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Mitologias norte-coreanas
22/05/2013 - Victor Davis Hanson
Muito do que tem sido escrito sobre a crise envolvendo a Coréia do Norte é fantasioso e ignora os exemplos históricos contidos em eventos similares.

Muito do que se tem escrito sobre a crise da Coreia do Norte me parece um pouco mais que fantasia. Vamos examinar as mitologias.

 

1) A China é uma parceira responsável em controlar a Coreia do Norte e obviamente não deseja a guerra.

 

Pode muito bem ser verdade que o aparato comunista chinês deseje evitar uma guerra, ou até as tensões crescentes de um ambiente belicoso que em teoria poderia comprimir lucros e colocar em risco o lucrativo comércio chinês. Mas há pouquíssimas evidências históricas para a noção racionalista de que relações mutuamente lucrativas frustrem guerras suicidas.

 

Celebridades no meio diplomático alegaram em 1913 que o comércio interconectado, as ferrovias e o turismo europeus eram tais que nenhum nacionalista alemão seria tolo ao ponto de colocar em risco um sistema mutuamente lucrativo, invadindo a França e a Bélgica. Seguiram-se o Somme e Verdun. No início de 1941, Hitler foi avisado por alguns de seus planejadores que a nova de facto aliada alemã, a União Soviética, estava enviando a Berlim (frequentemente em crédito e ainda mais com transporte grátis) quase todos os recursos exigidos pelo Terceiro Reich. Isto não importou; Hitler a invadiu em junho de 1941 e Stalingrado aconteceu. A Alemanha nazista nunca foi capaz de saquear a mesma quantidade de riquezas russas por meio da invasão e ocupação que no passado simplesmente comprou por crédito.

 

Com certeza a China está entretida pelas últimas atuações teatrais da Coreia do Norte. As ações temerárias de Kim Jong-un causam infinitas apreensões ao inimigo existencial chinês, o Japão. Estas ações lembram à Coreia do Sul de que a península nunca será unida por um governo capitalista pró-ocidental do sul. E revela os Estados Unidos como uma espécie de impotente e neurótico bisbilhoteiro, que eventualmente oferece concessões e paga propinas em proporções diretas a suas diversas declarações de que não faz mais justamente isto.

 

E se todas essas ameaças insanas norte-coreanas fossem críveis?

 

Nós dispensamos tal pesadelo, mas no outono de 1950, Mao deixou repetidamente claro que se as forças dos Estados Unidos se aproximassem do rio Yalu ele interviria com tropas terrestres em quantidades massivas. Que tola ameaça, nos assegurou o General Douglas McCarthur ao prometer às famílias americanas que seus garotos estariam em casa para o jantar de natal. Afinal de contas, a China não era nuclear; não tinha uma força aérea independente; ainda possuía tumultos revolucionários; o seu peão, a Coreia do Norte, estava praticamente aniquilada após Inchon; uma América, imprevisível, havia recentemente detonado duas bombas atômicas; e as indevidamente supridas tropas de recrutas chineses seriam massacradas pelo decisivo poder aéreo e de artilharia americano.

 

No entanto, Mao interveio, abastecido com armamentos soberbos russos, milhares de conselheiros russos (combatentes) e protegidos pelo guarda-chuva nuclear russo. Stalin, da mesma forma que o atual aborrecimento chinês com Kim Jong-un, “desaprovava” os riscos tomados por Mao, mas ulteriormente considerou a guerra uma desvantagem menor do que a vantagem resultante da dor infringida em seu rival, os Estados Unidos. Considerando a lógica norte-coreana, esta pode muito bem ser preventiva em natureza – da mesma maneira como Esparta “temia” Atenas e acreditava que as coisas seriam ainda mais unilaterais e desvantajosas no futuro.

 

Se as sanções continuarem e o “Danegeld” [1] for realmente cortado, então a Coreia do Norte pode entender que agora é um momento tão bom quanto qualquer outro para começar algo que possa terminar sem sua própria aniquilação – e resultar em uma situação que não seja pior que seu atual e vagaroso estrangulamento. A muito divulgada juventude e inexperiência de Kim Jong-un, a tardia asserção da intestada presidente sul-coreana Park Geun-hye e a percepção de um presidente americano, de um secretário de defesa e de um secretário de estado frágeis, são todos fatores multiplicadores de força que aumentam a possibilidade de um conflito.

 

Se chegasse ao ponto de uma guerra a China provavelmente iria perceber que os rivais Japão e Coreia do Sul, seriam prejudicados material ou economicamente; a Coreia do Norte provavelmente sobreviveria; Taiwan seria admoestada; os Estados Unidos enfrentariam custos imensos de todos os tipos; uma Europa horrorizada iria observar, passando sermões; e uma China incólume iria preencher o vácuo econômico, político e de segurança resultante na região. Raciocínio insano? Talvez – mas não necessariamente improvável.

 

2) Nossos aliados regionais estão na mesma página

 

É difícil saber se a Coreia do Sul odeia mais o Japão do que teme seu vizinho lunático ao norte. As sociedades ocidentais afluentes e repletas de lazer geralmente exibem culpa, romance ou uma ingenuidade simplista perante nações atrasadas que as odeiam. Tal animosidade vinda de estrangeiros não faz sentido para os racionais do ocidente, que sempre olham para si mesmos em busca de maneiras de persuadir os monstros no exterior de suas boas intenções – mesmo que estes em contraste não deem valor ou até se ressintam da familiaridade com as potências ocidentais. É mais provável que as elites ignorantes nos campi vistam camisetas do Che do que da Margaret Thatcher, mesmo que Cuba tenha tido mísseis nucleares apontados aos Estados Unidos enquanto que a Grã-Bretanha de Thatcher tenha ajudado a vencer a Guerra Fria e a enfraquecer a ameaça de um ataque Soviético aos Estados Unidos. Barack Obama encontrou centenas de maneiras para ofender nossos aliados israelenses e britânicos de um jeito que ele nunca faria com uma Turquia crescentemente islamista.

 

Tivesse o governo sul-coreano liderado sua cultura popular contra o norte, encerrado a prática baixa e fácil de provocar o Japão, controlado seus periódicos ímpetos de antiamericanismos e simplesmente focado em investimentos estratégicos e defensivos direcionados a deter o norte, proporcionais à sua atual enorme economia, hoje, este governo estaria muito mais seguro. Em vez disso, vimos sua política corrupta conhecida por Sunshine Policy [2], com diversos empreendimentos direcionados ao lucro, dependentes da mão de obra barata norte-coreana, e o pagamento periódico de propinas que apenas serviram para encorajar o norte. A alegação de que a próxima guerra na Coreia aconteceria em solo coreano e seria lutada por coreanos auxiliados por estrangeiros é verdadeira; mas nesta época de apaziguamento este fato não é um bom argumento para alistar aliados para ajudar (por exemplo, um americano do pós-Vietnã e pós-Iraque tem muita probabilidade de responder “Eu concordo: então, nós não queremos lutar a guerra dos outros em seu solo, como fizemos em 1950, dado que a resposta mais humana é deixar que os lados interessados encontrem suas próprias soluções diplomáticas”). Não obstante o que pensem de Obama, não é sábio blefar com ele com ameaças quanto à ambiguidades em relação a assistência militar americana: ele ficaria muito feliz em conceder este favor, como os desafortunados iraquianos aprenderam em 2009, quando nós simplesmente deixamos o país de uma vez por todas.

 

É muito estranho que as elites sul-coreanas constantemente ressintam-se do Japão, cuja marinha muito capaz irá ajuda-los in extremis, e os Estados Unidos, cujas forças terrestres, marítimas e aéreas são essenciais para a existência da Coreia do Sul. Talvez os iludidos nacionalistas no sul sonhem que a Sunshine Policy irá insidiosamente tanto elevar quanto moderar o norte, ao ponto que, em algumas décadas irá, por osmose, anexar-se à Coreia do Sul – e ter como resultado o surgimento de uma potência na península coreana, com uma população e economia proporcional à do Japão. Algo deve ser capaz de explicar a atitude passiva-agressiva do sul quanto a seu inimigo, a Coreia do Norte, e o Japão e os Estados Unidos, sua única esperança de salvação externa.

 

3) Os Estados Unidos têm influência na região

 

A América deveria ter influência – dado que o exército dos Estados Unidos é formidável para além da imaginação, uma economia americana enfraquecida ainda é de longe a mais produtiva do mundo e a América salvou a Coreia do Sul no passado ao cobrar um custo assustador dos militares chineses e norte-coreanos na península. Mas, justo ou não depois dos últimos quatro anos, maus atores ao redor do mundo perceberam um padrão previsível na política externa americana. Atingidos pelo Afeganistão e o Iraque e presos pela retórica multicultural da ONU, nós falamos alto demais para o tamanho do pedaço de pau que carregamos. O Irã aprendeu que quanto mais os Estados Unidos anunciavam prazos finais para cessar a proliferação nuclear, menos eles precisavam preocupar-se quanto às consequências (tanto é que o presidente Obama esqueceu-se de dizer uma única palavra de encorajamento aos milhões de iranianos que partiram para as ruas na primavera de 2009).

 

Quantas vezes os Estados Unidos admoestaram Bashar Assad para que renunciasse? O comentário irônico de Obama para Medvedev, fora dos microfones, prometendo ao sr. Putin de que ele seria mais flexível após as eleições, foi uma lembrança ao mundo de que no segundo mandato Obama não temeria mais a suposta ala conservadora de neandertais em seu meio e, portanto, poderia conduzir o tipo de política externa que ele apenas sonhara em seu primeiro mandato. “Liderando por trás”, como nossos aliados aprenderam na Líbia e a França percebeu na África do Norte, tem pouco a ver com liderar. A Coreia do Norte pode temer os Estados Unidos até o ponto em que os líbios que massacraram diplomatas americanos temem o dia da retribuição, como os argentinos temem a reprovação americana caso eles recomecem a guerra das ilhas Falklands, como o Hezbollah e o Hamas temem a reação americana casos eles revivam um conflito como no Líbano em 2006.

 

No entanto, a verdade é que os Estados Unidos poderiam ter uma enorme influência de uma maneira que não foi mencionada. Na era pós-Guerra Fria, existiu um entendimento superficial com o mundo comunista, particularmente com a China vermelha, em relação às duas Coreias. Nós nos asseguraríamos que nossos aliados no Pacífico não se tornariam nucleares – Austrália, Japão, Coreia do Sul e Taiwan – e por sua vez a China colocaria rédeas na Coreia do Norte. Perceba também que nossos aliados poderiam fabricar milhares de armas nucleares como fazem com Hondas e Kias de uma forma que Pyongyang poderia fazer apenas algumas, e ainda por cima, deploravelmente. Além disso, uma Coreia do Norte nuclear está muito longe dos Estados Unidos e da Europa, enquanto que o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan estão bem próximos da China, que já possui, em suas fronteiras, estados temperamentais demais com capacidade nuclear, como Rússia, Índia, Paquistão e em breve Irã.

 

A influência que os Estados Unidos têm neste impasse psicodramático, interminável e de alto risco é de notificar a China de que nós não temos mais reservas quanto às potências regionais cuidarem de suas próprias necessidades de segurança, em resposta às provocações nucleares da Coreia do Norte. Perceba que os Estados Unidos não temem as armas nucleares per se – considere o caso das nucleares e democráticas Inglaterra, França, Índia e Israel – apenas a combinação delas com estados não liberais e renegados, algo que não seria verdade no caso do Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

 

4) Todos perderiam igualmente com uma nova Guerra da Coreia

 

Existem todos os tipos de cenários que causariam morte e destruição terríveis. São dependentes de um lançamento pela Coreia do Norte, de bunkers fortificados nas três ou quatro primeiras horas do conflito, de dezenas de milhares de mísseis e de salvas de artilharia, muitos destes talvez contendo armas químicas e biológicas, contra forças terrestres aliadas na zona desmilitarizada, no centro comercial em Seul e contra bens estratégicos americanos na costa. Isto é um pesadelo a ser evitado a todo custo, se possível.

 

Mas note que a Guerra da Coreia não foi a Guerra do Vietnã, da mesma forma que o Iraque de 1991 não foi o Iraque de 2003 a 2008. Os Estados Unidos não estariam lutando outra guerra de contrainsurgência, mas uma guerra inteiramente punitiva, usando amplamente forças aéreas e marítimas em céus abertos em vez de selvas e labirintos como em Fallujah, com um aliado em terra de aproximadamente 50 milhões de pessoas mais preocupadas em ter poucos, ao invés de muitos soldados americanos.

 

O verdadeiro cenário assustador não é o que a Coreia do Norte faria antes que seu arsenal fosse neutralizado, mas sim o horrível custo infringindo pelo inimaginável bombardeio americano de mísseis e artilharia, que seriam despejados no norte, e a vulnerabilidade das forças norte-coreanas terrestres ao poderio aéreo americano sem limitações. Combates terrestres seriam em sua maioria convencionais e em espaços abertos, principalmente de responsabilidade das forças armadas da Coreia do Sul. A destruição resultante se assemelharia ao resultado do Tsunami no Japão. Em termos strangelovianos, o norte perderia a guerra, e perderia decisivamente – um fato bem vindo por quase todos ao redor do mundo com exceção de mais ou menos 100.000 pessoas da nomenklatura norte-coreana.

 

Resumindo, não sabemos o que irá acontecer na Coreia. Mas não podemos assumir que a China está trabalhando pela paz, de que a guerra tem um custo alto demais para acontecer, de que a Coreia do Sul está bem integrada com seus aliados, de que as partes envolvidas escutam os Estados Unidos ou que uma guerra impensável e niilista não poderia ser vencida nem perdida.

 

A sabedoria convencional reincidente não confirma esses argumentos.

 

Publicado originalmente no PJ Media, no dia 20 de abril de 2013. Também disponível no site do autor.

 

Tradução: Roberto Ferraracio


[1] N.T. Danegeld é o termo utilizado para o costume que certas nações tinham de pagar tributos aos Vikings em troca de salvaguarda de futuras pilhagens.


[2] N.T. Termo usado para descrever a prática diplomática sul-coreana, entre os anos de 1998 e 2008, que envolvia, basicamente, assistência econômica, liberação por parte do governo sul-coreano para que o setor privado pudesse investir no norte e ajuda humanitária, Isto em troca de promessas de não agressão por parte do governo norte-coreano.

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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