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Resenha do livro Estudo Histórico sobre a Guerra Antiga
- Maria Julia Ferraz
Estudo Histórico sobre a Guerra Antiga de João Batista Magalhães (2a. Edição; Editora Biblioteca do Exército, 2006; 357 páginas) é muito mais que o estudo acerca da arte bélica durante a antiguidade clássica. É a possibilidade de entrar em contato com a visão de mundo dos responsáveis pelo formação de nossa própria cultura e identidade.

Estudo Histórico sobre a Guerra Antiga de João Batista Magalhães (2a. Edição; Editora Biblioteca do Exército, 2006; 357 páginas) é muito mais que o estudo acerca da arte bélica durante a antiguidade clássica. É a possibilidade de entrar em contato com a visão de mundo dos responsáveis pelo formação de nossa própria cultura e identidade.

Para isso, o autor desvenda ao leitor o brilhantismo do mundo antigo desde os tempos imemoriais retratados em Homero em sua Ilíada e demonstra que a guerra, mais que uma relação de poder em momentos de conflitos, é, em sua gênese, uma arte em que os combatentes ansiavam pela glória que só a aretê[1] poderia proporcionar.
 
Dono de um conhecimento admirável acerca do período clássico, não é à toda que J.B Magalhães parte de Homero para poder apresentar ao leitor seu estudo, afinal, todo grande combatente da antiguidade via nos heróis da Ilíada exemplos personificados de astúcia, thimé[2], sagacidade e coragem (tanto entre os gregos, como entre os troianos, vide Heitor e Anquises).
 
É dessa forma que na introdução faz uma análise da formação educacional de um guerreiro helênico, destacando a importância que a poesia homérica teve na formação do caráter do hoplita, o que se estendeu até ao legionário romano (há um trecho em que ele destaca o fato de Aristóteles ter colocado nas mãos daquele que seria seu mais famoso aluno, Alexandre, justamente a Ilíada).
 
Interessante observar que o fato de tomar como ponto de partida a questão literária não resultou em perda do foco analítico. Pelo contrário. A introdução realmente permite que a compreensão do leitor sobre os capítulos subsequentes seja completo.
 
Como um bom referencial histórico, o livro apoia-se nessa introdução-justificativa sobre a importância da formação do soldado e apresenta aí as fontes históricas que falarão por si mesmas ao longo do livro.
 
Situa Homero, mas é na objetividade de nomes como Xenofonte, Políbio e Vegécio que o perfil da falange e da legião vão ser apresentados para mostrar como a formação militar ainda tem muito daquilo que permeou a vida de nossos antepassados.
 
O texto do livro é de 1948 e foi escrito em forma de artigo para a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, volume 198, mas é impressionante como seu conteúdo consegue ser atemporal.
 
Talvez uma das grandes virtudes do livro seja também esta: mostrar o quanto a história é importante na formação de todo cidadão, seja ele civil ou militar. E em tempos de crise, essa importância é multiplicada pela profundidade da degeneração das instituições presentes. Não à toa, o primeiro historiador retratado e reproduzido é Xenofonte que viveu os dias que anunciavam o enfraquecimento da pólis grega como principal unidade administrativa.
 
Xenofonte acompanhou a Guerra do Peloponeso (chamada por muitos historiadores de suicídio grego por causa do seu caráter desagregador) e foi grande admirador dos homens fortes da Pérsia, tendo combatido no exército de Ciro.
 
No entanto, seu grande mestre foi Sócrates.
 
Ao discorrer sobre a vida de Xenofonte no capítulo intitulado “Breve notícia acerca de Xenofonte” a figura de Sócrates surge como o mestre que marcará para sempre a vida do mais importante historiador militar da Grécia Antiga. É assim que o livro permite que consiga-se diferenciar estruturação de duas das mais importantes cidades-Estados da Hélade: Esparta e Atenas.
 
É lugar comum ao se falar de Esparta lembrar da severíssima disciplina militar, cujas origens está ligada à figura de Licurgo. Os estudos modernos demonstram que é provável que a figura do Rei Licurgo seja lendária e que em sua pessoa reúnam-se legados de vários reis. No entanto, esse é um mero detalhe diante da comparação traçada com o ateniense Sólon.
 
Para Magalhães o comunismo[3] de Licurgo e sua intensa regulamentação na vida do cidadão espartano, inclusive sobre o incentivo à riqueza, impediram que a evolução militar de Esparta fosse tão completa como a dos atenienses, vindo a desenvolver-se de forma mais completa posteriormente.
 
Durante a época arcaica, ainda sob o severo governo de Drácon, Atenas era regida pelo código draconiano e Sólon, ao assumir a república, tratou de coibir “os abusos e malefícios da riqueza mal adquirida, mal compreendida e mal empregada” [4]. Sem os exageros de Licurgo, Sólon eliminou os privilégios de nascimento. Tudo isso muito bem fundamentado na atuação do Areópago.
 
A etapa seguinte do livro é mostrar que Sócrates também promoveu sua maiêutica ao inquirir muitos jovens hoplitas sobre seus conhecimentos de guerra e ao cabo desses diálogos fica claro o que ainda faltava para que a formação pudesse ser completa. Chama a atenção a relação estabelecida entre o pensar filosófico e a guerra. Na antiguidade os filósofos não deixavam de ser combatentes acima de tudo. Havia um refletir prático na concepção filosófica.
 
A partir disso, é Xenofonte o guia sobre como se estruturava desde a infantaria até a cavalaria, incluindo aí um completo tratado de equitação que revela o profundo conhecimento do historiador grego sobre cada detalhe que deveria cercar homens e animais durante a guerra.
 
Ainda defende a caça como um grande exercício de sobriedade para a guerra, explicando esse assunto em mais um tratado.
 
A segunda parte discorre sobre Políbio, situando-o no contexto da grandeza romana em sua plena expansão. É reconhecido que são as instituições republicanas que presentearão o Império com a chamada pax romana, dessa forma, nada como conhecer o início desse processo através da Segunda Guerra Púnica, relatada pelo historiador citado.
 
Não há um manual de guerra como o que se encontra com Xenofonte e Vegécio. Então, é na narrativa das vitórias de Aníbal sobre Roma que Políbio destaca quais são as principais virtudes de um guerreiro. Até porque o final da batalha é de sucesso dos romanos que muito aprenderam com as sucessivas derrotas impostas pelo general cartaginês.
 
Para quem gosta de história esse capítulo é um verdadeiro presente.
 
Na parte seguinte, dedicada a Vegécio o próprio autor comenta o período marcado pela crise do Império Romano. Dessa forma, o tom de Vegécio é de quem olha o passado para destacar a grandiosidade presente na nação romana que levou ao domínio do Mare Nostrum[5] e os território banhados por ele, tentando assim fazer ressurgir a antiga virtú.
 
Tal como acontece com Xenofonte, Vegécio deixou um legado extenso sobre a arte da guerra em si.
 
Para completar esse grandioso estudo sobre a antiguidade, J.B Magalhães lança um olhar sobre o Oriente, através do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu, deixando para o leitor as conclusões que a arte da guerra pode ensinar.
 
Por causa de todo esse detalhamento, o livro é uma primorosa obra de arte que também faz refletir sobre a situação atual em que a degeneração de tantos aspectos institucionais vêm disfarçados com a bandeira da liberdade e igualdade, impedido uma reação reflexiva e prática sobre aspectos que a história está aí para demonstrar que podem ser fatais.
 
Por tudo isso o referido livro é fundamental não apenas para aqueles que gostam de história militar, mas principalmente para os que querem entender como nascem as grandes civilizações.
 

 


[1] Não há na língua portuguesa um equivalente exato para essa expressão; mas a palavra “virtude” em sua ampla significância acerca do mais alto ideal cavaleiresco e ao heroísmo guerreiro dão conta de explicar o que era aretê para os gregos, segundo Werner Jaeger em seu livro Paideia - A Formação do Homem Grego, Ed. Martins Fontes; pág. 25.
[2] honra em grego
[3] Deve-se destacar que o conceito de comunismo aqui utilizado é por conta da ampla regularização a que o espartano estava submetido em relação ao Estado.
[4] pág. 50
[5] Denominação dada pelos romanos para o Mar Mediterrâneo em seu processo de expansão territorial
 



 
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COMENTÁRIOS
24/04/2011
(Maria Júlia Ferraz)

Sobre a questão de Licurgo, é possível sim que ele tenha existido no início do período que chamamos Arcaico, que é justamente o da organização da Pólis. O mais provável é que isso tenha ocorrido entre os séculos IX - VIII a.C. No entanto, o que os historiadores deixam claro é que, tal como acontece com Homero em relação à literatura, Licurgo encarna toda a organização da pólis espartana que poderia ter ocorrido ao longo de vários reinados e não apenas durante um único governo. No entanto, por conta de sua força e carisma houve essa atribuição a Licurgo. O comunismo recebeu a nota porque o próprio autor refere-se assim a Licurgo, dada a valorização da regulamentação do Estado na vida do indivíduo, ressaltando a partir daí a grande diferença entre ele e o ateniense Sólon, que adotou medidas diferentes, principalmente no que se refere ao incentivo da riqueza. A nota foi para que a expressão não soasse  anacrônica, pois o grande público associa o comunismo apenas à teoria conhecida assim a partir do século XIX, principalmente depois de Marx e Engels.
 
22/04/2011
(Marcos)

Boa tarde. Onde posso adquirir um exemplar deste livro? Prezado Marcos: Obrigado pelo contato. Tente no seguinte link http://www.bibliex.com.br/job/index.php?id=1&l_id=16 Anteciosamente Redação MÍDIA@MAIS
 
22/04/2011
(Agapito Costa)

Há duas citações que merecem ser analisadas. Relacionar “Licurgo” a uma figura lendária, outra ao comunismo. O homem que deu leis tão rígidas e célebres aos gregos chamava-se “Licurgo” e viveu no século IX aC. Era um sábio famoso por sua honestidade. Foi ele quem determinou que as crianças do sexo masculino que fossem saudáveis, a partir dos 7 anos passariam aos cuidados do estado. Seriam os futuros guerreiro espartanos. Quanto aos portadores de deficiência eram jogados no abismo de “Taigeto”. Até mesmo as mulheres espartanas tinham frases célebres quando recebiam a notícia da perda de um filho. - Eu sabia que ele era mortal, coloque seu irmão em seu lugar.
 
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Redação: Paulo Zamboni
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