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O Ocidente carece de um plano
11/09/2014 - Daniel Pipes
Estados como o Iraque e a Síria se desintegram, os cristãos e o Estado de Israel são atacados, a Turquia apoia os terroristas do ISIS. O historiador Daniel Pipes aborda o desafio do Oriente Médio.

Como podemos explicar o aparecimento súbito de ISIS ( (Nota Redação: em inglês, Islamic State in Iraq and SyriaISIS, ou simplesmente E.I. Estado Islâmico na imprensa brasileira ) no Iraque e de suas vitórias aparentemente fáceis?

 

Muitos fatores ajudam a explicar esse desenvolvimento chocante: a repressão promovida pelos governos sírio e iraquiano contra suas populações sunitas; a brilhante liderança do ISIS (E.I.); o apoio turco e do Qatar; e a ilegitimidade de um estado criado pelos Estados Unidos e seus aliados. Além desses detalhes, os árabes sunitas, árabes xiitas e curdos do Iraque se sentem todos com maior fidelidade a cada uma de suas próprias comunidades do que ao governo central, que tem se debatido em fracas alianças desde a sua criação, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial e agora, finalmente, é violentamente despedaçado. 

 

Não é surpreendente que grande parte da população sunita do Iraque escolha como sua voz a força jihadista mais extrema,especialmente tendo em conta o seu passado secular sob o regime Ba'ath? 

 

Sim, é surpreendente – e é uma das muitas surpresas recentes. Também é bastante previsível que a população sunita, uma vez que aprenda como é a vida sob ISIS (E.I.), irá rejeitá-la. Agora ela acha o islamismo atraente; espere até que ela experimente mais dele. O exemplo mais espetacular desta percepção foi o Egito nos anos 2012-13, mas também vimos esse fenômeno na Tunísia, Líbia, Sudão e Irã. 

 

Qual o papel que o governo turco tem neste conflito?

 

É o patrocinador principal do ISIS (E.I.). Sem o apoio turco, o ISIS (E.I.) não estaria onde está. O Qatar é importante, também, como uma importante fonte de apoio financeiro, mas a Turquia fornece mais do que isso: armas, refúgio, treinamento e assistência médica. Há ainda relatos de soldados turcos da reserva que servem no ISIS (E.I.). 

 

Mas por que o governo turco teria algum tipo de interesse em incentivar os problemas ao longo de sua própria fronteira?

 

Erdoğan tinha relações pessoais tão estreitas com Bashar al-Assad que ele e sua esposa passavam férias com os Assad. Quando os problemas começaram no início de 2011, Erdoğan deu a Assad (bons) conselhos sobre como reagir. Mas Assad rejeitou as opiniões de Erdoğan, e Erdoğan, que tem uma personalidade volátil, reagiu com muita raiva. Desde então, Erdoğan tem feito de tudo para derrubar o regime de Assad, incluindo apoiar o ISIS (E.I.). 

 

(Os melhores amigos: Em 2009, os Erdoğans e os Assad juntos, de férias na Turquia.)

Então tudo se resume à vaidade de um só homem?

 

Em grande parte, sim. Erdoğan domina a política turca. Ele faz tudo que deseja, especialmente desde as eleições de 2011. 

 

Você acha que o presidente Obama – ou, em relação a esta questão, qualquer outra pessoa que detenha o poder – tem um plano para deter as forças jihadistas no Iraque e na Síria? 

 

Não vejo nenhum plano. Os governos ocidentais estão enviando armas, esperando que estas cheguem para os melhores – ou menos piores – elementos na Síria, mas isto dificilmente constitui um plano. 

 

Algumas pessoas recomendam armar os curdos, o poder mais secular e moderado na Síria. É essa opção que está sendo considerada em Washington?

 

Sim, é uma boa ideia e já existe há alguns anos. Mas nunca foi política oficial americana e exigiria uma grande mudança. 

 

A Europa, o sul e centro da Ásia e a África tiveram fronteiras alteradas e novos Estados surgiram durante os últimos 25 anos. Os EUA e os políticos europeus deveriam reconhecer que o mapa do Oriente Médio também pode ser reformulado?

 

O Oriente Médio já está sendo reformulado. Não há Síria, não há o Iraque e não há praticamente nenhuma fronteira entre o Líbano e Irã. Regiões autônomas curdas existem tanto no norte do Iraque quanto no nordeste da Síria. A política ocidental de fato deve se adaptar às novas realidades na região. 

 

Por que é tão difícil reconhecer a realidade?

 

Os governos normalmente agem de forma conservadora e preferem a estabilidade a mudanças de qualquer tipo. Foi a mesma coisa com a União Soviética; George H.W. Bush fez um famoso discurso em Kiev em 1991, instando os ucranianos a não deixar a União Soviética. Manter as coisas estáveis é uma resposta natural. 

 

Mas, no caso da Iugoslávia, Alemanha e a União Europeia até incentivaram a secessão da Eslovênia e da Croácia em 1991. Em 1999 a OTAN foi à guerra por um Kosovo independente. 

 

Sim, mas essas são as exceções, devido em parte ao fato de que essa instabilidade ocorreu na Europa. Síria e Iraque também poderiam tornar-se exceções, mas não há razão para esperar esta mudança. 

 

Qual é a probabilidade de que os curdos no Iraque – e talvez na Síria – venham a ganhar algum tipo de soberania? 

 

É provável. Os curdos são praticamente independentes no Iraque e ganham destaque na Síria, com os (curdos) da Turquia vindo a seguir. Um dia, até mesmo os curdos do Irã podem tornar-se independentes.

 

O surgimento do Curdistão tem profundas implicações regionais. Esta é a primeira grande mudança das fronteiras do Oriente Médio desde o fim da Primeira Guerra Mundial. O Oriente Médio esteve em grande parte adormecido até 1914, seguindo-se uma década de mudanças extraordinárias que, sob muitas formas, ainda funcionam no Oriente Médio: o acordo Sykes-Picot, a Declaração de Balfour, o Acordo de San Remo e a criação de quase todos os seus estados modernos. Tudo isto são negócios inacabados de quase um século atrás que agora estão finalmente sendo tratados.

 

(Sir Mark Sykes (esquerda) e François Georges-Picot elaboraram um acordo em 1916 que lançou as bases para as fronteiras do Oriente Médio.)

 

Quando a questão de um Estado curdo foi levantada no passado, ela era geralmente descartada pelo motivo de que a Turquia nunca permitiria isso. Agora a Turquia está se aproximando dos curdos no Iraque. Há algumas semanas, pela primeira vez o petróleo curdo foi transferido através de um oleoduto turco para o Mediterrâneo. Por que essa mudança de política? 

 

Ancara tem de fato experimentado uma mudança fundamental em seus pontos de vista. Sua orientação política tinha sido desencorajar qualquer sinal de nacionalismo curdo, em qualquer lugar, temendo que isso ecoasse na Turquia e tivesse o potencial perigoso de dissolver o Estado turco como nós o conhecemos. Esta perspectiva mudou recentemente por várias razões: as tensões entre Ancara e Bagdá; os esforços do Partido AK turco para ganhar o apoio eleitoral curdo; e a compreensão turca das vantagens das organizações políticas curdas autônomas amigáveis ​​e submissas no Iraque e na Síria. 

 

A Arábia Saudita acaba de posicionar 30.000 soldados em sua fronteira com o Iraque. Existe um risco de transbordamento (da ameaça islâmica)?

 

Sim. Embora a legitimidade do reino saudita repouse sobre o Alcorão e uma compreensão particularmente severa do Islã, oISIS (E.I.) rejeita a monarquia saudita como insuficientemente islâmica. Portanto, o ISIS (E.I.) representa uma ameaça à legitimidade da Arábia Saudita, ao seu controle dos locais sagrados islâmicos, aos seus recursos de petróleo – na verdade, a tudo que for saudita. Eu iria mais longe: Medina e Meca representam os objetivos finais do ISIS (E.I.) de forma tão ardente quanto é sua ânsia por controlar a Síria e o Iraque.

 

A reprimida comunidade xiita na Arábia Saudita poderia tentar explorar essa situação para criar mais problemas ao rei saudita?

 

Isso me surpreenderia. Independentemente de quão infeliz é a situação dos xiitas na Arábia Saudita, a perspectiva de um governo do ISIS (E.I.) é muito pior. Eu não acho que este é o momento para eles se rebelarem contra a monarquia saudita. 

 

Na Turquia, o primeiro-ministro Erdoğan caminha para a presidência. Em teoria, o Presidente detém menos poder do que o primeiro-ministro. Isso significa que ele vai se tornar menos poderoso? 

 

Ficou claro que, se Erdoğan se tornar presidente, ele não vai se contentar com os poderes tradicionalmente limitados desse cargo. Além disso, podemos supor que ele vai exercer o controle sobre o seu sucessor como primeiro-ministro. Essa mudança de posições não termina a autocracia de Erdoğan, mas na verdade vai estendê-la para uma nova forma. A analogia Putin-Medvedev é útil; assim como Putin dominou a Rússia, independentemente de sua posição específica, ocorrerá o mesmo com Erdoğan na Turquia. 

 

Fala-se de um racha ou mesmo uma "guerra" entre Erdoğan e o movimento islâmico Gülen. [1] 

 

Sim, uma guerra política está em andamento. Os dois cooperaram estreitamente por cerca de 12 anos, complementando-se mutuamente. Erdoğan e o AK focaram na política, enquanto Gülen tratava da cultura, da educação, dos meios de comunicação,dos serviços de segurança e da polícia. Isso funcionou bem até 2010, quando ficaram menos preocupados com a possibilidade de um golpe militar. Naquela época, as primeiras diferenças entre eles tornaram-se publicamente evidentes. Desde então os dois lados transformaram-se em sérios inimigos. Eles concordam na maioria das questões, mas são rivais pelo poder. Erdoğan encontra-se principalmente sob o ataque não de secularistas, dos militares, dos liberais ou dos curdos, mas de seu antigo parceiro, Gülen. Eles podem muito bem continuar seu conflito até um deles ser destruído. 

 

Mas olhando para outros países do Oriente Médio ou da Ásia, descobrimos que grupos cujos líderes estão no exílio raramente se tornam uma ameaça para o regime (com a exceção de Khomeini). Como pode o movimento Gülen ser tão poderoso, uma vez que Gülen reside na Pensilvânia? 

 

Gülen fez sua carreira na Turquia até fugir para os Estados Unidos em 1998, mas ele mantém muitos seguidores lá, talvez fortes cinco milhões. Mais do que isso, seu movimento Hizmet tem grande influência nos serviços de segurança e na polícia. Não há nenhuma organização comparável em qualquer lugar; ele é único. 

 

A suposta rodada final de negociações nucleares entre o Irã e o P5 + 1 [2] está em andamento. Como você resumiria o que foi alcançado até agora?

 

Os iranianos têm sido bem sucedidos em convencer o P5 + 1 em aceitar suas exigências mais importantes. E agora eles estão fazendo demandas ainda maiores, incluindo 190.000 centrífugas. Eles exigiram tanto que até mesmo o acomodado P5 + 1 está relutante em aderir às exigências iranianas. Não está exatamente claro o que guia essas demandas. Eles podem muito bem ter concluído que o Ocidente é tão fraco que vai aceitar até mesmo essa condição extrema. 

 

As outrora vibrantes comunidades cristãs no Iraque e na Síria estão enfrentando a extinção. Houve uma discussão em Washington sobre o que pode ser feito sobre isso? 

 

O público americano e seus representantes no Congresso estão extremamente preocupados com isso; a administração Obama muito menos. Um presidente republicano lidaria muito mais agressivamente com este problema. 

 

O Hamas iniciou uma nova guerra de terror contra Israel. Por que agora? 

 

A guerra ganha apoio em Gaza. O Hamas quer criar problemas para Mahmoud Abbas e a Autoridade Palestina. Ele deseja criar tensões em Israel, em um esforço especial para inspirar os árabes israelenses a se levantar. (Lembre-se de que a atual onda de violência começou com os sequestros de três adolescentes israelenses e apenas um dia depois Hamas começou a lançar a sua atual rodada de mísseis sobre Israel.) O Hamas também pode querer receber mais dinheiro do Irã para recrutar mais homens-bomba.

 

(Imagens de supostos bebês mortos são mais poderosos do que os foguetes do Hamas ou túneis.)

 

Devemos notar que esta não é uma guerra historicamente normal. Tradicionalmente, a chave foi a vitória militar, mas não é o caso aqui. É óbvio que Israel vai ganhar no campo de batalha. Portanto, essa não é a questão principal, que em vez disso é política: será que Israel está usando os meios corretos? Será que deve usar a força proporcional? Será que se comportam adequadamente sob o direito internacional? Eles seguem as regras da guerra? O foco não é mais em ganhar ou perder, mas na percepção de como a luta ocorre. É aqui onde o Hamas espera ganhar: provocar os israelenses para matar mulheres e crianças inocentes, transeuntes e civis, de modo que as críticas a Israel cresçam: resoluções das Nações Unidas, sanções da União Europeia, as manifestações nas ruas ocidentais, e assim por diante. É tudo uma questão de ganhar a política – ou, se quiserem, a guerra de relações públicas. 

 

Como Israel pode ganhar a guerra para a segurança de seus cidadãos e certificar-se de que o Hamas e a Jihad Islâmica não podem mais disparar nenhum foguete? Esse cenário tranquilo é até mesmo concebível? 

 

Sim, é – se Israel retomar o controle completo de Gaza e retornar ao status quo de antes do acordo de Gaza-Jericó de 1994. As Forças de Defesa de Israel podem conseguir isso, mas a liderança política de Israel não deseja isso. Ela prefere controlar menos Gaza, e não mais. Ela não quer ocupar, sendo ainda mais envolvida, e responsabilizar-se pela segurança e alimentação de uma população hostil. Assim, voltar a Gaza é a última coisa que os israelenses estão ansiosos para fazer.

 

Qual é a solução para a guerra que o Hamas iniciou?

 

Minha solução preferida é o governo egípcio retomar a responsabilidade sobre Gaza, como foi o caso de 1949 a 1967. A segunda melhor opção seria o Egito selar hermeticamente as fronteiras de Gaza, prevenindo que qualquer armamento chegasse ao Hamas.

 

(Entrevista realizada em 21 de Julho de 2014 pelo site Factum, da Suíça).

 

 

Tradução: Maria Júlia Ferraz

 

Também disponível no site do autor

 

 

[1] Nota da tradutora: O entrevistador faz referência ao movimento liderado por Fethullah Gülen, intelectual e pregador turco, com forte influência não apenas na Turquia mas também em países da Ásia Central e Cáucaso. A organização, conhecida como Hizmet, poderia auxiliar na retomada de um tipo de movimento panturaniano, destinado a colocar os povos turcos da região sobre influencia de Ancara.

 

[2] NT: P 5 + 1 refere-se aos países membros do conselho de segurança da ONU - China, EUA, França, Inglaterra e Rússia - mais a Alemanha, que se uniram para tentar encontrar uma solução negociada com o Irã em relação ao programa nuclear do país.

 

 

Nota Redação MÍDIA@MAIS: para mais informações sobre os assuntos relacionados a entrevista de Daniel Pipes recomendamos a leitura dos artigos da Editoria Oriente Médio.

 



 
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COMENTÁRIOS
17/10/2015
(Pimenta)

Muito legal :)
 
11/09/2014
(Maria)

UAU! Vcs arrasaram!

***

Prezada Maria: obrigado pelo seu gentil contato, mas o M@M apenas publicou a entrevista do dr. Pipes. O mérito todo vai para o site suíço que fez a entrevista e tocou em aspectos de suma importância relativos ao Oriente Médio - como, por exemplo, a questão do Curdistão.

Convidamos a amiga a continuar nos prestigiando com sua visitação.

Grande abraço.

Paulo Diniz Zamboni - Editoria MÍDIA@MAIS

 
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