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Citadel, a Batalha de Kursk
- Paulo Zamboni
A grande batalha entre a Wehrmacht – Forças Armadas alemãs - e o Exército Vermelho ocorrida nas primeiras semanas do mês de julho de 1943 representou o ponto de virada na guerra travada na Rússia desde junho de 1941 – muito mais do que Stalingrado, porque em decorrência dela a Alemanha não teve mais condições de resistir na Frente Leste e iniciou o recuo que terminaria em Berlim, em 1945.

Em sua obra Robin Cross relata os detalhes da chamada “Operação Citadel”, nome código dado pelos alemães ao ataque contra as linhas russas em volta da cidade de Kursk. A grande batalha entre a Wehrmacht – Forças Armadas alemãs - e o Exército Vermelho ocorrida nas primeiras semanas do mês de julho de 1943 representou o ponto de virada na guerra travada na Rússia desde junho de 1941 – muito mais do que Stalingrado, porque em decorrência dela a Alemanha não teve mais condições de resistir na Frente Leste e iniciou o recuo que terminaria em Berlim, em 1945.

O livro mostra um exército alemão desgastado pela violência dos combates (com grande carência de infantaria, dependente de cavalos como meio de transporte, a ponto de possuir cerca de 2,5 milhões em uso na Rússia, contrastando com sua fama de poderio mecanizado); afligido por desvantagens táticas e estratégicas – guerra em várias frentes, dissipando recursos bélicos limitados, falta de uma produção de guerra adequada; e, principalmente, a inacreditável confusão existente dentre o alto comando alemão, com disputas, vaidades, interesses e divisões atrapalhando o esforço de guerra que já era limitado. Pairando sobre isso tudo, o ditador Adolf Hitler, estimulando as divisões e totalmente hesitante sobre o que fazer na frente oriental, estabilizada após a vitoriosa contra-ofensiva alemã liderada pelo Marechal von Manstein – considerado o mais capaz chefe militar da Segunda Guerra-, que resultara na retomada da importante cidade ucraniana de Kharkov, em março de 1943.
 
Como exemplo da indefinição de Hitler sobre que medidas tomar no leste, o autor lembra que, ao mesmo tempo em que preparava uma ofensiva cercada de dúvidas como a Operação Citadel, ele teria pensado numa retirada em larga escala na Rússia, como forma de criar uma reserva estratégica para enfrentar os desembarques aliados no ocidente, uma revelação interessante do livro que demonstra que o Führer possuía momentos de lucidez militar passageiros, pois essa teria sido a única ação capaz de dar alguma chance de sobrevida aos alemães na Rússia, ao invés do ataque que acabou sendo lançado.
 
A forma como os ditadores soviético e alemão conduziam as operações militares mostra que  Stalin se saiu bem melhor do que Hitler, cuja personalidade hesitante, megalomaníaca e prolixa contribuiu decisivamente para potencializar os problemas estruturais e de comando do Exército alemão. Assim, enquanto Stalin aprendia com seus erros, e tinha como pagar por eles à custa de centenas de milhares de baixas e da perda de um número imenso de material bélico, Hitler insistia em suas falhas e relutava em tomar medidas corretas, enfraquecendo uma Wehrmacht já seriamente debilitada. Embora quase não aceitasse os pontos de vista de seus conselheiros militares, no caso de Kursk, porém, o ditador nazista deixou-se levar pela opinião de um reduzido núcleo de altos oficiais do exército, que queriam o ataque a qualquer preço, por motivos de prestígio pessoal, ignorando todos os fortes sinais e opiniões, inclusive a sua própria, que eram contra a operação.
 
O fortalecimento do Exército Vermelho é demonstrado como resultado da manutenção de uma produção bélica em larga escala, sustentada pelo acúmulo de suprimentos militares estratégicos no pré-guerra e pelo envio de maciço apoio material americano, além de vantagens geográficas, como o fato de as fábricas soviéticas estarem fora do alcance alemão, nos Urais. O surgimento de um quadro de oficiais superiores competentes, a renovação da força aérea, além do uso da artilharia em massa e da guerrilha como tática de guerra pelos russos também são abordados, revelando o perfil de grande parte da obra de Robin Cross, ou seja, um livro técnico.
 
O autor descreve bem as qualidades e defeitos técnicos e táticos do principal carro de combate soviético, o T-34, embora do lado alemão ele destaque duas máquinas que, de forma alguma, eram a base da força panzer na operação em Kursk, mas que acabaram contribuindo para grande parte da fama dessa batalha: os carros de combate Pantera e Tigre. Ambos eram blindados relativamente novos e pouco usados – na verdade, o Pantera sequer havia sido testado em combate e as implicações dessa situação são mostradas no livro. Muito mais correto teria sido analisar o principal carro de combate alemão da época, o Panzer IV [no livro chamado de “Mark IV”, seguindo a nomenclatura inglesa do veículo], que era usado em quantidades muitos superiores ao Pantera e ao Tigre.
 
Cross dá alguma atenção as diferentes abordagens táticas dos exércitos em confronto, tendo de um lado o Exército Vermelho empregando massas de infantaria, artilharia e blindados, e do outro o Exército alemão, uma força mais leve, rápida e móvel, onde a artilharia deveria acompanhar as unidades ligeiras – daí a importância de canhões de assalto e autopropulsados que o autor descreve com detalhes – e a força aérea, através de bombardeiros de mergulho, fazendo o papel de artilharia pesada para o exército. Também analisa corretamente a importância do preparo humano e da iniciativa individual num combate, ajudando o leitor a entender como os alemães, muitas vezes em desvantagens numéricas avassaladoras diante dos soviéticos, conseguiam vitórias táticas.
 
Embora inove em relação a certos pontos do relato da batalha propriamente dita, quando comparado aos poucos livros em português que tratam do mesmo assunto (em especial o livro Kursk, Morte da Operação Cidadela, editado na década de 1970 no Brasil), Robin Cross, em essência, se rende à clássica visão de que a Citatel foi uma batalha cerrada de blindados, com massas de carros de combate se enfrentando em choques decisivos e com perdas maciças, um quadro que trabalhos mais recentes (o livro de Cross foi publicado originalmente em 1993) editados nos Estados Unidos e Europa demonstram não ter sido exatamente assim.
 
Além de alguns detalhes técnicos que podem desagradar somente ao público mais familiarizado com o assunto e que não comprometem o livro, a tradução deixou a desejar, sendo o ponto fraco da obra, merecendo um trabalho de revisão cuidadoso no caso de uma segunda edição ser editada, para que o leitor comum possa compreender melhor o conteúdo.
 
Mesmo com as ressalvas apontadas, Citadel – A Batalha de Kursk é um livro interessante sobre uma das batalhas mais importantes da Segunda Guerra Mundial, que oferece informações novas para o público aficionado e introduz bem no tema o leitor iniciante.
 

 

Citadel – A Batalha de Kursk
 
Autor Robin Cross
 
Editora Biblioteca do Exército Editora 2008. 259 páginas
 
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COMENTÁRIOS
03/02/2015
(Agapito Costa)

Vários foram os fatores que contribuíram para a derrota da Werhrmacht, frente ao exército vermelho. Vejamos: Wehrmacht, efetivo 900.000. Canhões, morteiros etc... 10.000. Tanques e canhões de assalto 2700, aviões 2500. Exército vermelho: efetivo 1.337.000, Tanques e canhões de assalto 3.306. Canhões morteiros etc... 20.220. segundo a terminologia Douhert, Luftwaffe,foi criada para emprego tático e não estratégico. Porém na minha opinião o fator decisivo foi a contribuíção do serviço de espionagem de Rudolf Rösseler, famoso "LUCY". "Operação Cidadela"

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Prezado Agapito obrigado pelo envio de seu comentário. Na verdade a superioridade soviética sobre os alemães na época de Kursk em número de tropas, artilharia e blindados ainda não tinha o caráter arrasador que adquiriria a partir de 1944. A grande diferença em favor dos soviéticos é que eles tinham uma produção bélica muito superior a alemã - a produção de carros de combate russos em meados de 1943 era de quase 2 mil mensais, sem contar os blindados enviados pelos aliados ocidentais -, contra no máximo 500 veículos produzidos pelos alemães mensalmente, o que permitia aos russos não só repor mas também ampliar seus efetivos em blindados. O mesmo se aplicava a produção de artilharia, aviões e armas portáteis. Certamente não lançar uma ofensiva estratégica teria sido a decisão mais correta a ser adotada pelos alemães, pois preservaria uma reserva mínima de veículos blindados e infantaria que permitiriam, sob as condições táticas ideais, desgastar os efetivos superiores dos russos, que cresciam não só em material bélico, mas também em infantaria, na medida que os russos mobilizavam mais e mais recrutas ao longo de todo o país e das áreas que retomavam aos alemães. A ofensiva em Kursk simplesmente desgastou a pequena reserva que os alemães haviam formado, e suas forças enfraquecidas eram cada vez mais dispersas a medida que novas frentes surgiam, como a Itália, Balcãs, França além da violenta ofensiva  aérea aliada sobre a Alemanha. Quanto ao agente comunista Lucy, há sérias dúvidas sobre se ele realmente teve o papel decisivo na batalha de Kursk que comumente lhe é atribuido. O livro de Robin Cross trata desse assunto e há bons livros mais recentes sobre a batalha que também questionam isso de forma bem convincente. No mais, espero que você continue entrando em contato e acompanhando o trabalho do Mídia @ Mais. Um abraço Paulo Zamboni

 
11/01/2010
(Eduardo)

Prezados: sobre o livro comentado pelo leitor Uma guerra desconhecida, trata-se de uma obra fortemente carregada de viés esquerdista, onde a velha linha de pensamento segundo a qual os nazistas e as potências ocidentais sempre flertaram e visavam uma única coisa, a destruição do comunismo soviético, é a linha mestra. Ao invés de esclarecimentos, na verdade o livro vende antigas idéias como sendo novidades.
 
09/01/2010
(aafonso .sousa)

-Para melhor informação o livro de 1939-1945 - Uma Guerra Desconhecida Paul-Marie de la Gorce.
 
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