualquer prestação de contas pelas consequências do que dizem e do que fazem. São pessoas amparadas na vitaliciedade dos seus cargos e que têm enorme poder para controlar as instituições em que trabalham, além do poder para interferir em assuntos que ultrapassam suas especialidades”. E se isso vale para os Estados Unidos, vale mais ainda para o Brasil, essa “Re­pública de Bacharéis”, em que o título acadêmico tem muito mais importância do que o conhecimento real e garante ao intelectual universitário, até por força de lei, a operacionalização da maioria das políticas públicas implantadas pelo Estado em áreas vitais como educação, saúde, segurança pública e meio ambiente.
 
Mas nada pode ser tão danoso quanto o desprezo que o intelectual universitário devota aos seres humanos concretos em nome de uma humanidade abstrata e de um “outro mundo possível”, transformando a vida presente num inferno em nome de um paraíso futuro. “Uma das coisas que os intelectuais fazem há muito tempo é afrouxar os laços que sustentam uma sociedade”, afirma Sowell. “Muitos intelectuais erodem e destroem um sentido de valores e realizações compartilhadas que torna uma nação possível ou um senso de coesão nacional com o qual se possa resistir aos seus inimigos externos e internos”, acrescenta. “Condenar os inimigos do país seria, para os intelectuais, equiparar-se às massas, mas ao condenarem sua própria sociedade, os intelectuais ungidos tornam-se, no entanto, no sentido mental e moral, especiais – ao menos diante de seus pares”, exemplifica.
 
É o que ocorre, hoje, no Brasil com a questão da maioridade penal. Mais de 90% dos brasileiros – que sentem na carne a violência selvagem dos menores criminosos – clamam pela redução da maioridade penal, mas uma minoria de intelectuais encastelada nas cátedras, na magistratura, no Minis­tério Público, nas comissões da OAB e nos órgãos do Executivo despreza completamente esse justo, legítimo e humano anseio da maioria esmagadora da nação e, fazendo valer a enorme força de seu prestígio junto ao Congresso, à imprensa e ao próprio governo, impede que a Constituição seja mudada para que os menores respondam pelos seus crimes ao menos a partir dos 16 anos. Aliás, fizeram justamente o contrário – através da Emenda Constitucional nº 65, de 2010, regulamentada pelo famigerado “Estatuto da Juventude”, transformaram os jovens de até 29 anos em crianças detentoras de todos os direitos em face da família, do Estado e da sociedade, sem a contrapartida de nenhum dever.
 
Estabelecendo padrões sociais inalcançáveis
 
“Sob a influência da ‘intelligentsia’ tornamo-nos uma sociedade que recompensa e admira as pessoas por violarem as próprias normas sociais consagradas, fragmentando a sociedade em fragmentos discordantes. Somando-se a isso, os membros da ‘intelligentsia’ desqualificam explícita e sistematicamente a sociedade em que vivem, denegrindo sua história e atacando sem piedade suas deficiências momentâneas”, afirma Sowell. E alerta: “Em geral, os intelectuais estabelecem padrões para suas sociedades os quais nenhuma sociedade composta por seres humanos jamais alcançou ou provavelmente jamais alcançará. Chamar esses padrões de ‘justiça social’ permite que os intelectuais se dediquem à promoção de reclamações intermináveis, denunciando os modos particulares pelos quais a sociedade fracassa em alcançar os critérios arbitrários estabelecidos por eles”.
 
Vale a pena transcrever na íntegra este trecho do livro de Sowell, que parece estar descrevendo este malfadado Brasil: “Imperfeições ou ineficiências raramente destroem uma nação. Mas a desintegração de seus laços sociais e a desmoralização da confiança e da aliança de seu povo podem, no entanto, ocasionar sua destruição. Os intelectuais contribuem, em grande parte, para ambos os processos. Ao colocarem grupo contra grupo e ao verem arbitrariamente inumeráveis situações sob o prisma de ‘raça, classe e gênero’, estabelecendo padrões inalcançáveis de ‘justiça social’ e impondo objetivos de reparação histórica, os intelectuais garantem a criação de uma situação interminável de conflito interno, prefigurando o desmantelamento de qualquer sociedade”.
 
Vemos isso todo dia no Brasil: senhores do Estado e das leis, os intelectuais universitários nos obrigam a conviver no trabalho, na escola e nas ruas com toda sorte de homicidas, latrocidas, estupradores, drogados e doentes mentais, impondo ao cidadão de bem um martírio compulsório. E se o homicida continua matando; o estuprador, estuprando; e o viciado, drogando-se, os intelectuais lavam as mãos e deixam a sociedade se banhar em sangue, sob a acusação de que ela não foi capaz de acolher e regenerar esses mensageiros de “um outro mundo possível” – ainda que ao preço de transformar em tragédia este mundo real.
 
 
Artigo publicado originalmente pelo Jornal Opção
 



 
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COMENTÁRIOS
01/10/2014
(Conservatore)

Acabei de me graduar em Ciências Sociais. Quero trilhar um caminho parecido com o do autor do artigo. Ser mais um sociólogo "reaça",kkkkkkk
 
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