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A Europa vindoura
- Guy Sorman
A União Européia, com uma social democracia moderada, poderá ser a chave para um futuro de sucesso para a Europa.

Jacques Chirac gostava de repetir que a Europa só progrediu de crise em crise. É certo que a situação presente é caótica, porque a União Europeia não possui instituições capazes de decidir em caso de urgência. A curto prazo, digamos três anos, consideramos que as contradições se intensifiquem entre ricos e pobres, federalistas e soberanistas, apoiadores da ampliação e da diminuição do euro e de seu abandono, do cada um por si e do todos por um. Mas, a longo prazo, diria em 20 anos, os imperativos históricos, as necessidades estratégicas, as exigências econômicas permitirão anunciar uma Europa unida em uma vasta Federação ampla porque as gerações futuras exigirão: quanto mais se é educado, mais se aproxima do federalismo.

Paradoxalmente, a União Europeia é vista de maneira mais positiva no exterior que pelos europeus. Existe ao redor de nós um forte anseio sobre a Europa. Vista do acampamento democrata americano, nossa social-democracia permanece toda como um modelo mais humanista que o ultracapitalismo. Depois da Ásia, a União Europeia parece ser uma solução modelo para conflitos seculares como aqueles da China contra o Japão e o Vietnã, e da Coreia do Sul contra o Japão. Se a Alemanha e a França conseguiram conciliar, entende-se que Seul ou Tóquio, os coreanos, os chineses e os japoneses deveriam fazer o mesmo. O desejo da Europa é mais vivo em nossas fronteiras: todos os antigos estados da Iugoslávia e Albânia se unem progressivamente ao Estado de direito, preparando sua adesão. Na Bielorússia, o programa comum da oposição é a entrada na União Europeia; na Ucrânia, governo e oposição estão de acordo com a colocação de sua candidatura. Na Moldávia e na Geórgia, a opinião pública considera que a Europa está em seu destino de se salvaguardar contra a Rússia, que poderia tornar-se europeia, mas não deseja, com exceção de alguns intelectuais “ocidentalizantes”. Em última análise, o desejo da Europa deve resultar em um aumento sobre a base da civilização, dos interesses econômicos e da segurança comum. Há ainda algumas incertezas. Grã-Bretanha? Em 10 anos se imagina mais fora da Europa que em seu interior. A Confederação Suíça? Os suíços perceberam que o seu esplêndido isolamento é ilusório e a eles é imposto um número crescente de decisões, sem a sua participação, pelo Parlamento Europeu? Aproveitar-se da União Europeia sem dela fazer parte nos próximos cinco a 10 anos pode se tornar arcar com seus custos, sem dela tirar benefícios.

Fica a desconhecida Turquia, cujo destino será determinado mais pela estratégia militar que pelas condições culturais ou econômicas. Se a Rússia ameaça e o mundo árabe se radicaliza, isso torna o interesse conjunto dos europeus com o dos turcos mais dentro da União Europeia que em seu exterior.

Essa União será próspera ou terá desemprego? Alguns sinais encorajadores devem conduzir à prosperidade, se ao menos as políticas econômicas forem racionais. Entre as razões para a esperança citamos a qualidade da mão-de-obra entre as mais produtivas do mundo; a inovação que a Europa registra a cada ano tanto quanto os Estados Unidos ou o Japão, muito à frente da China, da Índia, do Brasil e da Coreia do Sul: essas patentes de hoje prenunciam os produtos e serviços daqui a 10 anos. Outro aspecto positivo: a independência energética. Graças às técnicas de quebra de pedras e perfuração horizontal, a Europa entre 10 e 20 anos não terá mais necessidade de importar petróleo ou gás. Menores custos com a energia vão permitir uma reindustrialização, como a esboçada agora nos Estados Unidos.

Ela continuaria a construir instituições capazes de tomar decisões coerentes e aceitáveis por todos. É importante se colocar a democracia em primeiro lugar para que os europeus tenham o sentimento que Bruxelas não impõe, mas representa. Isso talvez possa ser conseguido através da criação de duas câmaras eleitas, um senado que conte – por exemplo – com quatro senadores por país-membro e um parlamento eleito diretamente, proporcional à população, pelo sistema de voto de lista europeia e não nacional. A União europeia exigiria um governo, senão um presidente: esse governo seria responsável pela defesa comum, pelas relações exteriores e pela convergência orçamentária. Cada Estado teria sempre um orçamento nacional, usado essencialmente para a solidariedade social e com a condição de que seja sempre votado em equilíbrio. Só o orçamento, alimentado pelos impostos europeus (por exemplo, uma fração crescente dos impostos nacionais revertidos para o orçamento), poderia estar em déficit na condição que fosse compatível com as taxas de juros no mercado mundial e da estabilidade do Euro.

O euro manteve-se sob controle, independentemente do Banco Europeu, o que prova, depois de 13 anos, que o mercado federal é melhor que aquele que não é. Dois grandes debates que agitaram essa Europa Federal poderiam ser resolvidos em termos racionais: a imigração e o Estado Providência.

O Federalismo escaparia do paradoxo atual que faz a felicidade dos partidos extremistas: se entra na Europa através da primeira porta aberta, mas a Europa não tem jurisdição sobre a imigração. Em uma Europa Federal, as assembleias poderiam definir cotas de imigração, acompanhados pela obrigação de um contrato, como é o modelo suíço. Ela continua a gerir, mas ao menos as bases seriam conhecidas e comuns.

O futuro do Estado de Bem-Estar Social, que condiciona essa economia europeia e a estabilidade social, não é simples, tampouco insolúvel. É claro que a Europa é de civilização social-democrata: ela nunca se tornaria neoliberal; nenhum país em outro lugar é. Está claro também que muito assistencialismo destrói o crescimento. Mas existem experiências suficientes, na Dinamarca e na Suécia particularmente, para demonstrar que o equilíbrio é possível entre economia de mercado e da solidariedade. Para que esse equilíbrio seja alcançado, precisamos de uma classe política europeia que, atualmente, não existe. Ninguém tem muito afeto à Europa porque as carreiras políticas são locais ou nacionais. Mas a criação de um verdadeiro Parlamento europeu, com funções de ministro europeu, farão nascer uma nova geração que debaterá em termos novos, menos passionais, mais racionais. A escolha de uma nova capital europeia deverá simbolizar essa nova união.

Eu proponho Gdansk, a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente, onde os tormentos históricos recordarão de quais a Europa nos salva. O lema da Solidariedade em Gdansk poderia ser o de uma Europa Federal: “Coragem e Moderação.”

 

Tradução: Maria Júlia Ferraz

Disponível no blog do autor

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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