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Entrevista MÍDIA@MAIS: Luiz Felipe Pondé
- Maria Julia Ferraz
Em entrevista ao M@M, escritor e filósofo analisa diversos temas relevantes da cultura contemporânea.

Luís Felipe Pondé é escritor e ensaista, doutor pela USP, professor da PUC-SP e da Faap e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Em entrevista exclusiva, o intectual aborda, dentre outros, temas como ativismo de minorias, supremacia de teses socialistas no mundo cultural e religiosidade.

 ***


M@M - O senhor acha que hoje vivemos algo parecido a uma “tirania das minorias”, onde uma série de grupos minoritários brigam por “direitos especiais” acima das pessoas comuns? Por exemplo, os ciclistas em São Paulo, que reivindicam o tempo todo mas parecem não ser capazes de respeitar sinais de trânsito como os carros e pedestres comuns? Se a bandeira política de outros tempos era “igualdade”, hoje é “privilégio”?

LP - De certa forma sim; mas acho que isso é resultado de uma sociedade excessivamente cheia de gente e de interesses; tem que fazer engenharias de acomodação de interesses sociais o tempo todo; o que julgo pior nisso, é que casos como o dos ciclistas - acho ótimo quem pode ir trabalhar de bike, nada contra e acho que deve haver uma regulamentação para isso - são comumentemente acompanhados de um senso de superioridade moral do tipo “ando de bike, estou salvanado o mundo, por isso sou melhor que você”. Isso é muito comum hoje em dia. Mas, de certa forma, sempre foi assim, quem acha que faz o bem, se acha superior.

M@M - Há uma noção moderna, e disseminada especialmente pelo cinema e pela literatura, de que a “repressão” (especialmente a de natureza sexual) é a responsável por boa parte dos males humanos e suas infelicidades. O senhor acha que tal noção é verdadeira? A chamada “Revolução Sexual” foi realmente “libertadora”?

LP - Sem repressão não há tesão. O pecado é um afrodisíaco; a revolução sexual foi um fenômeno da classe média americana junto com a pílula. Há algo de verdadeiro nela, principalmente em termos de marketing de comportamento e de vestuário. Mas não acho que ela implica em mais sexo ou em melhor qualidade de sexo; acho que há 100 anos se fazia mais sexo que hoje.

M@M - Após o fim do regime militar, percebemos a predominância praticamente absoluta do pensamento de esquerda, marxista, no meio universitário, na imprensa, entre os artistas e “formadores de opinião”, etc., uma tendência que acaba se refletindo também no campo político-partidário. O senhor acha possível que uma verdadeira “democracia” conviva com tal ausência de debate ideológico? Como combater ou diminuir os efeitos do “pensamento único”, especialmente quando pensamos no ambiente acadêmico, todo regido por grades curriculares, regimentos, ementas e portarias?

LP - Primeiro dando aos alunos a chance de lerem mais autores que não os marxistas. A democracia vive bem sem debate ideológico, mas hoje ela é um regime de massa e de espetáculos ideológicos e não discussão. Acho que a principal dificuldade na Democracia é a natureza humana que não se resolve politicamente: somos medrosos, ressentidos, vaidosos... a generosidade e a coragem não se ensinam politicamente; necessitamos de mais diálogo moral e não só político.

M@M - Hoje em dia, o movimento feminista parece confundir-se com outros movimentos mais predominantes na esquerda, tais como a defesa do aborto, a luta contra o “imperialismo”, contra Israel, contra o embargo a Cuba, etc.? Não é irônico (ou trágico, enfim) que uma feminista empunhe bandeiras contra a presença de americanos no Oriente Médio, ou que fique ao lado dos palestinos contra Israel, sabendo-se que as mulheres têm infinitamente mais direitos nos EUA e em Israel do que em qualquer país muçulmano?

LP - Claro e é ridículo! Mas isso é fruto da natureza fundamentalista do movimento feminista. Sua radicalidade religioso-fanática faz isso com ele. Esquecem as mulheres e embarcam em projetos utópicos monstruosos como qualquer fanático religioso...

M@M - O senhor acredita em Deus? O senhor acha possível compatibilizar a crença no Deus bíblico com a prática científica e com o ambiente acadêmico? E como o senhor vê a “substituição”, de certa forma proposta pela modernidade e que hoje resultou em fenômenos muito perceptíveis em nossa sociedade, como quando os jovens (e mesmo muitos adultos) trocam o culto a Deus por outros cultos (a celebridades, bandas de música, astros de cinema, ou mesmo a Che Guevara)?
 
LP - Chesterton dizia que o problema em parar de acreditar em Deus é que começamos a acreditar em qualquer coisa em seu lugar, como as que você citou. A ciência não tem nada a dizer sobre Deus porque Deus não é uma variável sob controle epistemológico. Não dá para testar Deus em um laboratório, mas há uma tendência de alguns cientistas de ficarem ateus por conta do ônus da prova da existência de Deus; de Deus ser dos crentes. Outro argumento contra a existência de Deus é o chamado ARGUMENTO DO MAL: se Deus é bom e o mundo é mal, há algo de errado na premissa. Quanto a mim, acho o ateísmo mais provável como hipótese filosófica. Não sou religioso, não acho que a vida tenha algum grande sentido, mas acho o conceito de Deus bíblico elegante e fascinante.

M@M - Em relação à Igreja Católica, como o senhor vê o fenômeno da Teologia da Libertação?

LP - Vejo como uma resposta à miséria latino-americana, um modo de ler o carisma profético do cristianismo usando a hermenêutica marxista, um fato do contexto histórico dos anos 60 e 70. Mas acho uma lástima em termos intelectuais e teológicos porque reduziu a teologia à pastoral sindical, político-partidária e a modas da esquerda mundial, do tipo teologia feminista, teologia gay, teologia verde; isso não significa que não devemos dar atenção a esses temas, o que critico é a tendência, as obssessões da teologia ao se tornar uma vassala do marxismo atenuado que ela usa.

 



 
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COMENTÁRIOS
21/07/2012
(jorge)

É impressionante perceber como o pensamento marxista-leninista obnubila a capacidade de as pessoas (os esquerdistas latino-americanos em especial) enxergarem o atraso que representa essa doutrina totalitária, e o temor que ela impòe ainda hoje ao ser analisada por pessoas, mesmo as mais cultas, que nela não acreditam. É como se essas pessoas se sentissem fisicamente ameaçadas. Por outro lado, sinto que as pessoas que criticam o pensamento capitalista não demonstram sentir esse mesmo tipo de medo.
 
20/07/2012
(R. Hoch)

Acompanhei indiretamente (algumas vezes até diretamente) as discussões sobre as "teologias libertadoras" e cedo me afastei exatamente por ter percebido o que o entrevistado comenta. Quem duvida, ou não conhece a fundo, ou está inteiramente imerso nelas e não consegue mais ver o mundo ao seu redor.
 
19/07/2012
(José)

É muito Pondérado.
 
19/06/2012
(jan)

curioso. Pondé foi bastante comedido nas respostas. O surpreendente são os comentários. Muitos confundem o Deus judaico-cristão com o que ele indica, assim como confundem o dedo com a Lua que ele indica. Ao confundir o indicador com o indicado tornam-se fanáticos... como qualquer outro. E já não ouvem mais.
 
18/06/2012
(E. Lodewijk )

Para gostar, desnecessário endossar integralmente. Pondé é bem-vindo.
 
18/06/2012
(Gustavo)

Gosto do Pondé, parabéns ao site pela entrevista. Dou apenas uma dica, a entrevista seria mais proveitosa se focasse em um único ou em poucos assuntos.
 
15/06/2012
(Maria)

É uma entrevista para se pensar! Parabéns, Equipe M@M!!!!
 
15/06/2012
(LG)

Não gostei da entrevista! Ou melhor, não gosto muito do LFP, que nesta entrevista apenas reforça uma característica que eu já havia percebido nele: um murismo irritante. É o típico "pensador" do "nem isso, nem aquilo" dos dias de hoje. Encontra sempre um fundamento para as teses de esquerda, embora ache que as coisas não são bem assim. Enfim, a mim, que detesto zonas cinzentas, LFP me parece um enganador.
 
15/06/2012
(Conservatore)

Caro LG, o LFP faz um pouco o jogo do politicamente correto, embora, esteja muito longe dos formadores de opinião "certinhos". Em relação a Deus, é compreensível ele ficar em cima do muro, afinal de contas ele aparece na grande mídia, é colunista de um grande jornal, enfim, não vai arriscar o status quo. A grande ironia nisso tudo, é o preconceito religioso que tomou conta das universidades, principalmente o Cristianismo, frente a uma imensa maioria de cristãos em nosso País, ou seja, se, alguns pensadores decidissem se posicionar claramente, seriam muito mais respeitados pelos telespectadores que, no fim das contas, é a razão de ser da grande mídia. O PROBLEMA É A GRANDE MÍDIA, QUE, EXCLUI SEM DÓ PENSADORES CRISTÃOS OU SIMPATIZANTES AO CRISTIANISMO, ASSIM, FICA CADA VEZ MAIS DIFÍCIL ALGUÉM TER A CORAGEM PARA SE POSICIONAR. Mas, é preciso.
 
15/06/2012
(Maria)

Acho direito de cada um gostar ou não da entrevista. No entanto, chamo a atenção para o fato de Pondé ser um dos poucos articulistas da grande mídia que não se importa em defender alguns valores que a grande maioria acadêmica denigre. Eu achei interessante a resposta, por exemplo, sobre a Teologia da Libertação. Ele foi incisivo nos argumentos. Não o vejo tão em cima do muro. E mesmo parecendo mais agnóstico que cristão, valoriza os aspectos positivos da Igreja Católica. Espero ver outras participações assim no M@M.
 
15/06/2012
(Genésio)

Boa entrevista. Não sou um leitor constante do Sr Luiz Felipe Pondé, mas considero seus textos de boa qualidade, expressando o seu pensamento de forma clara e agradável. Como é de se esperar de quem possui a sua titulação. À entrevistadora, meus cumprimentos.
 
15/06/2012
(Carlos)

Concordo que o sr. Pondé é um tanto quanto "vasilina", mas sejamos honestos: dado o grau de esquerdismo fanático que impera no mundo cultural e midiático nacional, alguém acredita, em sã consciência, que ele duraria muito tempo batendo de frente com os dogmas dos esquerdopatas? É muito melhor ele atuar da forma que pode, do que não atuar de forma alguma, em defesa da liberdade de pensamento e de preceitos minimamente liberais e até mesmo conservadores.
 
15/06/2012
(Maria Júlia)

Genésio, muito obrigada! Mas, gostaria de estender seus cumprimentos à Editoria e à Redação do M@M. Espero poder continuar a trazer novidades para nossos leitores!
 
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Redação: Paulo Zamboni
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