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A cidade que foi para o inferno
- Redacao Midia@Mais
Assim é como a cidade mais perigosa do mundo é conhecida e assim ela se sente. Uma metade de Ciudad Juárez – que fica no México, na outra margem do Rio Grande, em frente a El Paso, Texas, – parece uma cidade fantasma; a outra lembra uma zona de guerra que ficou tranquila por alguns instante para que os carros pudessem sair.

Assim é como a cidade mais perigosa do mundo é conhecida e assim ela se sente. Uma metade de Ciudad Juárez – que fica no México, na outra margem do Rio Grande, em frente a El Paso, Texas, – parece uma cidade fantasma; a outra lembra uma zona de guerra que ficou tranquila por alguns instante para que os carros pudessem sair.

Muitas fábricas estão em silêncio; centros comerciais estão tão mortos quanto os campos de algodão a leste da cidade; bares e restaurantes estão meio vazios e até a fachada do necrotério está cravejada de balas. Milhares de carros caindo aos pedaços parecem estar apenas se movendo, com os motoristas sem nenhum destino fixo em mente.
 
Os vendedores ambulantes, na pequena praça onde está localizada a catedral, praticamente só fazem falar uns com os outros, e os soldados que circulam com os dedos no gatilho parecem mais tensos do que os civis.

Na manhã em que cheguei a Juárez, uma mulher foi encontrada enterrada em seu próprio quintal a umas poucas quadras de onde me hospedei; dois corpos também foram identificados em Anapra, uma favela próxima. Quando saí para jantar, fui informado que quatro pessoas tinham sido baleadas um pouco antes do lado de fora do mesmo restaurante.
 
Outro tiroteio tinha deixado duas vítimas no Paseo Triunfo de la Republica, uma rua importante. Alguém mencionou que uma criança fora encontrada enforcada em uma ponte no começo da semana, só um corpo a mais na estatística: 2.300 pessoas mortas este ano. Não surpreende que um quarto da população tenha fugido.
 
É difícil imaginar Juárez como a potência que já foi. Começando no final dos anos 1980, centenas de montadoras se estabeleceram com capital norte-americano, suíço e japonês. Uma oferta abundante de mão-de-obra qualificada, treinada em parte por escolas tecnológicas locais, levaram Delphi, Valeo, Visteon e Lear a estabelecerem aqui as suas principais unidades de produção.
 
A vida noturna animada de Juárez atraía multidões de texanos nos fins de semana. É ainda mais difícil imaginar esse canto do Estado de Chihuahua como o famoso local onde Benito Juárez estabeleceu, em um breve período, a capital do país no século 19 e onde a Revolução Mexicana selou sua vitória.
 
Poucas cenas são mais eloquentes sobre a degradação da vida aqui do que a visão dos imigrantes expulsos dos Estados Unidos caminhando pela Ponte Santa Fé todas as tardes. Logo que eles chegam, dezenas de pessoas, incluindo sujeitos com pinta de assaltante e garotas atraentes, cercam-nos  e tentam forçá-los a que os acompanhem para casas de câmbio próximas, onde muitas vezes são sequestrados ou enganados ao comprar pesos com taxas inflacionadas.
 
Acompanhei um grupo deles até uma casa de abrigo, administrada por um frade católico, onde passariam a noite. Escutei um deles dizer: "Isso nunca aconteceria nos Estados Unidos". Seu ar de resignação fazia parecer como se dissesse que isso nunca aconteceria em sua casa – uma cruel ironia na boca de um deportado.
 
Ninguém sabe exatamente por que razão Juárez foi para o inferno. Muitos culpam a guerra do governo mexicano contra alguns cartéis de droga. Eles alegam que a decisão de mirar uns poucos grupos específicos, particularmente La Familia, em Michoacán, criou um rearranjo imprevisto de alianças e levou para a superfície, violentamente, um mundo de crime que até então estava em grande parte restrito. A guerra entre os cartéis Sinaloa e Juárez, dois ex-aliados, e entre eles e as autoridades mexicanas, dividiu a cidade.

As consequências vão bem além de Juárez. Mais de 10 mil pessoas foram assassinadas no México, a maioria no norte. Eu dirigi cerca de 700 quilômetros ao largo da fronteira até chegar a Altar, no meio do Deserto de Sonora, e comprovei a pressão sangrenta que La Familia está impondo atualmente no cartel de Beltrán-Leyva.
 
A opinião geral em Juárez é que o governo não estava preparado para os resultados de suas políticas, e que a incapacidade de prever os efeitos subsequentes no equilíbrio de forças entre as várias máfias regionais transformou, involuntariamente, o que poderia ser um símbolo de uma vibrante cidade fronteiriça transcultural numa Bagdá sem o Exército dos EUA.
 
"A cidade está morrendo", diz o representante local da Câmara Nacional de Comércio. Na verdade, há quem prefira que Juárez pudesse morrer e depois nascer novamente. Ao contrário das pessoas, as cidades conseguem resistir a praticamente tudo, pelo tempo que for necessário. Alguns chamam isso de elasticidade. Mas uma geração inteira de mexicanos que não fizeram nada de errado prefeririam um pouco menos de elasticidade e um pouco mais de vida.

Publicado pelo Diário do Comércio em 29/12/2009

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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