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O Oriente Lamacento
- Victor Davis Hanson
Embora seja impossível prever como exatamente será o futuro do Oriente Médio, é possível imaginar algumas constantes para guiar a política externa dos EUA na região.

Ninguém faz ideia alguma de como a situação no Oriente Médio estará ano que vem, muito menos, em cinco anos – especialmente os próprios participantes revolucionários.

Neste novo momento revolucionário, nem ao menos existem as antigas e familiares disputas territoriais. Estão os reinos sunitas do Golfo ansiosos a apoiar revolucionários na Síria e na África do Norte? Talvez sim, talvez não – sendo que a queda de líderes poderosos como Mubarak, bin Ali, Qaddafi e Assad [1] podem resultar na Irmandade Muçulmana – governos de inspiração islamista, que gostariam de ver monarquias enriquecidas pelo petróleo tornarem-se menos ocidentais e mais teocráticas. Ou – apesar disto ser menos provável – caso reformistas pró-ocidente prevaleçam, tais governos iriam procurar democratizar e secularizar reinos no Golfo. Quais são nossos melhores aliados para romper o perigoso eixo Irã-Hezbollah-Síria? Extremistas islamistas que querem matar o odiado Assad um pouco mais do que querem nos matar – pelo menos por enquanto?

Quem pode solucionar a questão no Líbano? São os cristãos e xiitas de lá, favoráveis à titubeante ditadura de Assad por proteger minorias religiosas e, no caso dos xiitas, por ajudar a armar o Hezbollah? Ou tais parcelas populacionais não sunitas também são favoráveis a movimentos reformistas que procuram expulsar o desprezado estado policial, que possui uma longa história de assassinar libaneses? Um Iraque agradecido sente que a Síria tem sido mais simpática ao seu governo xiita do que seus vizinhos sunitas, ou está vivenciando certo prazer ao ver que seus terroristas agora estão fazendo na Síria o que a Síria costumava fazer com o Iraque?

Irão os novos governos árabes islamistas buscar solidariedade à teocracia persa antiocidental, ou irão retroceder aos seus temores étnicos e religiosos de iranianos xiitas? Ninguém nunca conseguiu compreender realmente se extremistas xiitas e sunitas odeiam o Ocidente mais ou menos do que se odeiam. Será que a suposta “Rua Árabe” deseja liberdade, especialmente na era das comunicações globais e instantâneas, dada sua repugnância generalizada à completa corrupção das ditaduras moribundas árabes?  Ou a Irmandade Muçulmana irá simplesmente dar um tapinha nessa raiva popular para abortar a entrega de um governo constitucional – tanto abertamente, como no caso da revolução iraniana e na tomada de poder da Faixa de Gaza pelo Hamas, com “um voto uma única vez”; ou mais traiçoeiramente, como no caso corrente da guerra praticada pelo governo turco contra a liberdade de imprensa e movimentos independentes de oposição ou, no caso do paradigma Karzai-Maliki [2], de cleptocracia constitucional?

Permeando todo esse caos há certas constantes que podem guiar a política externa dos Estados Unidos.

1 - Quer tomem o formato de autoritarismo de um só homem, ou monarquias, ou teocracias, governos árabes permanecerão contra Israel. Isto não quer dizer que certas facções, de tempos em tempos, não irão furtivamente reforçar laços com Israel em busca de punir inimigos em comum, mas no geral o Oriente Médio árabe irá continuar detestando Israel. O fato de a região ter adotado o antissemitismo sem qualquer arrependimento, seu ressentimento ao poderio econômico e ao sucesso de Israel, e a raiva de longa data ao estabelecimento do Estado Judaico no coração do Oriente Médio sobrepujam quaisquer alterações efêmeras de governo. Considerando que, se um novo regime árabe eleito por votação popular, e também considerando que este regime mantenha a lealdade de seu povo, o sentimento anti-Israel irá apenas escalar. Poder para o povo no Oriente Médio significa mais poder para odiar Israel.

2 - O Oriente Médio árabe irá se manter antiamericano. Nós já vimos que Barack Hussein Obama teve pouco sucesso, se é que houve algum, em ganhar os corações e mentes da “Rua Árabe” [3] após a saída do texano e evangélico invasor do Iraque George Bush. A Secretária de Estado Hillary Clinton foi recebida no Egito por rudes entoações de “Monica” provenientes de manifestantes que supostamente são nossos aliados seculares, reformistas, amigáveis e receptores de nossa assistência. O novo governo no Cairo aparentemente deseja a libertação do assassino em massa conhecido como o “Sheik Cego” [4], que ajudou a planejar o atentado de 1993 ao World Trade Center e que sonha com Jerusalém como a capital árabe de um estado na Margem Ocidental. Foi preciso que Moammar Qaddafi fosse deposto para garantir que um cemitério do Reino Unido da Grã-Bretanha datado da Segunda Guerra Mundial fosse finalmente profanado – em estilo de Tombuctu/Bamiyan [5]. Tudo que sabemos da Síria com qualquer certeza é que Assad nos detesta, seus parceiros do Hezbollah nos detestam, seus patronos iranianos nos detestam, os extremistas da Al-Qaeda que buscam depô-lo nos detestam e os rebeldes reformistas mais razoáveis ou nos detestam por não ajudá-los mais abertamente ou brevemente encontrarão novos motivos para nos detestar quando e se chegarem a tomar o poder. Assistencialismo americano; generosas políticas americanas de imigração para muçulmanos e árabes; apoio aberto a movimentos democráticos; a remoção de Sadam Hussein e Moammar Qaddafi; ajuda anteriores aos iraquianos, aos kuwaitianos, egípcios, palestinos e jordanianos; esforços anteriores para proteger muçulmanos no Afeganistão, Bósnia e Somália – tudo isso mereceu pouca, se é que alguma, boa vontade.

3 - O petróleo, de uma forma ou de outra, continuará a influenciar todo o pensamento estratégico. Ao longo da próxima década, as imensas reservas de petróleo e gás natural descobertas nos Estados Unidos, Canadá e México – se exploradas inteiramente – irão revolucionar o fornecimento de combustíveis fósseis na América do Norte. Uma produção diária amplamente acrescida irá permitir aos Estados Unidos, inter alia, uma flexibilidade muito maior em suas políticas externas, livre de receios de embargos, boicotes e do estabelecimento de preços monopolizados pela Opep. Adicione a essa mistura o não antecipado surgimento de Israel como autossuficiente em energia e o acesso ao petróleo árabe – e o poder dos petrodólares do Oriente Médio – pode não mais dominar a política externa americana. Para o bem ou para o mal, em cinco anos nós podemos não nos preocupar mais com a subversão de movimentos democráticos nos moldes da Primavera Árabe, como a atual administração não está preocupada com a ausência, ou a erosão, de governos constitucionais em Cuba, Equador, Nicarágua, Peru e Venezuela.

4 - A proliferação nuclear pode se tornar imune a escrutínio internacional. Simplesmente existe tumulto excessivo no Oriente Médio para que a comunidade internacional monitore e controle a disseminação de armamentos nucleares. Com a saída das forças ocidentais do Afeganistão, aguarde que tensões cresçam entre o Afeganistão e o nuclear Paquistão, e entre o Paquistão nuclear e a Índia nuclear. Ninguém pode desvendar o resultado político de um ataque israelense preventivo às instalações nucleares iranianas ou uma declaração iraniana de que soltou um dispositivo nuclear – a não ser de que qualquer destes acontecimentos, ou até ambos, iria desestabilizar ainda mais a região. Se a Síria, a Margem Ocidental inteira, a Jordânia e o Egito adotarem governos inspirados na Irmandade Muçulmana – em breve uma possibilidade – nós veremos um retorno ao sistema pré-1973 no Oriente Médio, com o islamismo substituindo o antigo posicionamento pró-soviético como a crença comum de hostilidade uniforme entre os inimigos fronteiriços de Israel. Em tal cenário, os estados árabes naturalmente poderão buscar algum tipo de substituto ao ausente dissuasor soviético que sempre garantiu, como em 1967 e 1973 [6], que uma derrota árabe não fosse exatamente uma derrota total.

5 - Nós não teremos um único aliado em qualquer esforço para influenciar mudanças no Oriente Médio. O recomeço com a Rússia de Vladmir Putin foi um desastre ignóbil. O único impulso de Putin que sobrepõe seu medo ao islamismo radical é seu desejo de garantir que qualquer crise na região afete negativamente os Estados Unidos. A China quer petróleo, ponto final. Na medida em que está envolvida, busca apoiar qualquer governo que a abastece com energia e, como bônus, é antiamericano – o que apresenta um amplo campo de atuação. Uma Europa com inquietações financeiras não repetirá sua aventura na Líbia. As nações do sul europeu, mais próximas à intranquilidade do Oriente Médio, são insolventes, crescentemente desarmadas e paranoicas a respeito da fonte de sua energia. A Alemanha não intervencionista não apenas possui a última palavra quanto à sobrevivência da zona do euro, mas, dado o seu necessário dinheiro, possui o poder de veto, de facto, sobre futuras ações coletivas europeias. A Turquia é o mais instável e inconfiável “novo” aliado da administração Obama, distanciando-se dos Estados Unidos ao buscar novos aliados islâmicos, apenas para implorar por nossa cooperação quando tais esforços explodem em sua face, como aconteceu com a Síria. A OTAN está morrendo nas vinhas, dado ao nosso muito proclamado “eixo” asiático e a falta de investimentos da Europa. A ONU continua uma piada; nunca existirá uma resolução da ONU quanto à Síria da forma como houve uma relacionada a Líbia – principalmente porque o Ocidente inflamou ressentimentos chineses e russos quando transformou completamente a ajuda humanitária aprovada pela ONU em zonas interditadas ao voo e em um cheque em branco para bombardeios.

Considerando tais fatores deprimentes, onde esta atual bagunça no Oriente Médio deixa os Estados Unidos? Nós devemos restaurar relações mais próximas com Israel, que está se tornando cada vez mais forte e próspero e é a única nação democrática e consistentemente a favor dos Estados Unidos na região. A administração Obama demonstrou que qualquer vestígio de luz do dia entre os Estados Unidos e Israel não garante uma aproximação com o mundo árabe, mas apenas o persuade de que Israel está mais vulnerável.

O curso de ação mais sábio será despersonificar nossa política externa no Oriente Médio, simplesmente declarando que os Estados Unidos – com a intenção de pressionar o tumulto – apoiam governos constitucionais (em vez de plebiscitos): enquanto uma sociedade for transparente, respeitar os direitos humanos e permanecer consensual, nós a apoiaremos; quando deixar de ser, é mais provável que iremos contrapô-la. Na realidade, isto iria rapidamente nos colocar em cheque com a maior parte dos movimentos teocráticos que estão lentamente estrangulando suas contrapartes seculares. Os Estados Unidos devem acelerar a exploração de energia, especialmente por meio de arrendamentos de terras federais ricas em petróleo, a finalização do oleoduto de Keystone e perfurando áreas bem estabelecidas e ricas em petróleo em alto-mar e no Alasca. Se a América do Norte realmente se tornar autossuficiente em energia, o continente inteiro – e talvez o mundo inteiro – será tanto mais rico quanto mais seguro.

Agora não é o momento para fazer cortes em nosso arsenal estratégico ou cortar o sistema de defesa por mísseis. O perigo não é perder nosso próprio poder de dissuasão nuclear, mas sim de emitir qualquer sinal de que os Estados Unidos sentem de alguma forma que seu arsenal é redundante. Nós devemos nos preocupar não apenas com que o Egito ou outro estado no Golfo se tornem nucleares em resposta ao Irã, mas sim de que meia dúzia de nações possa se tornar nuclear. A mensagem da América ao Oriente Médio deve ser de que um ataque aos Estados Unidos ou aos seus interesses não seria apenas fútil, mas garantiria uma resposta preponderantemente destrutível.

Resumindo, nomes e faces vão e vêm no Oriente Médio. Assim como seus movimentos de massa – quer sejam a favor do fascismo hitlerista, nasserismo [7], baathismo [8], ou clientelismo soviético ou o islamismo teocrático. O bruto Grand Mufti de ontem é o malandro Hassan Nasrallah [9] de hoje e Mohammed Morsi [10], o mais malandro de todos de amanhã. Hosni Mubarak mudou de tiete nasseriano, para um bem-vindo sucessor de Sadat, para um corrupto de confiança e estrategicamente aliado dos EUA, para um inimigo da “Rua Árabe”, para hoje não ser nada mais do que um cadáver ambulante.

Tudo o que se deve manter constante é: o apoio americano a um mundo árabe constitucional, de livre mercado e favorável ao Ocidente; a aliança inseparável com Israel; um fim à importação de energia do Oriente Médio; e uma América com domínio militar preponderante.

 

Publicado originalmente na National Review Online, em 2 de Agosto de 2012. Também disponível no site do autor.

 

Tradução: Roberto Ferraracio


[1] N.T. Respectivamente: Muhammad Hosni El Sayed Mubarak, 4º Presidente do Egito; Zine El Abidine Ben Ali, 2º Presidente da Tunísia; Muammar Abu Minyar Al-Qaddafi, ditador  líbio; Bashar al-Assad, Presidente sírio;

[2] N.T. Hamid Karzai, Presidente do Afeganistão; Nouri Kamil Mohammed Hasan al-Maliki, Primeiro Ministro iraquiano;

[3] N.T. Expressão usada para descrever a grande massa da opinião pública árabe;

[4] N.T. Como ficou conhecido o terrorista egípcio Omar Abdel-Rahman;

[5] N.T. Autor faz menção a ataques de islamistas a sítios históricos e santuários religiosos na cidade de Tombuctu, Mali, em maio de 2012;

[6] N.T. Autor faz menção a “Guerra do seis dias” em 1967, na qual Egito, Jordânia, Síria, Iraque, Kuwaiti, Arábia Saudita, Sudão e Argélia, direta ou indiretamente combateram as forças armadas israelenses; a Guerra do Yom Kipur em 1973;

[7] N.T. Termo advindo de Gamal Abdel Nasser, 2º Presidente do Egito. O nasserismo focou-se em políticas nacionalistas e com tendências ao pan-arabismo.

[8] N.T. Baathismo, pensamento político ideológico de origem síria, idealizado pelos fundadores do partido Ba’th na Síria. Nacionalismo, autoritarismo, socialismo e pan-arabismo. Busca o renascimento da cultura árabe e a criação e desenvolvimento de uma nação árabe unificada;

[9] N.T. Secretário-geral do Hezbollah;

[10] N.T. Quinto e atual Presidente do Egito;

 



 
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COMENTÁRIOS
17/08/2012
(Paulo)

O Oriente Médio sempre foi e será uma imensa caixa de pandora.
 
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Redação: Paulo Zamboni
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