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O retorno da utopia
- Guy Sorman
A eleição presidencial francesa de 2012 pode ser lembrada não como triunfo da normalidade, mas o passo decisivo da longa marcha dos partidos populistas rumo ao poder.

Embora a França não reivindique mais o centro da cena da História Mundial, ela continua a ser ser influente além de suas fronteiras nacionais. Durante o século XVIII – depois da Revolução, do papel épico de Charles de Gaulle durante a Segunda Guerra Mundial, da descolonização da África e da revolta estudantil de Maio de 1968 – a França tem sido muitas vezes um indicador das profundas mudanças sociais na Europa. A recente eleição presidencial está de acordo com essa tradição?

François Hollande, um burocrata aborrecido, fez a campanha prometendo ser um presidente normal, ao contrário de Nicolas Sarkozy, o presidente vibrante e carismático – e ele é, de fato, ao contrário de todos os seus antecessores desde a introdução da Quinta República em 1959. A vitória de Hollande poderia ser um sinal de que os países democráticos tornaram-se relutantes em serem governados por presidentes ou primeiros-ministros extravagantes ou carismáticos.

Na verdade, em toda a Europa, não há democracia atualmente dirigida por uma personalidade forte ou sedutora. A Itália é governada por uma administração interina mas, no país, os eleitores igualmente parecem ter se cansado de serem governados por um Chefe de Estado marcante. A Europa não tem mais Nicolas Sarkozy, Silvio Berlusconi, mas não há mais figuras como Margaret Thatcher, Helmut Kohl ou Jose Maria Aznar [*]. Em uma época de crise econômica e institucional na Europa, todos esses dirigentes europeus parecem ser, digamos, extremamente normais.

Muitos vão pensar que a vitória da normalidade sobre o carisma é um motivo para se alegrar. A democracia é, afinal, o processo pelo qual os cidadãos normais elegem mulheres e homens normais que governarão por um período de tempo de acordo com as regras estabelecidas.

Mas essa tendência à normalidade dos chefes de Estado europeus coincide com uma notável falta de visão e de estratégia. Se um desses líderes normais tem uma estratégia de longo prazo pela Europa (e alguém pensa que Herman Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, ou Catherine Ashton, alta representante da União Europeia para negócios estrangeiros, tem essa visão?), eles têm evidentemente uma grande dificuldade  para se comunicar.

No caso de Hollande, os poucos vislumbres que ele tem mostrado de uma visão geral lembram a social democracia próspera da França dos anos 60: um Estado de bem-estar social forte, acompanhado de despesas públicas para promover o crescimento e o emprego. A referência de Hollande parece ser o de uma época idílica do pós-guerra de sua juventude, um período de forte crescimento, de renovação demográfica, de imigração restrita e baixa concorrência mundial.

Em outras palavras, Hollande procurou se espelhar em outros dirigentes europeus com a visão de um mundo que não existe mais. Essa política de nostalgia é preocupante, não somente porque a França e a Europa estão enfrentando graves dificuldades econômicas, mas também porque a França e outras democracias enfrentam um questionamento real de sua legitimidade.

Para o futuro, quem sabe, a eleição presidencial francesa de 2012 poderia evocar não a vitória de Hollande e o triunfo da normalidade, mas o passo decisivo da longa marcha dos partidos populistas rumo ao poder. No primeiro turno da eleição presidencial francesa, a extrema esquerda, um conjunto eclético de anticapitalistas e ecologistas, reuniu 14% dos votos. A extrema direita, a Frente Nacional de Marine Le Pen, herdeira política do fascismo francês, conseguiu 18% dos votos, a maior votação já registrada por esse partido.

Em outras palavras, um terço dos eleitores franceses estão atraídos hoje por candidatos com ideologias extremistas que compartilham sua rejeição antiliberal do euro, do capitalismo e da globalização. Cada partido tem suas raízes em um passados idealizado: a extrema direita no Império Francês e na dominação das populações mundiais pela raça branca.

Ambos os extremos estão mais fortemente nacionalistas. Persuadidos de que a França deve agir sozinha, eles estariam dispostos a fechar a economia à concorrência estrangeira para suprimir os mercados financeiros e a enviar os imigrantes ao seu país de origem. Sua convergência vai além da irracionalidade comum dos seus programas políticos. A base do eleitorado de extrema direita e extrema esquerda consiste em numerosos franceses que se sentem economicamente vulneráveis e politicamente excluídos – principalmente todos aqueles que se percebem como não tendo chances em uma sociedade aberta.

O tipo de normalidade de Hollande não convence esses eleitores populistas. Não seria sábio não levá-los a sério porque suas aspirações utópicas são baseadas em medos reais e legítimos. A globalização e o crescimento lento dividiram todas as sociedades europeias – e os Estados Unidos – em duas novas classes sociais: aqueles cuja educação e o capital social lhes permitem lidar com a economia mundial atual, e aqueles que estão presos a subempregos mal pagos, precários (concorrendo diretamente com os empregos dos imigrantes, legais e clandestinos).

Nenhum dirigente europeu tradicional, incluindo Hollande, mencionou essa nova classe. De fato, tanto Hollande como Sarkozy representam aqueles que se adaptaram à globalização e entendem todos os outros como um reservatório de eleitores a serem seduzidos e não como uma nova subclasse em processo de proletarização.

Esta percepção superficial do populismo fez das eleições francesas um sintoma inquietante de uma direção cega da Europa. Uma fachada de normalidade não é suficiente para suportar os perigos reais que ameaçam os próprios fundamentos das sociedades europeias.

 

Tradução: Maria Julia Ferraz

Disponível no blog do autor

 

[*] Governos da Inglaterra, Alemanha e Espanha, respectivamente. Foram excelentes exemplos de governos ligados a bases liberais e conservadoras que marcaram época em seus países. 

 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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