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O homem que roubou Portugal
- Redacao Midia@Mais
Esqueça Madoff. Esqueça a atual crise financeira e todas as transações não contabilizadas ou ilegais e a engenharia financeira dos subprimes. O maior crime financeiro de todos os tempos foi praticado em Portugal, em 1925, por um homenzinho, Artur Virgílio Alves Reis, que não tinha curso superior e se fazia passar por engenheiro, tendo atuado com certo destaque em Angola. A fascinante história dessa gigantesca fraude financeira está relatada no livro O Homem que Roubou Portugal de autoria de Murray T. Bloom (Editora Zahar), organizado e prefaciado por Gustavo Franco.

Esqueça Madoff. Esqueça a atual crise financeira e todas as transações não contabilizadas ou ilegais e a engenharia financeira dos subprimes. O maior crime financeiro de todos os tempos foi praticado em Portugal, em 1925, por um homenzinho, Artur Virgílio Alves Reis, que não tinha curso superior e se fazia passar por engenheiro, tendo atuado com certo destaque em Angola. A fascinante história dessa gigantesca fraude financeira está relatada no livro O Homem que Roubou Portugal de autoria de Murray T. Bloom (Editora Zahar), organizado e prefaciado por Gustavo Franco.

Obviamente, se tomado na perspectiva da crise atual, em que os pacotes governamentais de ajuda bilionários já se converteram em regra, o crime de Alves Reis perderia significado em termos monetários. Contudo, do ponto de vista individual, como recorda Franco, ele é, sem dúvida, uma ação sem precedentes, estimando-se o valor total da fraude em torno de 3% do PIB português da época.
 
E como foi urdido esse crime fantástico? Alves Reis começou a estudar os estatutos do Banco de Portugal – empresa de capital aberto e sem controlador definido – que  fazia as vezes de Banco Central, tendo, inclusive, o monopólio da emissão de moeda. Em sua análise, descobriu que, muitas vezes, para financiar os excessos do gasto público português, o Banco era chamado a emitir moeda, sem que se esperasse por autorização legal.
 
De posse dessa informação e munido apenas de uma velha máquina de escrever, Alves Reis começou a falsificar contratos que o autorizavam a solicitar emissões de moeda com a mesma firma inglesa – Waterlow & Sons – que fabricava o papel moeda para o Banco de Portugal. Os contratos eram supostamente sigilosos,  representando a vontade de uma parte dos acionistas do Banco, que estavam empenhados em contribuir para o desenvolvimento de Angola.
 
O financiamento da operação correu por conta de dois empresários: um holandês e um alemão, cujos antecedentes também não eram dos mais recomendáveis, e o apoio logístico foi dado por outro português, cujo irmão era diplomata em Haia.
 
O autor descreve como o grupo, numa quase inacreditável sucessão de coincidências e golpes de sorte, conseguiu realizar essa "emissão paralela" de moeda, convertendo as notas falsas – na verdade, duplicadas – em moeda forte depositada em Portugal e em vários outros países, e fundando o Banco de Angola e Metrópole.
 
Logicamente, parte importante desses recursos foi utilizada em benefício próprio do grupo, mas, paradoxalmente, também foram empregados recursos na realização de uma série de empreendimentos que contribuíram para a reativação econômica da quase moribunda colônia de Angola. Essa política monetária "feita com as próprias mãos", na feliz expressão de Franco, também beneficiou a economia portuguesa, a partir da expansão provocada no crédito e da desvalorização do escudo português – no que, de certa forma, representou uma espécie de política desenvolvimentista, "keynesiana".
 
Tão incrível quanto a sucessão de eventos que possibilitou a fraude foi sua descoberta, feita por um simples funcionário de uma casa de câmbio no Porto, por ocasião de uma segunda "emissão paralela" realizada pelo grupo. Praticamente todos os integrantes do grupo foram presos, seguindo-se julgamentos que marcaram época– tanto em Portugal, quanto na Inglaterra, onde a Waterlow & Sons foi processada por negligência.
 
Essa quase inverossímil história permite extrair algumas lições. Em primeiro lugar, ressalta os perigos que a falta de definição das instituições monetárias pode causar em uma economia na qual – como no caso brasileiro do passado – abre-se espaço para a existência de mais de uma fonte emissora de moeda. Em segundo lugar, reforça a importância de contar com um Banco Central autônomo, verdadeiramente independente de vontades políticas e de pressões de grupos de poder, genuinamente ou não, seduzidos pela tentação desenvolvimentista.
 
 



 
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Redação: Paulo Zamboni
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