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Almirante Canaris – misterioso espião de Hitler
- Paulo Zamboni
Recorrendo a um intenso trabalho de pesquisa em fontes orais e bibliográficas na Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra e EUA, o autor inglês Richard Bassett procurou lançar alguma luz sobre pontos nebulosos das atividades de um dos personagens mais significativos - e pouco lembrados - da Segunda Guerra Mundial: o almirante Wilhelm Canaris, chefe da Abwehr, a inteligência militar alemã durante o conflito. 

Recorrendo a um intenso trabalho de pesquisa em fontes orais e bibliográficas na Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra e EUA, o autor inglês Richard Bassett procurou lançar alguma luz sobre pontos nebulosos das atividades de um dos personagens mais significativos - e pouco lembrados - da Segunda Guerra Mundial: o almirante Wilhelm Canaris, chefe da Abwehr, a inteligência militar alemã durante o conflito. Segundo Bassett, o trabalho de Canaris foi voltado primordialmente para dois objetivos: 1 – manter um canal de comunicações suficientemente poderoso com a inteligência britânica para possibilitar um acordo de paz com a Inglaterra; e 2 – impedir, por meio de uma série de ações de contra-inteligência, que a Grã-Bretanha fosse decisivamente vencida pela Alemanha, possibilidade mais do que provável, pelo menos nos dois primeiros anos do conflito mundial.

O livro coloca o segundo conflito mundial num novo patamar de compreensão, por considerar que, no final das contas, os serviços de inteligência ingleses e alemães acabaram cooperando ou no mínimo evitaram desferir golpes incapacitadores em seus rivais – pelo menos até meados de 1944, quando a situação militar estava tão desfavorável à Alemanha que um acordo com setores alemães antinazistas havia se tornado dispensável – sendo bem convincente em sua argumentação, embora o autor reconheça que muito do que afirma somente será confirmado quando e se os arquivos mais secretos sobre o período forem tornados públicos em Londres e Moscou.

Mesmo que suas premissas sejam fantásticas à luz do senso comum histórico contemporâneo, onde os papéis dos contendores na Segunda Guerra Mundial são considerados definitivos e muito bem delineados - no caso dos Aliados e soviéticos, uma luta incansável e incondicional para derrotar a Alemanha -, o autor consegue mostrar que não foi bem assim, citando a Itália como exemplo de que até mesmo a noção de “rendição incondicional” era muito elástica, visto que a remoção de Benito Mussolini do poder permitiu que as instituições italianas fossem relativamente preservadas diante da derrota.

O trabalho de Bassett traz uma pequena biografia de Canaris, sua origem em uma família de classe média católica na Alemanha Imperial, e o situa em acontecimentos aparentemente díspares na História: as batalhas entre as marinhas britânica e alemã nos mares da América do Sul durante a Primeira Guerra Mundial  (onde Canaris iniciou positivamente sua carreira de homem da Inteligência Militar); os contatos do almirante com figuras proeminentes do comércio internacional de armas e sua relação com a alta sociedade espanhola (ambas atividades muito facilitadas pela sua fluência nos idiomas inglês e espanhol); e, em particular, a convivência com o General Franco, iniciada durante a Guerra Civil espanhola e que seria mantida durante anos, tendo peso decisivo na manutenção da neutralidade da Espanha durante a Segunda Guerra Mundial, apesar de todas as pressões de Hitler em contrário.

Com credenciais anticomunistas mais do que sólidas devido ao seu papel no esmagamento da revolta espartakista na Alemanha pós-Primeira Guerra – quando funcionou como elemento de ligação entre a Marinha e o Exército - e suposto envolvimento na morte dos líderes comunistas revoltosos Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, Canaris teve trânsito livre nos círculos político-militares alemães do pós-guerra, que percebiam a ameaça do comunismo ao status quo vigente. Preocupado com as ações soviéticas na Europa, estabeleceu vínculos com vários serviços de inteligência de países centro e leste europeus, como a Hungria, Croácia e Finlândia, sendo que na Finlândia houve uma cooperação forte com os britânicos - embora indireta - no monitoramento das forças militares soviéticas. Obteve grande sucesso no trabalho de inteligência contra os ingleses e russos, mas descobriu, horrorizado, que seu maior rival - e, ao mesmo tempo, amigo e velho pupilo dos tempos de marinha: o temível chefe da SD (o serviço de segurança das SS), Reinhardt Heydrich - havia se aproximado do serviço secreto soviético e tido grande papel no episódio do expurgo da alta oficialidade do Exército Vermelho promovido por Stalin no final da década de 1930, evento que abriu os olhos de Canaris aos métodos desonrosos do regime nazista e Hitler, aos quais o velho almirante decidiu se opor manobrando de dentro do aparelho de inteligência alemão, perdendo toda a simpatia que inicialmente nutrira pelo homem que havia livrado o país da vergonha do tratado de Versalhes e que prometia um futuro glorioso para a Alemanha.

Uma hipótese muito bem construída por Bassett é sobre a “proteção” dada pelo chefe da inteligência britânica, Sir Stewart Menzies, ao seu rival da Abwehr. Sabendo que Canaris estava em desvantagem diante de Heydrich, que desejava submeter a agência de Canaris ao seu controle e que isso representaria o fim de qualquer possibilidade de prosseguirem os contatos secretos entre alemães e ingleses, Menzies seria o verdadeiro mandante do assassinato de Heydrich em 1942, num atentado na Checoslováquia, cujo sucesso deu liberdade para Canaris prosseguir suas atividades. O autor ainda demonstra que as tentativas de paz da oposição antinazista ocorreram em dois momentos distintos: antes do começo da guerra, quando havia forte oposição a Hitler dentro do Exército alemão (e quando o ditador poderia ter sido derrubado com relativa facilidade, o que não ocorreu, segundo o autor, devido a falta de ação e hostilidade do governo do então Primeiro Ministro inglês, Chamberlain, em relação aos conspiradores) e durante o conflito, quando a situação dos conspiradores era cada vez mais precária.
 
Nesse cenário, surge um velho conhecido do intrincado jogo da espionagem na Segunda Guerra: o agente britânico Kim Philby - na verdade, agente duplo a serviço dos soviéticos, e por algum tempo também a serviço dos alemães, como revela Bassett ao explicar o papel de Philby no massacre de um grande número de membros da resistência holandesa pela Gestapo – que se dedicou durante o conflito a atrapalhar os contatos secretos entre ingleses e alemães. Também é revelado como Philby, de posse dos nomes de membros da resistência alemã antinazista católica conservadora, obtidos através de agentes da Abwehr que haviam desertado para o lado inglês, entregou-os aos seus patrões comunistas na URSS, permitindo aos soviéticos assassinar ou prender a resistência não-comunista após ocuparem parte da Alemanha no final da guerra.
 
Os primeiros meses de 1943 teriam sido os mais propícios para a realização de um acordo de paz durante a época da guerra, pois a frente de batalha no leste estava virtualmente empatada e havia um clima de franca desconfiança entre ingleses e americanos de um lado, e soviéticos do outro, o que favorecia a posição alemã - foi também nessa ocasião que ocorreu uma tentativa de assassinato contra Hitler que, se fosse bem sucedida, poderia ter mudado os rumos da guerra. O papel do Vaticano e do Papa Pio XII também são mencionados pelo autor, revelando o quanto o Papa esteve próximo de se tornar mais um dos chefes de Estado europeus que conheceram de perto as prisões nazistas.
 
A posição de Canaris foi sendo enfraquecida pela situação militar desesperadora da Alemanha, particularmente no leste, onde o poderio russo tornou-se irresistível após a batalha de Kursk, em julho de 1943, e pelos fracassos de sua organização em prever os movimentos do inimigo - seja porque Canaris assim desejava, para solapar o governo nazista, ou por pura incompetência, expondo o desgaste pelos anos de jogo duplo dentro das engrenagens de um governo totalitário. O fim finalmente chegaria em 1944, com a absorção da Abwehr pelo SD e a prisão do almirante pelas suas ligações com o atentado levado a cabo contra Hitler por oficiais do exército alemão, embora na prisão lideranças nazistas como o chefe das SS, Himmler, tentassem usar o velho militar para obter vantagens de seus contatos com o Ocidente.

A situação de Canaris certamente foi dramática, de um lado tentando fazer um trabalho competente como chefe de um setor vital para o esforço de guerra alemão –  posição paradoxal para quem buscava impedir uma vitória do governo nazista - e de outro procurando uma saída que poupasse seu país do desastre final. Embora simpático ao papel de Canaris (destacando os princípios de honra da velha guarda militar que o guiaram e foram acentuados por ele ser oriundo da oficialidade da marinha real alemã, que tinha orgulho de seus traços em comuns com a Royal Navy britânica) o autor deixa claro que não é possível “beatificar” Canaris, até porque ele viveu e operou em meio a mentiras e sombras.
 
Pelas revelações interessantes, a tese central arrojada – a de que houve durante grande parte da Segunda Guerra uma frenética atividade para um fim negociado do conflito - e a forma leve pela qual é escrito, é um livro que merece ser lido não apenas por apreciadores do tema Segunda Guerra Mundial, mas também pelos que gostam de uma boa obra de história sobre o mundo da espionagem e da geopolítica internacional antes e durante o segundo conflito mundial.
 
 
Autor: Richard Bassett
 
Editora: Nova Fronteira, 2007. 328 páginas.
 



 
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COMENTÁRIOS
12/10/2010
(Luís Eduardo de S. Cabral)

Como pode um chefe de serviço de informações manipular os dados a seu proveito ? Cadê a lealdade, o compromisso, o profissionalismo ? Não importa o lado para quem ele estava lutando, o que importa é que ele estava servindo um país em guerra e como tal deveria ser leal. Isso é traição. É herói porque a Alemanha perdeu e se ela tivesse ganhado, seria o quê ? Não estou defendendo regime ou ideologia alguma, estou falando da obrigatória lealdade do militar.
 
22/06/2010
(vlad)

veja que interessante!!!
 
22/05/2010
(Jomar Grimm)

Devido a estas histórias dizem que a II Guerra Mundial foi a ultima guerra romântica (espionagem e contra espionagem) como se alguma guerra em algum momento foi romântica, mas ao meu ver esta guerra impediu o avanço do comunismo na Europa e quem sabe na América. Tem muita historia a ser escrita sobre este período e esperamos que seja escrita e principalmente divulgada. Caro Jomar Obrigado pela sua mensagem, amigo.. Sinceramente, por tudo que li até hoje sobre o assunto, a impressão que tenho é exatamente a contrária, ou seja, a Segunda Guerra Mundial na verdade serviu para que o comunismo e idéias socialistas se expandissem de forma muito mais rápida e radical. De fato há sim muitas informações sonegadas ou pessimamente interpretadas sobre o assunto, e a este respeito eu convidaria o amigo para ficar atento a uma futura análise do trabalho do professor Antony Sutton No mais, espero que vc continue prestigiando o MÍDIA@MAIS com sua leitura e comentários, ok? Um abraço e obrigado, Paulo Diniz Zamboni - Redação MÍDIA@MAIS
 
14/05/2009
(Eduardo)

O Almirante Canaris também ajudou muitos membros da resistência anticomunista ucraniana, refugiados na Polônia, a fugirem do país quando da invasão alemã, impedindo que fossem entregues a polícia secreta soviética, NKVD, como parte do acordo de divisão do país entre nazistas e comunistas.
 
10/05/2009
(Agapito Costa)

Com referência a conspiração do atentado contra ao Führer, de 20 de julho de 1944 do qual teve participação do Almirante Canaris, ocorreu um fato inesperado o coronel Brandt, tropessou na pasta que continha a bomba trocando-a de posição, colocando do lado oposto do Führer. Este incidente levou ao fracasso de Claus Vom Stanffenberg, autor material do atentado contra Hitler.
 
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