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Resenha do livro Foucault e a Revolução Iraniana - As Relações de Gênero e as Seduções do Islamismo
- Maria Julia Ferraz
“O autor é, portanto, a figura ideológica pela qual se marca a maneira como tememos a proliferação do significado”. Michel Foucault Eum momento em que as tensões no Oriente Médio ganham cada vez mais espaço na mídia brasileira, é de extrema importância utilizar a História como instrumento preciso (e precioso) de reflexão sobre os acontecimentos.

“O autor é, portanto, a figura ideológica pela qual se marca a maneira como tememos a proliferação do significado”. Michel Foucault

 

Em um momento em que as tensões no Oriente Médio ganham cada vez mais espaço na mídia brasileira, é de extrema importância utilizar a História como instrumento preciso (e precioso) de reflexão sobre os acontecimentos.

 
Assim, desde que as manifestações no Egito culminaram na deposição de Muhammad Hosni Mubarak e na Líbia os conflitos cada vez mais violentos castigam a população (principalmente a parte mais frágil - mulheres e crianças), é impossível não pensar na Revolução Iraniana e suas consequências como referência para ler criticamente as notícias sobre as manifestações populares no mundo islâmico.
 
Dessa maneira, é muito bem-vindo um dos mais recentes lançamentos da Editora É Realizações: Foucault e a Revolução Iraniana, as Relações de Gênero e as Seduções do Islamismo (Janet Afary & Kevin B. Anderson; Editora É Realizações, 480 páginas; 1ª  Edição - Brasil, 2011), obra em que os autores analisam a produção jornalística do pensador Michel Foucault quando ele era correspondente dos jornais Corriere della Sera e do Nouvel Observateur na época em que o Xá Mohammad Reza Pahlevi foi deposto e o Irã tornou-se uma República Islâmica.
 
O livro não se propõe a analisar a revolução em si[1]. Os autores, Janet Afary, uma proeminente estudiosa sobre as relações de gênero e Kevin Anderson, sociólogo estudioso do marxismo, demonstram como a análise superficial acerca dos acontecimentos presentes pode ser hipnótica e com tendência ao erro, mesmo quando o escritor é alguém bem conceituado no meio acadêmico, como é o caso de Michel Foucault.
 
Logo na introdução, Afary e Anderson analisam que o interesse de Foucault na Revolução Iraniana foi mais que uma curiosidade jornalística: já havia certa simpatia do pensador francês pelo Oriente, algo que também é de concordância por parte de estudiosos brasileiros que se dedicam a estudar Foucault[2]; afinal, para esse filósofo, o mundo ocidental apresentava uma profunda crise depois do fim do colonialismo na década de 1960. Essa simpatia prévia o levou a se encontrar com o aiatolá Khomeini, quando este ainda estava no exílio, para uma conversa. E, possivelmente, foi essa simpatia que o impediu de enxergar que a revolução iraniana se transformava rapidamente em um governo tirânico.
 
Dessa forma, o Oriente é sedutor para o pensamento foucaultiano porque pressuporia uma alternativa ao modo de vida ocidental. No entanto, é possível perceber que muitas vezes essa noção de Oriente e Ocidente para Foucault não está presa a algo geográfico. Em obras como História da Sexualidade[3], por exemplo, ele orientaliza Roma ao falar da questão sexual. Justamente por isso, nessa análise, que adentra o primeiro capítulo, os autores mostram que há certo paradoxo na obra do pensador francês; ele seria um grande admirador da cultura oriental, vivendo como um típico homem do Ocidente.
 
Outro fator analisado pelos autores do  livro é que Foucault sempre teve uma tendência a valorizar tudo o que flertava com os limites, com a morte e com o martírio. Por essa ótica, uma revolução nos moldes apresentados pela iraniana servia como uma luva para que ele exemplificasse suas ideias.
 
O problema é que até quando a esquerda simpatizante ao Aiatolá começou a criticá-lo pelo seu reinado de terror, Foucault insistia em sua visão parcial sobre o regime.
 
Segundo os autores dessa análise crua dos textos de Michel Foucault, o fato de ele apresentar algumas críticas à forma de como o racionalismo se impõe no mundo de herança vitoriana pós-Revolução Francesa o levou a romancear o tempo anterior às instituições jurídicas trazidas com as revoluções de caráter liberal e a ignorar a representação do sexo feminino, principalmente naquilo que se refere à defesa contra abusos de ordem sexual. E, mesmo em relação às questões ligadas à defesa em relação dos abusos cometidos contra crianças, a posição dele é muito ambígua, para não dizer inquietante, já que se opôs a uma campanha para criminalizar atos sexuais entre adultos e crianças abaixo da idade de quinze anos na França, pois “a sexualidade não era o negócio da lei (Alcoff, 1996)” [4].
 
Ou seja, por esse aspecto, não era de se estranhar que Foucault desconsiderasse o tormento trazido às mulheres islâmicas pelo regime dos aiatolás.
 
Em muitos pontos, é perfeitamente possível reconhecer certa “androcentricidade velada”[5] que o tornava insensível às causas femininas. Mais uma vez, isso o aproximou da parte mais cruel do Islamismo que só por uma perspectiva muito relativista (e sem historicidade) pode ser considerada como conjunto de uma cultura a ser respeitada.
 
Outro ponto destacado e analisado por Janet Afary e Kevin Anderson é o dos rituais que tanto despertavam interesse na visão foucaultiana. No capítulo intitulado Procissões, Encenações de Paixão (capítulo 2) é feita uma profunda análise de como rituais religiosos levam a uma comoção coletiva que, em alguns casos, pode ser extremamente prejudicial. Unir a essa comoção levantes políticos pode cegar. No entanto, para Foucault era justamente essa a grande atração, a alternativa à política secular, racional, punitiva e controladora que a grande massa iraniana representava (alguma semelhança com o Egito atual? Com a Líbia?).
 
Até aí é possível compreender a sedução que o Islã representava, mas começa a ficar cada vez mais incômoda para o leitor (seja ele admirador ou não de Foucault) a postura pouco crítica que se espera de alguém formador de opinião e com um conhecimento filosófico como o de Foucault. Até porque, mesmo para esquerdistas como Eric J. Hobsbawm, o Aiatolá representava um retorno às trevas (é assim que ele analisa a Revolução Iraniana no livro A Era dos Extremos - O Breve Século XX).
 
É importante ressaltar que, durante a publicação de todos esses artigos de Foucault, muitas foram as críticas feitas a ele e não apenas de liberais. Marxistas como Maxime Rodinson, feministas como Atoussa H. (iraniana) e estudiosos da Escola de Frankfurt tentaram entender como alguém que analisava criticamente a violência como instrumento do Estado (como não perceber a influência de Althusser nesse contexto?) deixou-se encantar por uma forma de domínio violenta como o Irã mostrou ao mundo.
 
Depois de tantos questionamentos, artigos desfavoráveis à sua posição e da continuidade de uma política aterrorizante por parte do Aiatolá Khomeini, Foucault faz uma crítica ao Irã e finalmente silencia sobre questões políticas. É o início da década de 1980 e muita coisa no mundo estava em plena transformação. Talvez o silêncio tenha sido uma forma de retratação sábia de quem escreveu tanto sobre o silêncio acerca da sexualidade infantil, mas, calou-se diante dos abusos de todos os tipos na estrutura do Estado Teocrático iraniano.
 
Com um layout muito agradável, o livro requer um conhecimento prévio sobre filosofia, mas seu vocabulário não é rebuscado, muito menos hermético. A verve dos dois autores é envolvente e as obras de Foucault são citadas (com as devidas fontes bibliográficas), e analisadas para tentar responder ao questionamento levantado ainda na introdução: por que o interesse pela Revolução Iraniana e não a Nicaraguense? O que havia no Irã, ou no Aiatolá que seduziu tanto esse crítico de sociedades punitivas e vigilantes?
 
Em cada um dos cinco capítulos, questões políticas, históricas e sociais são colocadas como parte de uma argumentação que objetiva analisar como muitas das análises sobre o Islamismo são parciais. Há, inclusive, um epílogo muito esclarecedor que vai traçar um histórico da Revolução Iraniana ao 11 de setembro, destacando o papel dos aiatolás no reforço da importância do Jihad e do martírio no recrutamento de jovens que abraçam a guerra santa como forma certeira de chegar ao paraíso. Ou seja, outro aspecto interessantíssimo dado ao suposto ataque que matou Osama Bin Laden e toda a discussão que isso tem gerado.
 
Finalmente, o Apêndice traz a coletânea de todos os artigos escritos por Michel Foucault antes, durante e depois da deposição do Xá Pahlevi, suas discordâncias com outros filósofos e um discurso da feminista Simone de Beauvoir, permitindo ao leitor suas próprias conclusões sobre os artigos analisados.
 
É interessante pensar no argumento dado pelos autores do porquê eles resolveram analisar e publicar esse lado menos conhecido de Foucault. Segundo eles, ignorar uma parte da publicação de determinado autor é fazer uma montagem ideológica e idealizada sobre uma imagem. E para isso usam o argumento do próprio filósofo, transcrita aqui antes mesmo de iniciar a resenha. Que possamos aprender com isso.

 


[1] Para o leitor que quiser uma introdução sobre a Revolução em si, sugerimos o livro Tempos Modernos do historiador inglês Paul Johnson (JOHNSON, Paul. Tempos Modernos - O Mundo dos Anos 20 aos 80. RJ: Editora do Exército e Instituto Liberal, 1994. págs 597-598.)
 
[2] Há um número da revista Mente, Cérebro & Filosofia dedicada a Michel Foucault e serve como uma introdução à obra do pensador e onde é possível confirmar essa afirmação, lembrando que os artigos são escritos por estudiosos simpáticos a Foucault. Mente-Cérebro & Filosofia, número 6, Editora Duetto.
 
[3] FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993
 
[4] AFARY, J. & ANDERSON, K. Foucault e a Revolução Iraniana. São Paulo: Editora É Realizações, 2011. pág. 59.
 
[5] idem. pág. 57.

 

 



 
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COMENTÁRIOS
15/05/2011
(@)

Concordo com os autores do livro utilizarem o argumento próprio do filósofo, isso faz com que o livro seja informativo e não doutrinário, não é mesmo? Não sabia sobre esse aspecto de Foucault, adorei o texto é a primeira vez que leio um texto seu por aqui e adorei! Parabéns pela facilidade nas palavras!
 
15/05/2011
(Smart Bit)

Parabéns pela resenha! Fiquei curioso para ler o livro.
 
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Redação: Paulo Zamboni
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