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Pós-Liberalismo: um projeto para a oposição
- Guy Sorman
A crise deve ser uma oportunidade de imaginar o retorno da sociedade civil; sem imaginação, nós perpetuaremos as causas dessa crise e adicionamos o risco de um caos provável.

As nações da Europa odeiam o  expurgo financeiro que atualmente infligem seus governos, liberais como na Espanha e na Grécia ou socialistas como na França. Em última análise, essa rejeição popular poderia desestabilizar os governos, mas também as instituições: é preciso se preocupar com os ventos revoltosos na Grécia, com as tentativas autonomistas na Catalunha, na Escócia ou na Baviera. Essa rejeição popular é justificada? Em parte sim, porque as vítimas atuais raramente são as culpadas de ontem: somente os humildes pagam por uma redução de seu nível de vida e pelo desemprego, pela prevaricação, especulações e erros de gestão dos poderosos de ontem e de hoje. A limpeza não é moral. Para um grande número, ela não é compreensível: a pedagogia econômica dos governos é ausente, ou pouco convincente. É preciso ser iniciado em ciência econômica  para compreender como o retorno a um orçamento equilibrado seria capaz de criar empregos e riquezas amanhã, ou mais provavelmente, depois de amanhã. E, o mais importante, a limpeza financeira será eficaz? Nada é menos certo.

E em razão de um mal-entendido, acima de tudo. O jargão financeiro dominante faz acreditar que o retorno ao equilíbrio fiscal (ou a um déficit controlado) sinalizaria o fim da crise. Admitindo que se consiga sucesso, não é tanto o equilíbrio que é imperativo, como o nível da dívida publica: uma economia coletivista, com 100% de antecipação, garantiria um orçamento equilibrado, se passasse o recorde ao mercado de capitais; no entanto, não se cria nenhuma riqueza. Mas é mais fácil para o governo aumentar impostos do que cortar gastos: é o que faz François Hollande. O governo espanhol, mais corajoso, age sobre os dois lados da equação. Porém, ainda estamos esperando que só o governo nos diga o que não seria uma meta de equilíbrio no prazo limite dos gastos públicos? Há um profundo silêncio sobre essa questão, porque ninguém se atreve a perturbar os funcionários contratados, sejam eles militares e professores. Ou seja, quase todo mundo.

Tentemos pensar de forma diferente: não em instituições econômicas e sociais constantes, mas na renovação de sua configuração mesmo. Começando a repensar as instituições que sustentam a solidariedade nacional, porque a solidariedade é o ponto crucial da crise financeira, a causa principal da inflação do Estado e da desaceleração da economia por causa dos custos impostos às empresas. Não pode haver dúvida, tanto em ética, como em política, de renunciar à essa solidariedade entre gerações, entre ricos e pobres: ela constitui o fundamento de nossa civilização europeia. Mas é preciso parar de confundir o princípio da solidariedade com seu modo de gestão: esse princípio é herdado dos tempos passados, quando as crianças eram numerosas, o crescimento forte e a vida relativamente breve. Agora, as crianças estão mais raras, a vida é mais longeva e o crescimento é desacelerado: as instituições de solidariedade sobrevivem apenas graças a uma dívida que, por sua vez, retarda ainda mais o crescimento.

Fugir dessa espiral exige pensar na solidariedade de outra forma, de modo que a ética coletiva torne-se compatível com o retorno do investimento privado. Uma primeira pista conduz a substituir todos os sistemas complexos de redistribuição atuais – pensões, desempregos, saúde, solidariedade – para uma renda mínima universal. Cada cidadão, abaixo de um certo limite de renda, recebe um subsídio mensal, que utilizaria segundo seu bom senso para se prevenir dos caprichos da vida. Igualmente o chamado “imposto negativo” sobre a renda, essa inovação reduziria a burocracia que gera a solidariedade complexa, eliminaria a fraude em grande parte e seria perfeitamente democrática. Esse imposto negativo é baseado sob a responsabilidade pessoal de cada um, livre de garantias, e não sob os cálculos eleitorais: é, portanto uma escolha filosófica. Todas as simulações mostram que a renda mínima garantida custa menos que a adição de todos os auxílios públicos existentes. A liberdade de escolha por parte dos beneficiários do rendimento mínimo garantido para todas as empresas geram milhares de empresas novas, competindo para oferecer as melhores garantias sociais ao menor curso. Essa seria uma saída de crise criativa e democrática.

Uma outra pista: incentivar o chamado Terceiro Setor ou ainda o Setor Não Lucrativo. Esse setor representa, nos Estados Unidos, 12% da economia total, enquanto que é quase inexistente na França. Nos Estados Unidos, como se sabe, a educação, a cultura, a ajuda social, a proteção ambiental, tem base essencialmente sobre o donativo e o voluntariado: na França, é sobre o Estado.  Seria reacionário reviver aqui o donativo e o voluntariado que  foram unidades constitutivas de nossa sociedade civil antes de ser nivelada pela estatização? A restauração jurídica e fiscal da doação e do voluntariado reacende o que há de melhor em nós, conduzindo a resultados sociais e econômicos benéficos. No total,  que se colocasse uma Renda Mínima Universal ou o Terceiro Setor, a sociedade civil assumiria o Estado, anônimo e burocrático. A crise deve ser uma oportunidade de  imaginar o retorno da sociedade civil; sem imaginação, nós perpetuaremos as causas dessa crise e adicionamos o risco de um caos provável.

 

Tradução: Maria Júlia Ferraz

Disponível no blog do autor

 



 
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COMENTÁRIOS
08/11/2012
(Carlos)

O sr. Sorman parece que perde o rumo em seus argumentos de vez em quando. Lendo o artigo, eu comecei a imaginar em qual ponto do texto ele falaria em "pacto social"  ou defenderia que "os que tem mais devem dividir com os que tem menos", conversas típicas de social democratas que não sabem mais o que fazer para enfrentar uma situação que é causada única e exclusivamente pela intervenção excessiva do Estado na economia e sociedade. O resto é conversa de francês que não tem muito o que falar ou está envergonhado de defender suas posições supostamente liberais, como parece ser o caso de Sorman neste artigo.

 
08/11/2012
(Paulo)

Ao ler esse artigo fica difícil acreditar que Guy Sorman não é apenas um social-democrata de direita, quando muito. Acreditar que alguém que fala em "solidariedade" e defende o "terceiro setor" como alternativas para a Europa sair do buraco causado pelos anos de socialismo desenfreado é "liberal" é ter muito boa vontade.

 
08/11/2012
(Maria Júlia)

Ah! Ele tenta! rsss

 
08/11/2012
(Camilo)

Os comentários acima mostram uma visão muito estreita no que diz respeito aos espectros políticos. As propostas apresentadas por Guy Sorman são fortemente embasadas em idéias de Milton Friedman, por exemplo, que ninguém ousaria acusar de socialista. Além disso, vejo com muito bons olhos o enfoque na filantropia VOLUNTÁRIA e privada, em contraposição ao estado de bem-estar social de fonte estatal.

 
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