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Resenha do livro “Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo”
- Maria Julia Ferraz
 Pensar sobre o islamismo moderno é refletir sobre um dos vetores fundamentais da geopolítica atual. Por isso, o livro do francês Gilles Kepel, Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo, (Ed. Biblioteca do Exército Editora, 2003, 572 páginas), é perfeito para aqueles que anseiam entender os motivos que levam homens matarem e morrerem em nome de Alá.

 Pensar sobre o islamismo moderno é refletir sobre um dos vetores fundamentais da geopolítica atual. Por isso, o livro do francês Gilles Kepel, Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo, (Ed. Biblioteca do Exército Editora, 2003, 572 páginas), é perfeito para aqueles que anseiam entender os motivos que levam homens matarem e morrerem em nome de Alá.

Nesta obra, o autor parte da análise do terrorismo (e em sua manifestação máxima no 11 de setembro de 2001) que possui dois objetivos centrais:

Aterrorizar o adversário (típico de qualquer atentado terrorista, ministrar o medo em ações surpresas e cruéis);
 
Mobilizar o apoio daqueles “que os terroristas tentam levar para o seu lado, galvanizá-los através desse ato de violência exemplar, que traz em si a promessa de uma vitória próxima, que os convida a aderir à causa com o coração e muito entusiasmo” [1].
 
E é sobre o segundo objetivo que Kepel, analisando Osama Bin Laden e sua Jihad Moderna, vai reconstituir o processo histórico recente da religião muçulmana, principalmente no que se refere aos movimentos muçulmanos, desde o fim do colonialismo. Dessa forma, o livro demonstra com fatos que o terrorismo[2] é um reflexo, uma tentativa desesperada de movimentos político-religiosos que partiram para a violência justamente por estarem em decadência.
 
Por isso, o início do livro faz uma breve reflexão sobre os atentados de 11 de setembro de 2001 e a partir deles, Kepel traça um histórico da trajetória islâmica divida em dois momentos distintos: a expansão desde o fim do colonialismo e o declínio (que teve como marco inicial a invasão do Kuwait pelo Iraque no início da década de 90).
 
Assim, ao tratar da expansão, o autor parte da revolução cultural (que é o primeiro capítulo), destacando como a Irmandade Muçulmana foi o grande embrião do Islamismo. Nesse aspecto, a linguagem do Islã conseguiu suplantar o nacionalismo que surgia em muitos países após o fim do colonialismo moderno. E é através de uma linguagem religiosa que os jovens vão ser cooptados e a possibilidade de um Estado Laico dá lugar à promessa de um Estado Islâmico.
 
Percebe-se, nesse contexto, que a sustentação para os movimentos islâmicos mais radicais contaram com três fatores que ganharam força principalmente após 1970:
 
-o desmantelamento da classe média (empresários e profissionais liberais);
 
-o desencanto da juventude urbana (no capítulo sobre a Argélia e o Sudão isso é explicado de forma irretocável);
 
-E a tomada da liderança do movimento islâmico pelos intelectuais teocráticos (como exemplo magno, a Revolução Iraniana).
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Pode-se perceber, portanto, que não é o mero fervor religioso que motiva os muçulmanos ao fundamentalismo. As questões políticas permeiam todo esse processo, justamente ao lado de questões econômicas. Não é à toa que o autor, ao mesmo tempo em que destaca o surgimento de três grandes filósofos islâmicos (Sayyid Qutb, Mawdudi e Khomeini) que serviram como fontes de pensamento desse Islã Moderno, analisa também o que chama de “petro-Islã” afirmando que não se pode reduzir o surgimento do islamismo político (principalmente na década de 70) a um movimento revolucionário graças à somente sua habilidade na utilização de slogans religiosos. Para uma análise completa é preciso compreender quais foram os grupos que se engajaram no movimento islâmico, como foram traçadas as alianças e porque alguns movimentos foram esmagados pelos regimes que estavam no poder enquanto outros conseguiram dar continuidade ao processo revolucionário. Por isso, o autor discute desde a crise do nacionalismo árabe, a penetração de intelectuais de esquerda na região e os efeitos dos conflitos com Israel.
 
Somente depois de toda essa extensa explicação, que permite ao leitor compreender boa parte da problemática do Oriente Médio em geral, é que o autor avança sua análise para o Egito, a Malásia e o Paquistão, destacando a trajetória histórica desse último, considerado um país jovem e caótico (e fundamental para a base da Al Qaeda no contexto em que o livro foi publicado).
 
É dentro desse processo de crise do nacionalismo, pobreza e sedução da linguagem religiosa, que a figura de Khomeini é emblemática, já que consegue depor o governo do Xá Reza Pahlavi e instaurar, através de uma revolução popular, um Estado Teocrático (que deveria ser visto como um retorno aos primórdios da religião do Profeta).[3]
 
Apesar de inspirador, Khomeini não teve o efeito esperado (inclusive por muitos intelectuais, como já foi analisado através do livro Foucault e a Revolução Iraniana) [4] e sua revolução não foi um modelo de sucesso, apesar do incentivo à Jihad e à perseguição aos infiéis amplamente difundida por ele (em um dos casos mais graves, pode-se citar as ameaças e atentados sofridos pelo autor do livro Versos Satânicos, Salman Rushdie).
 
Para o autor, é o caráter imprevisível que a Revolução Iraniana adquiriu que é importante analisar, pois começou a preocupar os países aliados do mundo muçulmano, desestabilizando aliados dos Estados Unidos e favorecendo a entrada do governo soviético na região. Isso explica a presença da União Soviética no Afeganistão como uma tentativa de socorrer um regime aliado que se encontrava em dificuldades, como ocorrera na intervenção soviética na Tchecoslováquia em 1968, durante a “Primavera de Praga[5]. O regime comunista afegão havia sido implementado em abril de 1978 e estava em “trajetória suicida” [6], fazendo com que os soviéticos lançassem essa desastrosa intervenção. No cenário mundial, a presença soviética em território afegão foi entendida como uma forma de extensão de poder e acesso aos “mares quentes”, ocasionando mais um problema na região e posterior fracasso dos planos soviéticos no Afeganistão, chamado pelo autor de “Vietnã soviético”.[7]
 
Sobre o islamismo na África, Kepel analisa detalhadamente a guerra civil na Argélia a partir de uma revolta protagonizada pelos jovens de uma classe social que o próprio sistema havia excluído (hitistas, jovens desempregados que passavam o dia encostados nos muros - hit).
 
O autor afirma que durante os governos de Ben Bella  e de Boumedienne - estabelecidos após a independência -, a Argélia (tal como outros países islâmicos) foi uma petrodemocracia popular, já que a questão petrolífera "comprava" a paz social. Era um jogo composto de socialismo e subsídios, em que o fator religioso não era necessariamente determinante. Assim, o problema não era inicialmente de ordem religiosa, e sim contextual: dificuldades econômicas, crescimento demográfico e, finalmente, a partir de 1986, a queda dos preços do petróleo que fez com que a economia planificada ruísse. Nesse ambiente extremamente degenerado, são os jovens argelinos que foram para as ruas, muitos tomados de um vigor religioso que funcionava como a grande promessa de salvação para um país com problemas sociais e econômicos tão sérios. É dentro desse contexto que podemos citar a presença de uma ideologia religiosa mais rigorosa se comparada com a presença da FLN (Frente de Libertação Nacional) que proclamou a insurreição de 1954 "em nome de Alá" sem que fosse transformada em um movimento religioso.
 
É na década de 1980 que a militância islâmica começou a se consolidar na Argélia e, mesmo assim, dividida: um grupo extremista e outro de tendência reformista. Em 1989, nasce a FIS (Frente da Salvação Islâmica), multifacetada, com o islamismo crescendo no país após 1989, transformando jovens desfavorecidos em heróis de virtude, dando uma roupagem moral aos conflitos sociais.
 
Na segunda parte, finalmente é demonstrada toda essa decadência a partir da Guerra do Golfo, precipitada pela invasão de Saddam Hussein ao Kuwait, e como esse fato desequilibrou as tentativas de paz na região.
 
Desse momento em diante houve a proliferação do conceito de Jihad Moderna, o crescimento de grupos cada vez mais radicais e o uso do terror como arma tornou-se preponderante, revelando não uma força, mas sim desespero de causa, devido à fragmentação vivida pelo mundo muçulmano em termos de territorialidade, unicidade de fé e valores religiosos.
 
Ao invés de reconhecer o problema como algo inerente ao próprio mundo muçulmano, os grandes culpados passam a ser os países ocidentais, principalmente o grande Satã, Estados Unidos. Assim, não era de se surpreender um ataque no inimigo mortal da “fé islâmica” como forma de se tentar angariar simpatizantes a essa guerra santa moderna.
 
É nesse processo de decadência dos movimentos islâmicos que a figura de Osama Bin Laden aparece como a liderança que poderia enfrentar os Estados Unidos da América e, ao surpreender o mundo com os ataques terroristas aos símbolos americanos, sugere que os movimentos radicais estão ganhando espaço. Não obstante, eles apenas refletem uma tentativa desesperada de atrair jovens através da exacerbação do martírio e confundir a opinião mundial ao promover a culpabilização da vítima, como aconteceu no caso do 11 de setembro, em que muita gente entendeu que a série de ataques era culpa dos Estados Unidos por conta das intervenções no Oriente Médio e de sua política internacional.
 
O livro ainda traz uma interessante análise daquilo que Kepel chama de “ilusões de paz” entre Israel e os palestinos e como os ataques suicidas acabam por permitir análises superficiais do conflito naquela região, por conta da figura do martírio desesperado que os homens bombas despertam no mundo.
 
Finalmente, analisa a questão da prosperidade turca relacionando-a com uma forçada secularização promovida durante a década de 90.
 
A obra é extensa, mas importantíssima para quem quer entender objetivamente o que se passa na região. Afinal, tal como conclui Gilles Kepel: “a chama do terrorismo e da violência não está extinta, principalmente enquanto durar aberta a ferida do conflito entre Israel e Palestina. Mas, a violência em si, como vimos na segunda parte deste livro, foi uma armadilha fatal para o conjunto do movimento islâmico, impedindo-o de reunir e de mobilizar simultaneamente os diferentes grupos sociais necessários à conquista do poder.” [8]

 


[1] KEPEL, Gilles. Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo. pág. 18.
 
[2] Mais informações sobre a questão no artigo de Daniel Pipes: http://www.midiaamais.com.br/oriente-medio/274-os-limites-do-terrorismo
 
[3] Para desqualificar o Estado laico foi criada uma expressão que era altalmente pejorativa e era utilizada para ser referir aos árabes antes de Maomé (lembrando que este foi o unificador das tribos semi-nômades que ocupavam a Península Arábica): jahiliyyah.
 
[5] tentativa de estabelecer um “socialismo de face humana” na antiga Tchecoslováquia. Esse movimento foi massacrado pela invasão soviética.
 
[6] KEPEL, Gilles. Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo. pág. 213
 
[7] Alguns historiadores analisam que o processo de ocupação e retirada das tropas soviéticas na região tiveram grande impacto na queda do regime soviético, que já enfrentava vários problemas de ordem política, social e econômica.
 
[8] KEPEL, Gilles. Jihad - Expansão e Declínio do Islamismo. pág.560
 



 
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COMENTÁRIOS
16/06/2011
(Júlio Moura)

O argumento central do livro está errado. O Islamismo não está em declínio. Está em ascenção, cooptando mais adeptos a cada dia no mundo todo. Se está em decadência, depende do ponto de vista: será que o Cristianismo também entrou em decadencia após tantos cismas e dissidências? Prezado Júlio: Gratos pelo contato. A idéia central do livro é que o islamismo não tem força verdadeira justamente porque se utiliza do terror e violência, sem encarar de frente seus problemas internos. Deixando de lado o uso do terror e violência, e enfrentando esses problemas, o Islã é sim uma força, como analistas do nível de um Daniel Pipes já deixaram claro em vários artigos publicados neste M@M. Convidamos o amigo a continuar participando com seus comentários e visitas aos artigos. Atenciosamente Redação MÍDIA@MAIS
 
14/06/2011
(Danilo Luís)

Muito boa resenha. Resta-nos esperar para ver o que vai ser do Oriente Médio depois dessa onda de revoluções e se o Islã vai pegar "carona" nisso..
 
11/06/2011
(Smart Bit)

Ótima resenha!
 
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