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Falta de vergonha

Denis Rosenfield
É impressionante a hipocrisia sem limites dos defensores de Fernando Lugo, dentre os quais estão vários governantes autoritários.

Fernando Lugo foi destituído da presidência do Paraguai graças a um processo de impeachment que contou com um maciço apoio dos deputados e senadores, seguindo todos os trâmites constitucionais daquele país.
 
As leis não foram minimamente atropeladas, embora se possa lamentar o fato de o hoje ex-presidente não ter podido exercer convenientemente o seu direito de defesa. Podemos evidentemente considerar que um amplo exercício do direito de defesa deveria ter sido assegurado. Daí não se segue, contudo, que a Constituição não tenha sido seguida, pois o rito de impeachment daquele país é, efetivamente, sumário.
 
Podemos discordar da Constituição paraguaia por razões A ou B. No entanto, é a lei vigente. Logo, não se pode considerar golpe o que foi um procedimento constitucional. Tal apelação só serve aos adversários da democracia no Paraguai, sobretudo os centrados nos governos esquerdistas, bolivarianos, que – esses sim – não se cansam de atropelar as leis dos seus países, com um claro propósito liberticida. Falta um mínimo de coerência para que  suas vozes sejam ouvidas; falta-lhes, na verdade, vergonha.
 
Considere-se, ainda, que o impeachment de Fernando Lugo foi referendado pela Suprema Corte, reiterando que todos os trâmites constitucionais foram seguidos. Ademais, não houve nenhum movimento "popular" de resistência em defesa do ex-presidente que, resignado, acatou a decisão da Câmara dos Deputados e do Senado.
 
O próprio presidente saiu sem resistência do  Palácio, obedecendo à decisão do Poder Legislativo. Não foi forçado militarmente a fazer isso. Se dias depois ele começou a falar em "resistência" (sem respaldo popular, diga-se de passagem) é porque  foi insuflado por governos como os da  Venezuela, Bolívia , Equador e, em menor medida, do Brasil. Uruguai e Chile já começam a se demarcar dessa posição, apregoando por punições que não tenham maior alcance econômico.
 
O Brasil parece enveredar por esse caminho, embora o seu passado "bolivariano" nas relações internacionais com a América Latina não ofereça nenhuma garantia. Isto é, Fernando Lugo não tem apoio interno e a tentativa de conferir-lhe  sustentação vem de governos que, em boa parte, não têm compromisso nenhum com a democracia.
 
A Argentina de Cristina Kirchner é um governo de característica liberticida, voltando-se sistematicamente contra a liberdade de imprensa e procurando controlar os meios de comunicação em geral. Procura calar qualquer voz independente da sociedade civil que não siga os seus objetivos.
 
Ademais, na tradição de corte fascista-peronista, utiliza-se de máfias sindicais para criar um suposto movimento popular contra os jornais e meios de comunicação. São os piquetes "sindicais", que não hesitam no uso da violência. Os que têm o projeto de estabelecer o "monopólio" do poder, criam o argumento do "oligopólio" da mídia. Seria risível se não fosse terrivelmente verdadeiro. Eis porque a presidente Kirchner é das mais duras críticas do processo de impeachment de Lugo.
 
Hugo Chávez, o "democrata", é um feroz defensor de Lugo. Tem, aliás, todas as características de um liberticida que procura implementar um regime totalitário em seu país. Os irmãos Castro são seus admiradores vivos; Stálin, de sua tumba, segue seus passos com denodo e admiração.
 
Dentre outras "qualidades" totalitárias, destacam-se: a) sua perseguição implacável aos meios de comunicação, obrigando algumas empresas a fechar, tendo como objetivo cercar a liberdade de imprensa; b) subordinação completa do Judiciário aos seus desígnios, tendo deixado de ser propriamente um poder; c) nas últimas eleições, mudou as circunscrições eleitorais por ato monocrático, alterando a representação, de modo que o seu propósito de poder estivesse mais bem assegurado; d) retirou prerrogativas de governos estaduais que se posicionaram contra ele, em um ato de evidente arbitrariedade; e) o Poder Legislativo lhe é completamente subordinado, apenas seguindo as suas orientações: f) concentra em si mesmo os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, abolindo uma distinção básica dos Estados democráticos. São os regimes totalitários, que concentram dessa maneira o Poder.
 
Em todas essas suas arbitrariedades, qual foi a manifestação do governo brasileiro e do Mercosul em defesa das liberdades e da democracia? Nenhuma.
 
Evo Morales, no processo constituinte de seu país, produziu uma pérola, jamais criticada pelos "companheiros democráticos" latino-americanos. Quando da Constituinte, impediu por meio de seus asseclas e milícias que os parlamentares opositores entrassem no recinto parlamentar, de modo que a nova Constituição fosse aprovada segundo os seus propósitos.
 
Ou seja, os opositores foram alijados do processo constituinte por intermédio da violência física – alguns desses opositores não tendo mesmo comparecido com medo da morte ou da integridade dos seus corpos.
 
Mais recentemente, tem esse "presidente" se caracterizado pela perseguição aos seus adversários, considerados, por isso mesmo, como "criminosos". Trata-se de uma característica nitidamente totalitária: "a criminalização" da oposição. Alguma palavra dos "democratas" latino-americanos? Silêncio absoluto.
 
Agora, são esses mesmos autocratas, liberticidas por opção, que condenam o impeachment, queira-se ou não, constitucional, do agora ex-presidente Lugo. As punições propostas vão desde a suspensão e/ou expulsão do Mercosul até embargo econômico.
 
A Unasul, de inspiração bolivariana, ou seja, socialista autoritária, é a que mais longe quer levar essas condenações. Digno de nota nesses diferentes processos é o fato de que o novo presidente não tem o direito de ser sequer ouvido, o seu comparecimento tendo sido proibido por essas instituições.
 
O fato é que, ao mesmo tempo em que condenam a Câmara de Deputados e o Senado Federal paraguaios por não terem assegurado o direito de defesa a Fernando Lugo, negam esse mesmo direito ao presidente constitucional dos paraguaios.
 
Não é uma falta de vergonha?

Publicado pelo Diário do Comércio

 



 
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COMENTÁRIOS
03/07/2012
(João)

No Paraguai é realmente tudo falsificado. E nós somos idiotas!
 
02/07/2012
(LG)

Amigos, golpe mesmo pra valer não foi o chute no traseiro do "bispo" garanhão, mas o que Argentina, Brasil e Uruguai, todos comandados por forças de esquerda, aplicaram contra o Mercosul, permitindo o ingresso de um regime, o venezuelano, que consiste em uma ditadura escancarada. Será que ninguém vai cobrar da Dona Dilma explicações sobre a vassalagem da política externa brasileira ao bolivarianismo de araque? Será que ninguém vai perguntar por que os interesses nacionais estão submetidos aos compromissos do PT com o esgoto da esquerda latina? A falta de tais perguntas, no Congresso e na imprensa, já constitui um escândalo e uma vergonha.
 
01/07/2012
(Leonardo Diniz)

Acho que nada há a lamentar no fato do processo de impeachment ser rápido. Alguém acredita que o tal Lugo não sabia que a sua situação estava complicada junto ao legislativo paraguaio e todos os porquês disso? Alguém perde o apoio político assim do dia para a noite? Mais importante: de que serviria um processo prolongado? Para criar instabilidade? Para dar oportunidade aos intrometidos (inclusive Brasil) interferirem na política interna do país? O ridículo de tudo isso é ver os mesmos que vêm massacrando os princípios básicos de uma democracia minimamente digna desse nome nos seus respectivos países quererem punir o Paraguai porque depôs o presidente e deu posse ao vice perfeitamente dentro da lei. São tão cara-de-pau que reclamam de suposta lesão à democracia no Paraguai e vivem pleiteando a reinclusão da "democratíssima" Cuba nos órgãos multilaterais latino-americanos. Um bando de descarados.
 
01/07/2012
(Maria)

Excelente artigo e concordo com o leitor Leonardo. Parabéns à editoria M@M pela escolha do artigo!
 
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Redação: Paulo Zamboni
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