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A República precisa ser refundada
- Maria Julia Ferraz
Historiador lança livro analisando o julgamento do Mensalão, e defende a refundação da República no Brasil.

Entrevistar Marco Antônio Villa é sempre um grande momento. É impossível não se encantar por história e política ao ouvi-lo falar. A mesma verve pode ser percebida em seus textos.

Nesse momento em que a política passa por momentos de apatia da parte de uns e ufanismo parecido com torcida de futebol para outros, Villa é a voz da razão. Seu mais recente livro, Mensalão - O Julgamento do Maior Caso de Corrupção da História Política Brasileira (Leya; 392 páginas; 31,90 reais), é um grande exemplo disso.

Profissional competente e atencioso, Villa achou um tempo para nos conceder uma entrevista exclusiva. Confira abaixo.

***

M@M - Mal as eleições municipais acabaram e muitos políticos considerados de “oposição” trataram de aderir a governos petistas que só começarão ano que vem. A oposição partidária no Brasil acabou? É possível convencer nossas lideranças políticas de que trabalhar na oposição para vencer uma eleição daqui a quatro anos é melhor que pegar carona em qualquer governo a qualquer custo?

Marco Villa: É. Mas precisamos mudar essa elite política. E uma das mudanças deve ser com a entrada efetiva de novos quadros na política. Política virou sinônimo de corrupção e, infelizmente, é uma verdade. O que há de política é, na verdade, pura negociata. Política no sentido lato, não temos. A oposição é uma piada. No Congresso é possível testar uma dúzia, se tanto, isto entre 513 deputados e 81 senadores. Falta combatividade, proposta, estratégia, e por aí vai. Vivemos em um dos piores momentos políticos da breve história da república brasileira.

M@M - Como o senhor analisa o desfecho do caso Mensalão: uma vitória inegável da justiça, uma depuração interna dos quadros petistas que continuam de toda maneira mandando no país ou um espetáculo mais midiático do que verdadeiro, sem a punição de personagens importantes que ficaram de fora do processo?

MV: Uma vitória, grande vitória. Sempre, claro, pensando como funcionam as instituições no Brasil. O julgamento pode ser um divisor de águas, aquilo que sempre falo e escrevo: devemos refundar a república brasileira, aquela república de Euclides da Cunha, de Silva Jardim, de Júlio Ribeiro, não a república de Lula, Sarney, Maluf e Renan. A punição aos 25 réus foi até branda. Mas pela primeira vez na história do Brasil teremos presidente de partido, ministro de Estado e dona de banco, presos, alguns em regime fechado.

M@M -Projetando o futuro, o senhor acha possível surgir uma composição de forças políticas capaz de rivalizar com o modelo “pragmático-petista” que governa o Brasil há 10 anos e não dá mostras de que pretenda abandonar o poder tão cedo? Qual seria o perfil ideológico dessas nova eventual composição: liberal clássica com defesa da livre iniciativa, conservadora moderada com apoio da comunidade com formação cristã, ou mais do mesmo (social democracia, sindical, bandeiras de políticas compensatórias, etc.)?

MV: Vai se difícil uma oposição orgânica, combativa, propositiva. O que poderá ocorrer é um racha no bloco dominante. Falando vulgarmente é quando os ratos não estão satisfeitos com o butim
e começam a brigar entre eles. Os ratos, no caso, são representados pela base do governo, um governo com graves acusações de corrupção, ineficaz, sem propostas e antinacional.

M@M - A reação do PT diante da condenação de seus líderes demonstra que o partido não aceita as regras do jogo democrático quando elas contrariam seus interesses. Considerando que o partido controla as "chaves do cofre" da máquina pública, praticamente inexiste oposição política no país, a sociedade está anestesiada e a mídia em sua maior parte abre espaços para defensores assumidos ou velados do PT se manifestarem, é possível acreditar que é uma questão de tempo para o país finalmente cair diante do projeto de poder petista, que é claramente autoritário?

MV: O tempo poderá, por ele próprio, levar ao declínio do PT. Mas o Brasil não pode esperar. É um crime de lesa-Pátria deixar a base governamental "se comer". A antropofagia que precisamos é de uma oposição rejuvenescida nas ideias, com disposição de luta, não temendo o enfrentamento, com propostas originais para o país. O projeto petista é autoritário. O sonho do PT é eliminar todos aqueles que se colocam contra seu projeto antinacional e reacionário.

M@M - O Brasil sempre foi um país que buscou heróis, de Tiradentes ao "caçador de Marajás". Como o senhor analisa a ascensão de uma espécie de herói negro entre as redes sociais e na mídia em geral, personalizada na figura do ministro Joaquim Barbosa?

MV: O juiz – prefiro juiz do que ministro – Joaquim Barbosa é a grande figura deste ano. Conseguiu realizar um julgamento que era considerado impossível. Tem todo o simbolismo de ser um negro em um país que manteve durante quase 400 anos a escravidão. Fez um tremendo sacrifício físico e com firmeza defendeu seus pontos de vista. Algumas vezes as discussões foram ásperas. Mas foram necessárias frente a manobras de alguns ministros que mais pareciam advogados de defesa dos réus.

M@M - Sobre o que fala seu novo livro que está para ser lançado?

MV: Espero que o livro deixe registrado para a história a importância deste julgamento, quando, volto a dizer, podemos refundar a república no Brasil, uma república de cidadãos livres e iguais em direitos e deveres. Onde possamos ter a diginidade de ter autoridades que defendam o interesse público. Onde os tempos petistas sejam lembrados como um momento sombrio da nossa história. Onde Lula e suas Roses sejam recordados como instantes tristes da nossa História.

 
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COMENTÁRIOS
04/12/2012
(LG)

Pelo próprio teor das perguntas e das respostas ("Política virou sinônimo de corrupção", "devemos refundar a república brasileira", "a sociedade está anestesiada", etc) já se percebe que o Brasil está longe de ser uma democracia (na verdade, somos uma plutocracia, já prestes a nos tornarmos uma cleptocracia). Aliás, raros foram os momentos, nestes 120 anos de infeliz república presidencialista, em que vivemos próximos de um regime democrático. O próprio Marco Antônio Villa escreveu um livrinho muito interessante sobre a queda da monarquia, o golpe de estado que implantou a república e os escroques que atuaram na fundação do regime republicano. É uma chaga de fundação que ainda macula o regime. Já não podemos mais ter uma monarquia (que pena!!), mas podemos retornar ao regime parlamentarista, ao governo de gabinete, que considero ser a única esperança de regenerar a política no Brasil, pois lançaria sobre o parlamento responsabilidades governativas (e a pressão das Moções de Desconfiança) e poderia dar ao país finalmente uma política baseada nos partidos (e em programas). Sistema parlamentarista e voto distrital puro: fora daí, mantendo-se o presidencialismoe essa lastimável eleição proporcional, os primeiros lugares do estado continuarão entregues à concorrência das ambições menos dignas.

 
04/12/2012
(Carlos)

Muito interessantes as colocações do entrevistado, porém acredito que ele dá crédito demais ao sr. Joaquim Barbosa. Se formos verificar o que pensa esse senhor, veremos que ele é cria do meio, ou seja, mais um esquerdista e candidato a engenheiro social, que não irá pensar duas vezes em afrontar a Constituição se isso for de seu interesse - exemplo acabado disso é a Raposa Serra do Sol, onde produtores e moradores foram expulsos de suas propriedades, sob os aplausos do STF.

 
04/12/2012
(Agapito Costa)

Compartilho da mesma opinião do senhor Carlos.

 
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Redação: Paulo Zamboni
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