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Raciocínio para dez anos
- Guy Sorman
Como persuadir os governantes e a opinião pública de que a retomada do crescimento e a queda do desemprego passam por um reforço das instituições, por um progresso do Direito, e não por manipulações das ferramentas de produção e finanças públicas?

Em tempos de crise, o senso comum se perde: as pessoas esperam, em vão, decisões de efeito rápido de seus governos, enquanto os governantes superestimam sua capacidade de ação. Mas, em uma democracia, a economia segue seu caminho traçado pelos empresários, enquanto a política segue sua trajetória sobre as exigências eleitorais. Essa ruptura entre a política e a economia foi relatada pela primeira vez na história da ciência econômica em 1803, durante uma briga [1] entre o famoso imperador francês Napoleão e Jean-Baptiste Say, fundador da educação econômica para toda a Europa.

O imperador exigia que Say modificasse seu Tratado de Economia Política (publicado na Espanha em 1807) para celebrar o papel do Estado e as virtudes do protecionismo, em vez do empreendedor e do livre comércio: Say respondeu que a ruptura entre a economia e a política já estava consumada. O trabalho foi censurado, Say impedido de ensinar, mas Napoleão não poderia modificar a realidade: o “empreendedor”, termo cunhado por Say, não obedece mais o imperador. O “empreendedor”, explicou Jean-Baptiste Say, é motivado por seus interesses: o que é excelente, acrescentou, porque pelo lucro o empreendedor investe, explora as inovações rentáveis, cria empregos. Os governante e altos funcionários, acrescentou Say, são todos impulsionados pela vaidade. Pela vaidade, todo funcionário aumenta o número de seus subordinados porque o poder do Estado se mede pelo número de escritórios. O Estado, concluiu Say, é indispensável para estender o estado de direito e prejudicial para além disso: quando a fronteira entre o mercado e o Estado torna-se instável, a economia deteriora porque os empreendedores preocupados partem para estratégias de recuo.

O que nos leva de volta à crise na Europa: o comportamento dos governos é a grande causa de tudo. A União Europeia, ou o Euro em si, não tem qualquer responsabilidade pela recessão. Um euro desvalorizado ou o retorno às moedas nacionais não conduziria a um aumento dos custos de importação, o pagamento das dívidas. Não estamos mais na era das desvalorizações competitivas: a prosperidade das nações depende menos dos custos de produção que da singularidade e da qualidade dos produtos no mercado mundial.

Claramente, o que os empresários europeus precisam hoje e por que os governos europeus acabaram por se juntar, é de um horizonte estável e previsível. Entre os slogans célebres de John Maynard Keynes, um dos mais falsos certamente é “A longo prazo, todos estaremos mortos” [2]. Na economia, somente o longo prazo é condição para o crescimento: o investimento será retomado quando for possível, em razão de cinco ou dez anos. Isso pressupõe que a União Europeia seja consolidada por compromissos específicos sobre a evolução da dívida pública, segurança bancária e as futuras regulamentações sociais, até mesmo ecológicas ou municipais [3].

A Europa, felizmente, dispõe de uma autoridade que garante a estabilidade dos preços: o Banco de Frankfurt. Ela necessita de uma outra autoridade que obrigue a transparência das contas públicas, juntamente com sanções significativas e o retorno ao equilíbrio orçamental: o equilíbrio é o único objetivo que vai tranquilizar os mercados financeiros. Estas não são medidas conjunturais, de políticas cíclicas, de ajuda tal como a Europa anuncia, mas de regras estáveis, de instituições também legítimas como já são o Banco Europeu ou o Tribunal de Justiça Europeia.

Como persuadir os governantes e a opinião pública de que a retomada do crescimento e a queda do desemprego passam por um reforço das instituições, por um progresso do Direito, e não por manipulações das ferramentas de produção e finanças públicas? Com base em evidências: as nações mais prósperas são aquelas cujas instituições são mais fortes e os Estados são mais sóbrios, como a Alemanha e o norte da Europa. E ao desenvolver o conhecimento popular da ciência econômica: Jean-Baptiste Say acreditava que o progresso seria baseado em uma ampla divulgação da ciência econômica, onde as pessoas resistiriam ao estatismo e à demagogia. Para fazer isso, ele se tornou jornalista e professor. É razoável procurar em 1803 soluções para uma crise imediata? Sim, uma vez que existem na economia realidades eternas.

 

Tradução: Maria Júlia Ferraz

Disponível no blog do autor


[1] Para saber mais: http://economics.about.com/od/famouseconomists/a/jean_baptiste.htm.

[2] Do inglês In the long run we are all dead. In: A Tract on Monetary Reform (1923), capítulo 3.

[3] Do francês “communes”, que pode significar autarquia, município.

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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