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A Guerra do Iraque
- Paulo Zamboni
Escrito pelo especialista em assuntos militares britânico John Keegan o livro "A Guerra do Iraque" aborda os antecedentes históricos da campanha militar relâmpago que removeu do poder o ditador Saddam Hussein.

Escrito pelo especialista em assuntos militares britânico John Keegan o livro "A Guerra do Iraque" (Editora Biblioteca do Exército 2005. 288 páginas) aborda os antecedentes históricos da campanha militar relâmpago que removeu do poder o ditador Saddam Hussein, descrevendo a política interna e externa iraquiana desde o final da Primeira Guerra Mundial, quando a derrota do Império Otomano resultou na formação do Iraque, suas relações com o Ocidente, a ação do nacionalismo árabe no país, até o surgimento da figura de Saddam Hussein com suas manobras que misturavam habilidade política e violência para chegar ao poder.

 

John Keegan demonstra que o comportamento errático do ditador iraquiano em muitos pontos o deixava mais próximo de um Hitler do que de Stalin, ídolo do tirano. Assim, se por um lado era um bom administrador que atendia às demandas da população iraquiana por progresso com os recursos provenientes do petróleo e fazia acordos territoriais com o governo do Xá do Irã e econômicos com a Rússia para reduzir a ação dos dissidentes curdos, por outro era capaz de pôr tudo a perder desencadeando uma guerra com poucas chances de vitória contra o Irã, que levou o Iraque à falência e influenciou decisivamente na posterior invasão do Kuwait, levando o governo iraquiano à condição de pária internacional.

 

Este tipo de erro e a incapacidade em perceber seus próprios limites – insistindo em confrontar a comunidade internacional e os EUA, a ponto de planejar o assassinato do ex-presidente George Bush durante uma visita ao Kuwait, em 1993 – acabaram por provocar o isolamento e queda final do ditador. Apesar de tudo, é muito provável que se Saddam Hussein houvesse adotado um comportamento mais moderado e agido com bom senso teria preservado seu poder e até mesmo exercido algum papel moderador no Oriente Médio, dadas suas boas relações com o Ocidente e a Rússia, em grande parte decorrentes de sua atuação na contenção da influência do Irã dos aiatolás.
 
O autor analisa tanto o pensamento dos chamados neoconservadores americanos, que influenciaram todo o arcabouço ideológico da campanha contra o Iraque, quanto o comportamento das elites políticas européias, burocratizadas e apegadas a aparências, hostis a iniciativas individuais e práticas como as adotadas pelo governo americano para resolver  problemas internacionais. Keegan explica como os europeus demonstraram um enorme irrealismo político, achando que uma confederação de burocratas estatólatras seria o suficiente para fazer valer a aplicação de leis e tratados, quando, na prática, somente com uma poderosa salvaguarda bélica isso é viável. Confrontados pelos fatos, os membros dessa elite adotaram uma posição de grande hostilidade aos americanos, que muitas vezes ultrapassou a razoabilidade, mesmo na Grã-Bretanha, onde o governo manteve-se fiel aos EUA durante o conflito.

Em grande medida isso se refletiu também na atuação da imprensa. Keegan, que esteve ele próprio atuando como correspondente de guerra no Iraque na época, descreve como a grande mídia dedicou-se muitas vezes a distorcer informações, dando a impressão que graves dificuldades militares afligiam as forças invasoras, pressagiando um desastre militar que supostamente aconteceria quando a capital iraquiana, Bagdá, fosse atacada,  ou então criando versões cinematográficas de episódios ocorridos durante as operações, como o resgate de uma militar americana que havia sido capturada pelos iraquianos.
 
O livro revela a completa dispersão das forças militares iraquianas, que praticamente não lutaram, quem formava os esparsos núcleos de resistência armada e como eles tiravam proveito da perigosa indiferença da população civil iraquiana diante dos tiroteios que aconteciam em algumas zonas urbanas, provocando baixas entre inocentes e seu uso propagandístico por uma mídia francamente hostil.
 
São ressaltadas ainda as mudanças em relação à guerra de 1991, como o emprego de um número muito menor de tropas pelas forças anglo-americanas, além das diferenças da metodologia bélica americana e inglesa, mostrando que se de um lado os americanos são insuperáveis em poder de fogo, tecnologia e logística, os ingleses permanecem mestres no jogo de relações públicas e relacionamento com a população civil. Assim, enquanto os americanos cometeram muitos erros na etapa inicial da pacificação do país – como a desativação do aparato administrativo do governo deposto – que acabaram por dificultar os objetivos de estabilizar o país no curto prazo, os ingleses conseguiram pacificar rapidamente sua zona de ocupação, no sul do Iraque.
 
O livro é um trabalho sóbrio e convincente do experiente autor britânico, que merece a atenção do público interessado em conhecer detalhes da campanha que derrubou Saddam Hussein e suas consequências.
 
Uma obra que pode complementar o trabalho de Keegan é o livro “Tempestade do Deserto”, de Frank N. Schubert e Theresa L. Kraus (Bibliex, 1998, 403 páginas) que é essencialmente uma ampla descrição dos detalhes técnico-logísticos, com seus desdobramentos, relacionados à Primeira Guerra do Golfo, em 1991.
 
A título de curiosidade, John Keegan teve participação destacada na série de livros "A História Ilustrada da Segunda Guerra Mundial", publicada no Brasil durante a década de 1970, e que até hoje é muito lembrada por aficionados pelo tema.
 
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COMENTÁRIOS
18/11/2009
(zecapere@gmail.com)

Com este lúcido artigo compreendí melhor esta calamitosa situação. Sempre os vís interesses particulares se assenhoram das benesses que deveriam ser canalizadas a maioria dos habitantes, dando-lhes melhor qualidade de vida. No entanto, vivemos assombradamente com governantes, se não são títeres são do tipo o "Estado Sou Eu".
 
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